#64 Poemas Concebidos Sem Pecado

Título: Poemas Concebidos Sem Pecado

Autor: Manoel de Barros

Primeira publicação: 1937

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Leya

“Foi o vento quem embrulhou minhas palavras
meteu no umbigo e levou pra namorada?”

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Extrato Poético: Marcelo Yuka

Agora Nesse Momento

agora nesse momento
não tem o que eu me lembrei
não tem o próximo invento

agora nesse momento
não tem o peso do tempo
só tem o que me concentra

agora nesse momento
estou ao meu redor
como estou por dentro

agora nesse momento
eu sou o pulo e a barreira
sou eu que me enfrento

agora nesse momento
me sinto um pouco melhor
pra dar prosseguimento

não me acorde ansiedade
como testemunha do desejo
pois precisamos de mais
barulho
mais barulho do que bombas
tanto fora quanto dentro

Marcelo Yuka in ‘Astronautas Daqui’ (Editora Leya)

Extrato Poético: Manoel de Barros

O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

Manoel de Barros, in ‘Poesia Completa’ (Editora Leya)