#61 Cazuza: Só as Mães São Felizes

Título: Cazuza: Só as Mães São Felizes

Autor: Lucinha Araújo e Regina Echeverria

Primeira publicação: 1996

Modalidade: Não Ficção

Minha Edição: Editora Globo

“Um dia pensei ter poderes divinos e que o poder de uma mãe poderia alcançar a graça suprema de mudar o rumo da história.”

A sólida trajetória profissional da jornalista Regina Echeverria atravessa o trabalho em renomados veículos impressos do Brasil, como diversas publicações do grupo editorial Abril, além das colunas que assinara em O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Jornal da Tarde. Também tendo participado do roteiro de diversas produções televisivas, a paulista, contudo, é mais conhecida pelos perfis biográficos que traçou de importantes figuras da cultura nacional, como Elis Regina, Mãe Menininha do Gantois, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. O livro Cazuza: Só as Mães São Felizes foi feito em parceria com Lucinha Araújo, mãe do inesquecível cantor e compositor carioca que, em emocionante depoimento, revelou detalhes sobre a relação com o filho único, sete anos após a sua morte.

O texto é construído em primeira pessoa, respeitando o relato de Lucinha e tornando-a, efetivamente, a coautora da obra. Entretanto, o arranjo ainda abarca declarações de diversos amigos e parceiros musicais, como Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Pedro Bial, Bebel Gilberto, Ezequiel Neves, Roberto Frejat, entre outros que atravessaram o caminho de Cazuza, além de trechos de entrevistas do próprio artista. Alguns versos do poeta de vida breve também aparecem nos capítulos.

Ao contrário do que podem pensar, não se trata de uma biografia “chapa branca”: num misto de desabafo e registro histórico, não há omissões claras sobre nenhum aspecto. Além do discurso de Lucinha, a pesquisa realizada por Echeverria recupera os anos de sexo sem culpa, de abertura política e de renascimento da juventude brasileira.

A dor da despedida de uma mãe que perdeu o rebento precocemente em decorrência de complicações com a AIDS ocupa principalmente a parte inicial do volume. Lucinha conta a difícil rotina de cuidados com Cazuza, precisando da ajuda de duas enfermeiras particulares, controlando a quantidade de soro, administrando os remédios, trocando o curativo do cateter, banhando-o durante os dias em que a sua saúde ficava cada vez mais debilitada. Ela e o marido, o empresário e produtor musical João Araújo, mantinham-se sempre otimistas quanto às possibilidades de tratamento e cura. Foi por confiarem na melhora do filho que os dois tiveram de providenciar o alicerce funerário de última hora. Do velório, Lucinha não se lembra de muita coisa, apenas de estar sempre cercada por um emaranhado de câmeras e repórteres tentando captar o seu sofrimento. A pedido dela, o caixão não foi aberto. Queria que as pessoas guardassem a imagem do ídolo bonito, forte e vigoroso.

Em seguida, a narrativa regressa vários anos para tratar da genealogia de Agenor de Miranda Araujo, que herdou o nome do avô paterno. Somos apresentados à jovem Lucinha, proveniente de uma tradicional família da elite do Rio de Janeiro. Independente, ganhava o próprio dinheiro costurando para fora, além de fazer quase tudo o que exigisse habilidade manual. Estudava Pedagogia na PUC e tinha aulas de inglês e violão. Conheceu João, rapaz sem muito estudo, mas entusiasta da indústria fonográfica, no verão de 1953, e largou tudo para ficar com ele. O namoro de quase cinco anos logo resultou em casamento, contrariando restrições e receios de familiares. O fruto do amor do casal veio em pouco tempo. Acabou apelidado Cazuza, que no interior do Nordeste significa “moleque”. O nome de batismo só foi realmente assumido quando ele descobriu que o grande Cartola também se chamava Agenor.

No despertar de sua adolescência rebelde, as brigas entre Agenor e os pais eram constantes. Seu desempenho escolar não era dos melhores e ele saia de casa constantemente acompanhado por um batalhão de amigos, voltando bêbado tarde da noite, chegando a ser preso. Foi nesse período que Lucinha, de personalidade forte e comportamento superprotetor, descobriu o seu consumo de drogas e bissexualidade.

Embora criado num ambiente musical, Cazuza demorou a demonstrar em casa a verve de cantor. Lucinha descobriu o talento do filho quando ele se envolveu com companhias teatrais: em uma encenação no famoso Teatro Cacilda Becker, o jovem cantou Odara, sucesso de Caetano Veloso. Ela assistiu à inusitada apresentação com surpresa e emoção.

Cazuza começou a trabalhar com o pai na gravadora Som Livre e encontrou o seu caminho ao entrar em contato com grandes nomes da música. Foi o cantor Léo Jaime quem teve a ideia de apresentá-lo para uns garotos que já haviam formado uma banda e estavam à procura de um vocalista. No Barão Vermelho, o jovem experimentou pela primeira vez o reconhecimento artístico e o sucesso, podendo participar da primeira edição do festival Rock In Rio em 1985. Lucinha o acompanhou em cada apresentação.

Em carreira solo, sem medos e sem freios, Cazuza amadureceu suas composições, incorporando críticas sociais e experimentando outros estilos além do rock. A descoberta de que ele havia contraído o vírus HIV não o impediu de seguir com seu desejo de transgressão. A decisão de assumir a doença à imprensa, numa época de grande preconceito, (principalmente porque ainda não se sabia muito sobre o problema, com o medo de contaminação sendo alimentado pela ignorância) só prova a coragem do filho de Lucinha.

A leitura é bastante fluida, mesmo com a inserção de outras vozes à fala de Lucinha Araújo. Mesmo com toda a dor de ver a ordem natural das coisas ser quebrada, o tempo não parou e ela decidiu voltar seus esforços a outros portadores do HIV, através da ONG Sociedade Viva Cazuza (que recentemente completou vinte e cinco anos).

O volume dispõe de uma rica seleção de fotografias raras e traz muitas curiosidades sobre o artista e sua mãe, mostrando, por exemplo, que Cazuza chegou a morar no mesmo prédio que o cantor e compositor Fagner, no Leblon, e era ótimo em Geografia quando criança, o que levou Lucinha a acreditar que ele se tornaria um engenheiro, arquiteto ou urbanista. Ela, por sua vez, “cantava como um passarinho”, nas palavras do filho, e chegou a lançar dois discos.

No fim, o livro é mais uma homenagem ao Agenor filho do que ao Cazuza artista. Lucinha é uma mãe apaixonada, como todas as outras. A cada palavra, ela demonstra-se privilegiada em tê-lo concebido e desfrutado de sua companhia. Dividindo momentos importantes que testemunhou, além de seu carinho e admiração, ela prova que aquele garoto que iria mudar o mundo, mudou e continuará mudando a vida de muita gente.

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Referências Utilizadas:

ARAÚJO, L. ECHEVERRIA, R. Cazuza: Só as mães são felizes. São Paulo: Editora Globo, 1997.
ISBN: 9788525038869

www.cazuza.com.br

www.vivacazuza.org.br

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Filmoteca: Cazuza – O Tempo Não Para (2004). Filme dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho, com Daniel de Oliveira, Marieta Severo, Reginaldo Faria, Andréa Beltrão e Leandra Leal // Cazuza – Sonho de Uma Noite no Leblon (2001). Filme dirigido por Marcelo Maia e Sergio Sanz, com participação de Lucinha Araújo, Ney Matogrosso, Cássia Eller, Roberto Frejat e Ana Beatriz Nogueira // Bete Balanço (1984). Dirigido por Lael Rodrigues, com Débora Bloch, Lauro Corona e Diogo Vilela.

O depoimento de Lucinha Araújo para Regina Echeverria serviu de base para o roteiro da cinebiografia de Cazuza, mostrando a trajetória pessoal e profissional do artista. A elogiada produção compreende o período entre o início da carreira do cantor e compositor, em 1981, até a morte em 1990, aos trinta e dois anos, também apresentando a intensa relação entre mãe e filho. Destaque para às fantásticas atuações de Daniel de Oliveira e Marieta Severo, além da ilustre aparição da própria Lucinha numa cena do filme. Já o documentário de média-metragem é composto de lembranças de Cazuza contadas por seus melhores amigos e por sua mãe. Os depoimentos são intercalados por maravilhosas interpretações de letras do poeta pela atriz Ana Betriz Nogueira, em diversos cenários do Rio de Janeiro. Por último, também indico o filme que deu maior visibilidade ao Barão Vermelho, que integrou seu elenco e sua trilha sonora, cuja música título foi um dos maiores sucessos da banda. A jornada da personagem Bete em busca do sucesso como cantora constituiu um perfeito retrato da juventude dos anos 1980.

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Musicoteca: Barão Vermelho (1982). Disco de Barão Vermelho. // Exagerado (1985). Disco de Cazuza.

Para acompanhar a leitura da biografia, deixo a indicação dos dois primeiros discos de Cazuza: o com a banda Barão Vermelho e o em carreira solo. Os álbuns são repletos de grandes composições, como “Todo O Amor Que Houver Nessa Vida”, “Down em Mim”, “Exagerado” e “Codinome Beija-Flor”, que sintetizam o enorme talento deste artista e sua importância para a música brasileira.

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  1. meus livros favoritos de 2016 | satãnatório

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