Dica – Série


O termo “super libris” é utilizado para designar a marca de propriedade gravada na encadernação de um livro. Nada mais apropriado para ser título de um projeto que discute a identidade genuinamente brasileira das diversas formas de expressão literária. A série Super Libris (2015), composta por cinquenta e dois episódios produzidos pela Sesc TV, tem roteiro e direção do escritor e pesquisador José Roberto Torero, trazendo entrevistas com autores, resenhas de obras e depoimentos de profissionais relacionados ao mundo editorial. Cada programa de aproximadamente vinte e seis minutos segue um tema e é dividido em quadros que recebem nomes de outras designações do glossário referente à edição de livros.

Dentre as seções fixas, estão a Folha de Rosto, a primeira parte de todos os episódios, em que um escritor da literatura nacional é entrevistado acerca de alguma característica evidente em sua produção escrita (podendo ser o tratamento dado a certo assunto ou conteúdo, a utilização de determinados gêneros e suportes, a vinculação de algum elemento estilístico ou até o próprio contexto de elaboração dos textos). Nas duas Orelhas, são indicados autores relacionados a tal tema, através de criativas minibiografias. O Prefácio é realizado por Dolores Prades, Cristiane Tavares e Gabriela Romeu, três especialistas em literatura infantil e juvenil que recomendam obras para os leitores iniciantes, também de acordo com o tema proposto. Na Quarta Capa, um booktuber brasileiro indica algum livro ligado à temática discutida, traçando comentários do que mais lhe chamou atenção durante a leitura. Já no Pé de Página, os autores anteriormente entrevistados respondem onde, como e por que escrevem. Por último, o Primeiras Impressões encerra o episódio, com estes escritores apontando um livro que os inspirou a produzir sua arte. Os blocos Ptolomeus e Colofão aparecem em alguns programas, mostrando pessoas envolvidas nos processos de produção e comercialização do livro, como ilustradores, distribuidores, tipógrafos, designers, tradutores, etc. e bibliotecas diferentes ou inusitadas abertas ao público brasileiro.

Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer as opiniões de Ignácio de Loyola Brandão, Ruy Castro, Ruth Rocha, Chacal, Luis Fernando Verissimo, João Carlos Marinho, Ricardo Azevedo, Xico Sá, João Gilberto Noll, Ana Miranda, Eduardo Spohr, Silviano Santiago, Clarah Averbuck, Martha Medeiros, André Vianco, dentre tantos outros autores, sobre os diferentes caminhos da fonte brasileira, unidos pelo poder da escrita e da leitura.

A dinâmica da série possibilita um verdadeiro mergulho no que há de melhor no cenário literário nacional, entre o cânone e as listas de mais vendidos, promovendo importantes reflexões sobre o passado e o futuro de nossas letras. Alguns dos episódios mais interessantes discutem justamente as nossas raízes, as influências das novas mídias e do que é feito no exterior.

Todos os programas da série podem ser assistidos no site do projeto.

Dica – Curta

O ato de ler um livro em muito se assemelha ao de perceber o mundo de olhos fechados. A descrição dos autores são apenas um ponto de partida. Os ambientes, os personagens e as situações surgem mesmo é da nossa imaginação. O enredo de O Cego Estrangeiro (2000) tem como premissa estimular a mente para a ilustração do que é contado. Dirigido por Marcius Barbieri, o curta-metragem experimental se dá através de legendas em um fundo totalmente preto. Na tela, um narrador cego, de idioma estranho (na verdade inventado), apresenta a história encantadora de um casal envolvido com o universo da leitura. O filme acaba sendo construído pelos espectadores, em uma participação prazerosa e ativa, como se estivessem lendo um livro. A experiência tem como resultado uma interessante combinação do Cinema com a Literatura.

O filme pode ser assistido no site Porta Curtas.

Dica – Documentário

Há um limite entre a música e a poesia no Brasil? A palavra na música popular brasileira e nos poemas de autores de língua portuguesa é o tema do documentário Palavra (En)cantada (2009), dirigido por Helena Solberg. O filme, de atmosfera intimista, apresenta o cancioneiro nacional sob a perspectiva histórica, focando na relação entre os versos cantado e escrito, reunindo depoimentos de especialistas e grandes nomes da cultura brasileira.

Viajando pelos mais diversos movimentos musicais do país, dos mais antigos aos mais novos, a produção interliga as entrevistas com imagens de apresentações e entrevistas raras. João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes, Hilda Hilst e Carlos Drummond de Andrade, poetas notáveis na literatura tupiniquim, têm sua obra discutida por grandes compositores brasileiros, como Tom Zé, Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Chico Buarque, Lenine, Maria Bethânia, Zélia Duncan, Lirinha e BNegão. Uma verdadeira aula de literatura e cultura brasileiras.

Dica – Curta

Uma dedicatória modifica um livro, o acrescenta uma nova história. Devo confessar que já a considerei uma forma de agressão às obras, mas hoje consigo ver o quão especial ela se torna junto as páginas a serem lidas. Um ótimo curta-metragem que descobri há alguns dias retrata bem a importância das dedicatórias. Em Dedicatórias (1997), curta-metragem de Eduardo Vaisman, a jovem viúva Carmen (interpretada pela atriz Zezé Polessa) coleciona dedicatórias de amor em livros que compra em um sebo próximo ao bar em que trabalha. Romântica e fã de Vinicius de Morais, a mulher não desconfia que sua história e relação com o dono do sebo e o seu patrão (vividos por Carlos Gregório e Elias Andreato, respectivamente) escondem muitos segredos e paixões, como as palavras por ela contadas nas dedicatórias que encontra.

O filme pode ser assistido no site Porta Curtas.

Dica – Curta

O enredo de O Nosso Livro (2005) é simples, mas o seu desenrolar mostra uma história repleta de delicadeza e sensibilidade. No curta-metragem, dirigido por Claudia Rabelo Lopes e Luciana Alcaraz, conhecemos o casal Roberto (vivido por Marcos Caruso) e Isabel (interpretada por Vera Holtz) que trocam bilhetes em livros numa biblioteca. Mesmo não se conhecendo, a relação dos dois acaba por se estreitar e amadurecer em meio as páginas dos livros velhos e as estantes empoeiradas. A poesia permeia toda a narrativa, com referência a diversos autores, como o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Um conto interessante para os românticos e amantes da literatura.

O filme pode ser assistido no site Porta Curtas.

Dica – Série

Tudo o que é Sólido Pode Derreter (2009) é uma ótima produção brasileira que mostra o envolvimento de uma garota com as obras da literatura em língua portuguesa que estuda na escola. A série, constituída por treze episódios, foi baseada num curta-metragem de mesmo nome dirigido por Rafael Gomes. No enredo, a garota de 15 anos Débora (vivida pela ótima Mayara Constantino) tem de estudar a peça Hamlet, de Shakespeare, justamente quando passa por alguns dilemas. Conforme começa a compreender o protagonista da peça, a menina passa a compartilhar de suas dores e, a partir delas, aprende a se fortalecer para a vida. Na série televisiva, exibida pela TV Cultura, a jovem Theresa  (também interpretada por Constantino) descobre e envolve-se, a cada episódio, com um livro importante da literatura de língua portuguesa. Viajando entre os romances, poemas e peças de teatro que lê, a garota acaba por traçar um diálogo muito especial entre a as situações vividas pelos adolescentes atuais e os sentimentos contidos nas obras.

Os títulos escolhidos para compor os episódios acompanham toda a linha histórica da literatura feita em português, sendo tratados de forma madura e criativa pelos autores da série. Destaco os episódios referentes à Macunaíma, O Herói Sem Nenhum Caráter de Mário de Andrade, Macário de Álvares de Azevedo e Dom Casmurro do mestre Machado de Assis. A trilha sonora também é maravilhosa, com músicas de Tiê e Pato Fu.