#65 O Coronel e o Lobisomem

Título: O Coronel e o Lobisomem

Autor: José Cândido de Carvalho

Primeira publicação: 1964

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora José Olympio

“Por essas e outras, e por ser franco e não gostar de pregar peças a ninguém, é que eu podia garantir ser lobisomem raça de muito recurso de ideia e maldade na cabeça…”

O carioca José Cândido de Carvalho, filho de portugueses que se estabeleceram no município de Campos de Goytacazes, iniciou o exercício da escrita como redator e revisor de diversos periódicos, como O Cruzeiro, O Dia e Gazeta do Povo. Formado em Direito, chegou a exercer a advocacia por algum tempo. Ademais, acabou se destacando pela forte produção literária, dotada de humor ágil e personagens inesquecíveis. Seu segundo romance, O Coronel e o Lobisomem, foi concebido como uma coletânea de crônicas com observações dos tipos populares que encontrava em sua terra natal que, mais tarde, deram origem a uma narrativa excepcional. A primeira tiragem de três mil exemplares logo se esgotou devido à grande recepção pelos leitores e pela crítica especializada no momento de sua publicação, firmando-se como seu trabalho mais expressivo.

O livro na verdade tem como título O Coronel e o Lobisomem: Deixados do Oficial Superior da Guarda Nacional, Ponciano de Azeredo Furtado, natural da Praça de São Salvador de Campos dos Goytacazes, sendo estruturado como o relato de um coronel que aparentemente existiu. Ademais, o impresso demonstra seu lado marcadamente ficcional ao explorar os resíduos da sociedade típica do interior rural das primeiras décadas do século XX através da naturalização do elemento fantástico presente nas superstições e lendas advindas da cultura popular, oscilando entre a primeira e a terceira pessoa do discurso. O protagonista Ponciano de Azeredo Furtado herdou a patente e a fazenda do avô Simeão, que fora oficial superior da Guarda Nacional. Trata-se de um herói decadente que se mostra desajustado ante o crescente circuito urbano e seus novos costumes. Atraído pela atividade de negociante, emigra para a grande cidade, não conseguindo, porém, integrar-se àquele meio por ser fraco no entendimento de coisas econômicas e administrativas, esbanjando o dinheiro e caminhando para uma eminente falência, numa clara referência ao declínio da política coronelista.

Solteirão convicto, o narrador era cobiçado por mães ansiosas pelo casamento de suas filhas, ainda mais por ser um homem rico. Mesmo mulherengo, apaixonou-se platonicamente por sua prima Esmeraldina, uma mulher casada cuja relação nada lhe rende concretamente. Este fator é responsável por evidenciar que o grandalhão de personalidade rude e truculenta também se constitui de inocência, generosidade e poesia.

Ponciano cativa pela sua verve de contador (ou inventor) de histórias, aventurando-se em situações das mais estapafúrdias. Entre suas façanhas estão a luta contra um valentão de circo (Vaca-Braba), o embate com um cobrador de impostos, a caça de uma onça-pintada, o envolvimento com uma sereia, o investimento em um galo de briga (Vermelhinho) e o ponto culminante do livro: a peleja com o lobisomem que assombrava suas terras. Estas singulares memórias vão apresentando um dos personagens mais bem desenvolvidos da literatura nacional – uma figura talhada entre a hipérbole e a loucura, mas que de tanto parecer real, permanece necessário e deveras atual.

O grande mérito do texto de Cândido de Carvalho se deve ao esforço contínuo de empregar calculadamente na elaboração da narrativa diversos termos e expressões coloquiais, conciliando a linguagem despretensiosa do narrador ao universo que ele descreve. Além disso, o autor se vale de vários neologismos construídos por prefixos e sufixos inesperados, além da junção inusitada de vocábulos remetendo ainda mais ao poder da oralidade sertaneja. Todavia, a mistura picaresca com a vertente formal da língua pode dificultar para alguns uma assimilação mais fluente do que é narrado.

O escritor fluminense soube como ninguém unir um intenso lirismo à simplicidade interiorana, marcada pelo humor cotidiano, numa verdadeira obra-prima extremamente interessante e atraente.

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Referências Utilizadas:

CARVALHO, J. C. O coronel e o lobisomem. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
ISBN: 9788503009805

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Filmoteca: O Coronel e o Lobisomem (2005). Filme dirigido por Maurício Farias, com Diogo Vilela, Ana Paula Arósio, Selton Mello, Tonico Pereira, Andréa Beltrão e Othon Bastos.

A adaptação para o cinema estabelece uma nova trama a partir do enfoque em uma parte específica do romance. A recriação do enredo recorre ao restante da narrativa literária por meio de flashbacks guiados pelo protagonista, mantendo o tom confessional e de autoadmiração de seu discurso. O filme preserva a construção dos personagens e a comicidade presente no livro, principalmente no tocante ao emprego dos neologismos e às frases empoladas de Ponciano, interpretado com esmero pelo ator Diogo Vilela. Os efeitos especiais muito contribuem para dar vida ao universo imaginário apresentado na obra de José Cândido de Carvalho. Destaque para a ilustre participação de Othon Bastos como o avô Simeão.

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