Extrato Poético: Marina Colasanti

Às Seis da Tarde

Às seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.

Marina Colasanti in ‘Gargantas Abertas’ (Editora Rocco)

Extrato Poético: Karina Buhr

Adiou

deixou passar o pogo
do fogo adiado
asia demasiada
do fervor medroso
o amor dormente
nem comentar pra não dar ideia
nem começar pra não acabar
pra continuar na demência
tanta precaução no lidar
que passou da hora

Karina Buhr in ‘Desperdiçando Rima’ (Editora Rocco – Fábrica 231)

Extrato Poético: Torquato Neto

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;

agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim do fim de tudo
e o tem do tempo vindo;

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento

Torquato Neto in ‘Torquatália – Volume 1 (Do Lado de Dentro)’ (Editora Rocco)

Extrato Poético: Torquato Neto

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto in ‘Torquatália – Volume 1 (Do Lado de Dentro)’ (Editora Rocco)

#05 A Hora da Estrela

Título: A Hora da Estrela

Autora: Clarice Lispector

Primeira Publicação: 1977

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Rocco

“Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz.”

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