Listeratura: Animais na Ficção

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Muitos escritores brasileiros utilizaram, em suas obras ficcionais, de personagens animais que muitas vezes possuem mais destaque que muitas figuras humanas. É curioso perceber como muitos deles são inclusive capazes de determinar o desenvolvimento da narrativa, influenciando o comportamento das pessoas com que dividem os escritos. Os bichos também constituem ótimos protagonistas, sendo dotados de uma percepção de mundo muito diferente da nossa, e ainda podem traçar alguma referência abstrata, contribuindo enquanto alegoria ou metáfora para o aprofundamento da trama. Uma coisa é certa: a inclusão de animais nos enredos os torna ainda mais interessantes. Nesta perspectiva, convido-os a relembrar alguns dos animais mais marcantes da nossa literatura.

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10 – Flox
Livro: Anarquistas, Graças a Deus – Zélia Gattai

Flox foi o grande companheiro de Zélia Gattai na infância. Em sua estreia na literatura, a escritora trouxe um compêndio de reminiscências, no qual o cãozinho toma destaque. Ele aparece em sua vida fugindo das pedradas de moleques da rua em que morava. Ferido, o cachorro escondeu-se embaixo do automóvel do pai da menina, sendo acolhido por sua mãe. Adotado, Flox se tornou o melhor e mais fiel amigo, sempre a defendendo de qualquer ameaça. Não tem como não se comover com a relação carinhosa dos dois. Viveu cerca de oito anos junto à família Gattai, se imortalizando como importante personagem de uma das obras mais notáveis da literatura nacional.

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097ec0da53b9b451c98f1dd8293b870fb61bf12d9 – Vismundo
Livro: Uma Vida em Segredo – Autran Dourado

A protagonista introvertida do excelente romance de Autran Dourado encontrou na convivência com um cachorro o real sentido de felicidade. Vismundo surgiu na vida de Biela ao acaso, quando esta voltava para casa numa noite. Ele a seguiu, mas não deixou que ela se aproximasse. Com o tempo, ela passou a alimentá-lo e os dois foram se cativando nos detalhes. O cão tornou-se a paixão da jovem, seu bem mais precioso, um verdadeiro companheiro de quem inclusive tinha ciúmes.

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8 – Nicolau
Livro: O Pagador de Promessas – Dias Gomes

É claro que o burro Nicolau está nesta lista, constituindo a base de toda a trama de O Pagador de Promessas. A devoção de Zé-do-Burro pelo amigo animal leva o protagonista da peça de Dias Gomes a pagar uma promessa feita a Santa Bárbara (Iansã). Com Nicolau salvo do perigo da morte (ele fora ferido por um galho de árvore), o homem compartilha seu sítio com lavradores pobres e inicia uma caminhada de sete léguas carregando uma pesada cruz de madeira a fim de depositá-la no interior de uma igreja em Salvador.

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7 – Marquês de Rabicó
Livro: Reinações de Narizinho – Monteiro Lobato

Rabicó é um porco guloso que se tornou fidalgo quando Narizinho enganou Emília, dizendo que ele na verdade era um marquês encantado por uma bruxa que só voltaria à forma original quando encontrasse um determinado anel na barriga de uma determinada minhoca. Interesseira, a boneca logo tratou de se casar com o gordo habitante do chiqueiro do Sítio do Picapau Amarelo, a fim de entrar para a nobreza. Rabicó é muito covarde e recebeu esse nome por causa de seu toquinho de rabo. Tia Nastácia vivia o perseguindo, querendo coloca-lo na panela, mas a neta de Dona Benta sempre o protegeu. Ele é certamente um dos personagens mais lembrados das aventuras infantis escritas por Monteiro Lobato.

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IRACEMA_1379896936B6 – Japi
Livro: Iracema – José de Alencar

O cão Japi torna-se o grande companheiro de Martim quando guia os guerreiros de Poti em seu socorro. O índio decide deixá-lo como protetor daquele homem branco, batizando-o com o nome que significa “nosso pé”, em referência ao papel que o animal deveria desempenhar: o “pé ligeiro” com que de longe os personagens corressem em ajuda um do outro. Corajoso e dedicado, o cachorro passa a estabelecer um importante elo entre o representante do mundo civilizado e a protagonista Iracema, a “virgem dos lábios de mel”.

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avidaíntimadelaura5 – Laura
Livro: A Vida íntima de Laura – Clarice Lispector

Mesmo se destacando como a galinha que mais botava ovos dentre as moradoras do quintal de Dona Luísa, Laura é descrita como uma figura simples, meio marrom, meio ruiva, pouco inteligente e com um feio pescoço. Casada com o galo Luís (de quem gosta muito, apesar das brigas), ela morria de medo de ir para a panela, desconfiando de todas as pessoas que se aproximavam. Muito simpática, recebe a visita de um habitante de Júpiter, que tenta entender o ser humano a partir da visão peculiar da ave. A vida da protagonista animal de um dos mais célebres textos infantis de Clarice Lispector acaba nos fazendo indagar sobre qual seria o nosso real propósito no mundo.

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A_Bolsa_Amarela4 – Afonso
Livro: A Bolsa Amarela – Lygia Bojunga

O galo protagonista da história escrita pela menina Raquel acaba se tornando real e pede para se esconder na bolsa amarela que ela havia guardado suas vontades. Ele aparece contando que fugiu do galinheiro porque não aguentava mais mandar nas galinhas, usando uma máscara para não ser reconhecido. O nome Afonso surge de um bolso daquela bolsa mágica, de onde o galináceo depois de um tempo sai para procurar ideias. Tem um primo que é galo-de-briga, o Terrível que, jogando dados sozinho, planejava uma revanche contra o Crista-de-Ferro. No desenrolar do inesquecível livro escrito por Lygia Bojunga, Afonso acaba se apaixonando por uma guarda-chuva e perdendo o medo de voar, constituindo um artifício simbólico que auxilia a protagonista na descoberta de si mesma.

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livro-colecao-cachorrinho-samba3 – Samba
Livro: O Cachorrinho Samba – Maria José Dupré

O notável personagem criado por Maria José Dupré com certeza divertiu a infância de muita gente, sendo ora coadjuvante, ora protagonista de livros lançados desde a década de 1940. Samba recebeu este nome porque, ainda filhote, assim que chegou a sua nova casa, começou a pular sobre a mesa onde foi colocado ao som de um samba que tocava no rádio. Ele participa de muitas aventuras junto ao menino Pedro e seus primos e amigos Vera, Cecília, Henrique, Lúcia, Oscar e Quico. Também tem vários companheiros caninos na vizinhança, como Cricri, além do colega Whisky, outro cão de estimação da família que o acolheu, com quem aprende a distinguir as diferenças sociais entre as pessoas, experimentando sensações que não estava habituado.

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QUINCAS_BORBA_1323219876B2 – Quincas Borba
Livro: Quincas Borba – Machado de Assis

As razões do título do ilustre romance de Machado de Assis, conforme a trama se desenrola, poderia ser uma referência tanto ao filósofo que morre logo em seu início, como ao seu cachorro de mesmo nome. Quincas Borba é apresentado com características e expressões muito parecidas com as do antigo dono que, em testamento, o deixa aos cuidados do enfermeiro e discípulo Rubião, como condição para que este desfrutasse de sua herança. Quincas acaba constituindo uma chave para a compreensão da teoria filosófica do Humanitismo, cujo princípio de existência se manifestaria em todo ser vivente, inclusive nos animais.

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204215_1GG1 – Baleia
Livro: Vidas Secas – Graciliano Ramos

A participação desta cadela na obra de Graciliano Ramos é ainda a mais significativa de toda a literatura brasileira. Baleia sempre acompanhava os filhos de Fabiano e Sinhá Vitória, o menino mais novo e o menino mais velho, gostando muito de brincar em lagoas, como “uma pequena baleia-jubarte em época de acasalamento nas águas mornas de abrolhos”. A forte figura canina traça um interessante paralelo com o protagonista do romance, na medida em que apresenta inúmeras características humanas, pensando, devaneando e agindo como gente, enquanto ele em muito se compara a um bicho, por ser rude e sem instrução, sendo provido de boa comunicação e lamentando nada poder fazer contra as adversidades da vida. O capítulo dedicado ao animal foi o primeiro a constituir o livro, apresentando uma personagem animal sensível, esperta e corajosa, essencialmente zelosa em relação à sua família.

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> Menções honrosas:

Quindim
(Caçadas de Pedrinho – Monteiro Lobato)

Conselheiro e Príncipe Escamado
(Reinações de Narizinho – Monteiro Lobato)

Papagaio
(Clarissa – Érico Veríssimo)

Papagaio Real
(Macunaíma: O Herói Sem Nenhum Caráter – Mário de Andrade)

Jaguar
(Max e os Felinos – Moacyr Scliar)

Churras
(Até o Dia Em Que o Cão Morreu – Daniel Galera)

Beta
(Barba Ensopada de Sangue – Daniel Galera)

Jacaré
(Mastigando Humanos – Santiago Nazarian)

Barata
(A Paixão segundo GH – Clarice Lispector)

Joãozinho
(O Mistério do Coelho Pensante – Clarice Lispector)

Angélica e Porto
(Angélica – Lygia Bojunga)

Lúcia
(Lúcia Já-Vou-Indo – Maria Heloísa Penteado)

Gorba
(O Matador – Patrícia Melo)

Bicho da Maçã
(O Bichinho da Maçã – Ziraldo)

Coelho Branco
(Menina Bonita do Laço de Fita – Ana Maria Machado)

Gato e Andorinha
(O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá – Jorge Amado)

Vaca
(A Vaca Voadora – Edy Lima)

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Lembrou de mais algum personagem animal não mostrada por aqui? Escreve lá embaixo nos comentários!

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1 comentário

  1. A Baleia realmente é imbatível no quesito “animais na literatura”, mas que legal que você se lembrou também do Samba. “O Cachorrinho Samba” foi o primeiro livro “longo” que eu li. Na verdade, ele tem pouco mais de cem páginas, mas pra mim, que ainda era uma criança, ele parecia um épico rsrs. Tenho meu exemplar até hoje.

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