#79 Mar Absoluto e Outros Poemas

Título: Mar Absoluto e Outros Poemas

Autor: Cecília Meireles

Primeira publicação: 1945

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Global

“Foi desde sempre o mar.
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.”

Cecília Meireles, além do notório trabalho poético, foi ensaísta, cronista, folclorista, tradutora e educadora. A dedicação às letras foi reconhecida por diversos prêmios importantes recebidos pela escritora ainda em vida, com a crítica especializada e o público cativo perpetuando seus escritos e a consagrando como um dos maiores nomes de nossa literatura. Sua produção aparentemente se voltava mais a uma universalização de sentidos, mesmo marcada pela forte verve testemunhal e memorialística, servindo-se de dilemas históricos e do seu contemporâneo. A coletânea Mar Absoluto evidencia uma lírica carregada de musicalidade, melancolia e virtuosismo verbal, assinalando-se como uma das obras mais relevantes da autora carioca.

O mar, sua beleza e seus mistérios, constituem a principal motivação do compêndio, em um exercício de admiração deveras intimista. Todavia, temas como a morte, a ausência, a resignação, a fugacidade do tempo e a solidão, assim como cenas representativas do cotidiano, também têm preferência no livro. As composições manifestam uma perfeita harmonia sonora intrinsecamente ligada à acuidade perceptiva de versos sintéticos. A destreza no olhar pictórico ainda denota, em determinados momentos, certa atmosfera de abstração e sonho, sempre em tom sereno, quase místico.

Destaca-se a constante utilização de recursos visuais no retrato das inquietações humanas, com a poetisa conseguindo transpor aos seus versos a força ou delicadeza de elementos da natureza em comparação aos sentimentos de um eu-lírico em estado de paradoxo. Esta peculiaridade de engenho pode ser conferida nos denominados ‘Motivo da Rosa’, poemas de grande força estilística dispersos em todo o livro, e em ‘Inscrição’, que igualmente trata do impasse em relação à efemeridade.

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Inscrição

Sou entre flor e nuvem,
Estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
Limitados em chorar?

Não encontro caminhos
Fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
Que não sabem de água e de ar.

E por isso levito.
É bom deixar
Um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

Rastro de flor e estrela,
Nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
A sombra é que vai devagar.

(MEIRELES, 2001, p. 125)

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Em tal composição, a escritora questiona a existência entre o instinto e a sensibilidade através de um eu-poético estimulado a seguir em frente ao mesmo tempo em que deixa seu rastro no tempo. A paisagem espiritual é elaborada recorrendo a uma linguagem simples, o que acarreta um ritmo fluido que traz leveza à névoa da interpretação. Aqui, como em tantas outras linhas presentes na coletânea, a profundidade não acarreta a obscuridade.

A impermanência e a transitoriedade parecem atravessar e guiar o compêndio, desde a metáfora apresentada em seu título e, consequentemente, no poema homônimo: o “absoluto” ligado ao mar ressalta sua grandeza, indeterminação e falta de limites. Muitos estudiosos do arranjo ceciliano sugerem inclusive que o nome faz referência ao passado familiar da autora, com avós e tios navegadores. Esta visão ressalta a própria imagem de herança criada através dos versos, como despedida que ecoa e se esvai.

Sempre atenta à imensidão que a rodeava, Cecília Meireles construiu expressivas joias unindo a simplicidade léxica ao preciosismo de cadência. Uma artista que, detendo de um poder transfigurador, nos brindou com versos que são reflexos da própria existência em todas as suas nuances.

*Os versos que compõem a citação de cabeçalho são do poema ‘Mar Absoluto’.

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Referências Utilizadas:

MEIRELES, C. Mar absoluto e outros poemas. São Paulo: Global, 2001.
ISBN: 9788526022171

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6 Comentários

  1. CARLA LUND

     /  26 de novembro de 2016

    EXCELENTE ARTIGO. ADORO ESSE LIVRO.

    Responder
  2. Adoro os poemas de Cecília Meireles, e esta riqueza que é a literatura brasileira, é cultura é sensibilidade, é um povo todo descrito em cada palavra… li este livro ainda bem pequena na escola, foi um dos primeiros livros de poema que li na verdade… adoro este livro.

    Responder
    • Eu também sou encantado pelos versos da Cecília. Que mágico deve ter sido o contato com essa autora na descoberta das primeiras leituras, Joyce! Vim conhecê-la de verdade já na adolescência, justamente por esse título. Muito obrigado pelo comentário e pela visita! Espero que continue acompanhando o blog. Abração!

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  3. Parabéns! Vale lembrar que a autora também teve papel importante como participante do movimento “escolanovista”. Mulher admirável em muitos sentidos. Uma dos poemas que marcaram bastante minha infância foi “Ninguém me venha dar vida” (1947). Sempre inspiradora.

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    • Sim, Marcelo! A Cecília sempre foi multi, se inserindo em várias áreas da intelectualidade brasileira. Li muito de sua crítica educacional e sobre a literatura infantil para os meus estudos acadêmicos. Também gosto muito da composição que você citou! Logo logo esta autora volta a pintar por aqui no blog. Muito obrigado pela visita! Grande abraço!

      Responder

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