#93 Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais

Título: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais

Autor: Cora Coralina

Primeira publicação: 1965

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Global

“Becos da minha terra,
discriminados e humildes,
lembrando passadas eras…”

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, mais conhecida como Cora Coralina, continua sendo uma das maiores expressões das letras brasileiras do século XX. Mulher simples, sem muito estudo, a goiana despontou como significativa porta-voz da arte que vem do povo, da força e grandiosidade da memória oral. Distante dos grandes centros urbanos, ela teve sua literatura descoberta tardiamente, estreando em livro quando já contava 75 anos.  Tal debute, o prestigiado Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, apresenta um interessante retrato da arquitetura e paisagem sociocultural da cidade natal da autora, tendo o saudosismo e o cotidiano como principais referências.

A coletânea recolhe testemunhos de uma exímia rapsoda, traçando ricas descrições de vivencias, objetos, gestos, lugares e tradições, objetos de seu lembrar. As longas composições em verso livre denunciam a ruína dos becos históricos do município de Goiás ao mesmo tempo em que lhe empregam um tom elegíaco. Dessa maneira, recriam cenas públicas e íntimas, construções antigas e figuras de diferentes classes em permanente tensão.

Em idas e vindas pelas ruas estreitas, a escritora vai construindo liricamente pequenas narrações no desdobramento de seu presente de enunciação para o passado e o futuro, pontuando tanto o seu olhar subjetivo como sua identificação com o coletivo. Os poemas, direcionados às novas gerações, resgatam a imagem de grandes sobrados e casarões antigos, morros e igrejas, além de contemplar flagrantes da rotina de lavadeiras, boiadeiros, prostitutas, beatas e menores abandonados. É a partir das vias de passagem que Coralina também parece descobrir a si mesma e caminhar para a autoafirmação.

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Minha Cidade

Goiás, minha cidade…
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.

Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.

Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.

Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

(CORALINA, 2014, pp. 34-36)

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Aqui, a palavra poética evoca um contundente registro da experiência humana. Os becos seculares, como ambientes naturais de transição, ainda concentram estórias e crendices populares que formam um universo imaginário próprio, cheio de simbolismo e por vezes ligado ao sobrenatural. Todavia, a autora preocupa-se em mostrar as mazelas de tal cenário urbano, principalmente no tocante à degradação e à miséria que o integram. Assim, ela coloca-se próxima e cúmplice dos marginalizados e mal-afamados que vivem pelas ruas,  oferecendo-lhes protagonismo.

A linguagem coloquial empregada muito se assemelha à fala sertaneja, equilibrando bom humor e leveza de ritmo. O eu-lírico quase sempre se confunde com a própria poeta, aparentando conversar com a cidade, notando suas transformações, quando não se volta diretamente aos leitores, em quem deposita certo otimismo ante o porvir.

Nesse marcante primeiro livro, sem pieguismo, com emocionante singeleza e requintada autenticidade, Cora Coralina nos brinda com sensíveis impressões visuais que refletem a potência do tempo e muito revelam sobre as raízes do nosso país.

*Os versos que compõem a citação de cabeçalho são do poema ‘Becos de Goiás’.

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Referências Utilizadas:

CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo: Global, 2014.
ISBN: 9788569476115

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2 Comentários

  1. Que poema maravilhoso, que concentração melódica! Fiquei encantada com o vocabulário, que não é nada simples, com a metáfora das “casas encostadas – cochichando umas com as outras”, com a fidelidade às próprias origens – “Eu vivo nas tuas igrejas – e sobrados – e telhados e paredes.” Enfim, amei o poema. Obrigada Valnikson por trazer para este blog textos tão bons.

    Responder
  1. Cora Coralina, Todas as vidas Estréia dia 14 de Dezembro nos Cinemas – caffecomletrasblog

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