Listeratura: Casais na Ficção

A literatura, enquanto expressão artística da essência humana, sempre contemplou a história de amor como interessante elemento para a ficção. De fato, os encontros e desencontros de casais permanecem surtindo algum efeito nos leitores, seja fazendo-os torcer por um final feliz ou odiar a combinação entre os personagens, seja simplesmente estabelecendo certo nível de identificação com o desenrolar dos relacionamentos narrados. Indo além da mera idealização romântica e se aproximando a uma dimensão mais autêntica da convivência amorosa, esta lista evoca alguns casais memoráveis da produção literária brasileira, com os escritores revelando diferentes perspectivas acerca do contato interpessoal e a intensidade de seus desdobramentos.

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Literafilia: Sobre as Paternidades de Machado de Assis

O fascínio pelo escritor Machado de Assis persiste de maneira impressionante, fato manifestado na intensa produção impressa que o têm como centro das atenções. Não contestando sua enorme habilidade artística e obliquidade de estilo, é certo que a posição historicamente construída de “maior figura” da literatura nacional muito contribuiu para esta conjuntura de febril estima e interesse. Ao mesmo tempo em que se alimentam teorias sobre aspectos particulares do passado do autor, surgem novos olhares sobre a influência de sua trajetória pessoal nas obras que publicou, aquecendo o meio acadêmico e a própria criação ficcional brasileira. Todavia, junto a descobertas importantes para a crítica, também são estimuladas diversas hipóteses de foro íntimo, como a que abrange a ocultação de um suposto filho fora do casamento. Tal pressuposto chegou a ser apontado como forma de desrespeito à sua memória por admiradores mais rígidos, ressaltando certa “sacralização” atribuída ao nome deste ilustre homem de nossas letras.

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#67 Memórias Póstumas de Brás Cubas

"Memórias póstumas de Brás Cubas"Título: Memórias Póstumas de Brás Cubas

Autor: Machado de Assis

Primeira publicação: 1881

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Scipione

“Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.”

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Listeratura: Mães na Ficção

Não há dúvidas de que a arte literária brasileira é cheia de personagens femininas notáveis pela enorme força. Muitas delas, aparecendo ou não na posição de protagonistas, tiveram na maternidade um ótimo ponto de exploração pelos escritores, que procuraram representá-las sob diferentes perspectivas, também utilizando-as como importantes vetores para a ruptura ideológica. Nos livros, assim como no contexto real, mães não são apenas aquelas mulheres que geraram a vida, mas também aquelas que adotaram, criaram e cuidaram, desempenhando muitas vezes o papel de pai em simultâneo. Sua relação com os filhos nem sempre poderá ser considerada positiva, mas não há quem refute a influência desta figura no desenvolvimento e constituição de cada indivíduo, mesmo que em ausência ou má-convivência. Neste sentido, convido-os a relembrar algumas das mais marcantes mães da nossa ficção.

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Listeratura: Animais na Ficção

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Muitos escritores brasileiros utilizaram, em suas obras ficcionais, de personagens animais que muitas vezes possuem mais destaque que muitas figuras humanas. É curioso perceber como muitos deles são inclusive capazes de determinar o desenvolvimento da narrativa, influenciando o comportamento das pessoas com que dividem os escritos. Os bichos também constituem ótimos protagonistas, sendo dotados de uma percepção de mundo muito diferente da nossa, e ainda podem traçar alguma referência abstrata, contribuindo enquanto alegoria ou metáfora para o aprofundamento da trama. Uma coisa é certa: a inclusão de animais nos enredos os torna ainda mais interessantes. Nesta perspectiva, convido-os a relembrar alguns dos animais mais marcantes da nossa literatura.

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Listeratura: Amizades na Ficção

Amigo a gente guarda dentro do coração e debaixo de sete chaves, já dizia a Canção da América do grande Milton Nascimento. Seja duradoura ou passageira, muito forte ou inusitada, toda e qualquer amizade nos é sempre importante em alguma etapa da vida, inclusive aquelas que acompanhamos na ficção literária. Para estrear esta nova seção de listas paralelas no blog, convido-os a relembrar algumas das amizades que mais marcaram a nossa literatura brasileira.

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Extrato Poético: Carlos Drummond de Andrade

A Um Bruxo, Com Amor

Em certa casa da Rua Cosme Velho
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurar alguma coisa
que não se estende logo
a parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
É Flora,
com olhos dotados de um mover particular
ente mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de mulher nova…
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?

Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas.

Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.

Carlos Drummond de Andrade in ‘A Vida Passada A Limpo’ (Editora Companhia das Letras)

Citação – Machado de Assis

“Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no espaço e no tempo.” – Machado de Assis

 

#06 Dom Casmurro

Título: Dom Casmurro

Autor: Machado de Assis

Primeira Publicação: 1899

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Scipione

“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida…”

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