Listeratura: Carnaval na Literatura

Carnaval é o nome dado ao rito tradicionalmente ligado à Igreja Católica realizado nos três dias que precedem a quarta-feira de cinzas ou primeiro dia da Quaresma (que equivale a quarenta dias de jejum). Todavia, com o passar do tempo, essa festividade foi abarcando elementos que se faziam notórios na oposição ao tom sério e religioso de sua origem. No Brasil, o festejo adquiriu contornos culturais e de manifestação popular, sendo hoje um feriado oficial comumente ligado à imagem de carros alegóricos em desfiles temáticos, bonecos gigantes e coloridos,  foliões fantasiados, cobertos de confete e serpentina, dançando ao som de ritmos agitados (como o frevo, o axé e o samba) em bailes ou conglomerados de rua. Cada região do país foi reinterpretando a festa de acordo com sua história e costumes locais, contribuindo para sua bela e enorme diversidade. É claro que uma época tão importante para tantos brasileiros também iria fazer-se presente em nossa literatura, com diversos autores celebrando seu clima de alegria ou refletindo sobre seus aspectos sociais. Nesta perspectiva, convido-os a relembrar alguns livros nacionais que se relacionam ao Carnaval, trazendo-o como cenário ou elemento simbólico de grande importância.

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#55 A Cinza das Horas

Título: A Cinza das Horas

Autor: Manuel Bandeira

Primeira publicação: 1917

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Global

“Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria…
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.”

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Extrato Poético: Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira in ‘Libertinagem’ (Editora Global)