#84 Valsa Para Bruno Stein

Título: Valsa Para Bruno Stein

Autor: Charles Kiefer

Primeira publicação: 1986

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“O pecado, compreendia agora, estava dentro dele, deitava raízes, alastrava-se pelos dutos da alma.”

O gaúcho Charles Kiefer é detentor de uma extensa e diversificada produção literária, tendo grande reconhecimento em algumas das maiores premiações do país, também alcançando impressionantes números de vendagem ainda quando o seu nome não era tão conhecido fora dos pampas sulistas. Sua carreira abarca, além da verve de ficcionista, poeta e ensaísta, a atividade como acadêmico de Letras e orientador em oficinas de criação escrita. O romance Valsa Para Bruno Stein, um dos mais célebres do autor, traça um intenso mergulho no interior de personagens repletos de humanidade, explorando a eminente desconstrução de seus dogmas pessoais.

O livro é dividido em apenas três capítulos, sendo o primeiro mais extenso que os últimos, em uma relação direta com o seu título: a valsa é uma dança de compasso tradicionalmente ternário, composta de um tempo forte e dois tempos fracos. O enredo centra-se na figura de Bruno Stein, velho oleiro de ideais conservadores que mora com a esposa Olga, o filho Luís, a nora Valéria e as netas Sandra, Luíza, Eunice e Verônica em algum lugarejo no interior do Rio Grande do Sul.

Logo percebemos os conflitos que afligem as gerações dessa família. O avô, além de prezar a perfeição do trabalho e ser exigente com os funcionários, mostra-se extremamente religioso e guiado pela moral protestante, sempre contra a televisão e outras modernidades (inclusive no tocante ao trabalho), irritando a neta mais velha, Verônica, adolescente que se vê decidida a ir para a cidade grande. Ela aponta que talvez esta personalidade rígida e metódica do ancião sublimaria o seu medo de ver e gostar daquilo que seria “condenado” pela bíblia ou pelo pastor do culto que ele frequentava aos domingos de manhã.

O rústico velho percebe um futuro decadente aproximar-se, já que o principal herdeiro certamente não saberia dirigir a oficina que construiu com tanto esforço em uma trajetória dedicada ao trabalho, muito menos lhe dera um neto homem que pudesse mais tarde assumir o cargo de chefia. A mulher, pouco resignada às suas vontades, já não representa muito para ele enquanto a proximidade da morte começa a assombrá-lo. Sua fuga, além da fé aparentemente constante e inabalável, eram as esculturas de barro que moldava representando inúmeros seres, como aves e insetos, além da imagem de seus entes e de sua própria feição. Com o passar do tempo, entretanto, vão se descortinando alguns indícios de contradição que colocarão em cheque o fervor doutrinário e a retidão de caráter do personagem principal, fazendo-o reavaliar sua vida.

A obra é carregada de simbolismo, a começar pelo sobrenome da figura-título: o vocábulo de origem alemã “Stein” corresponde à palavra “pedra” em português, detalhe que pode se relacionar tanto ao seu ofício, quanto ao seu temperamento duro e à primeira vista irredutível. Ademais, esta pista ainda se relacionaria com o desenvolvimento de Bruno no decorrer das páginas, aos poucos cedendo atenção àquilo que reprimia, seguindo o ditado popular “água mole e pedra dura, tanto bate até que fura”. Sua rotina também começa a mudar com a chegada de Gabriel, homem simples vindo de Santa Catarina que acaba sendo empregado na olaria do protagonista, ocupando um serviço vago há pouco tempo. Este empregado também tem uma designação interessante, posto que “Gabriel” vem do hebraico e significaria “enviado de Deus”, como o feitio de um anjo anunciador. Não é a toa que ele demonstra-se bastante sensitivo às reviravoltas que Kiefer elenca no decorrer da narrativa.

Percebe-se que as mulheres da casa formam um elemento discordante, colocando em xeque a autoridade masculina e a apatia emocional de Bruno Stein. Contudo, a verdadeira chave para a sua transformação pessoal seria a intensa e contraditória aproximação que desdobra com a solitária Valéria. Outro aspecto relevante é a dedicação secreta do personagem central é o esculpir de representações das pessoas que o rodeiam: o desejo frustrado de moldá-las ao seu agrado seria descarregado nas estátuas que produzia correspondendo à sua fantasia.

A trama é construída a partir de frias descrições, com o autor dando prioridade ao universo psicológico dos personagens que elenca, fazendo uso de uma linguagem simples e sugestiva. No fim, mesmo tendo horror a valsas, Bruno percebe que este gênero talvez lhe signifique algo muito maior, quem sabe uma ponte para a tranquilidade que tanto anseia em seus dias, a paz que todos deveríamos ter direito em algum momento.

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Referências Utilizadas:

KIEFER, C. Valsa par Bruno Stein. São Paulo: Record, 2006.
ISBN: 9788501074690

charleskiefer.blogspot.com.br

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Filmoteca: Valsa Para Bruno Stein (2007). Filme dirigido por Paulo Nascimento, com Walmor Chagas, Ingra Liberato, Carmen Silva, Marcos Verza, Fernanda Moro e Nicola Siri.

A adaptação para o cinema perdeu um pouco do aprofundamento oferecido por Kiefer aos seus personagens, mas traz um roteiro bem construído em cima do romance e imagens suntuosas, além das ótimas atuações de Walmor Chagas no papel-título e Ingra Liberato como Valéria. Destaco ainda a marcante participação de Carmem Silva na pela da matriarca Olga.

 

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1 comentário

  1. Este foi o primeiro livro que comprei assim que cheguei em Santa Maria-RS, nos idos de 1996. Faz 21 anos!!! Credo, como o tempo passa. Gostei imenso do livro. Comprei, confesso, por conta da foto do autor (jovem ainda na época, e bonito, na quela barba cerradamente avermelhada). Sua foto, estampada entre as fotos de dois de seus livros, instigou-me. Li e gostei. Tive o prazer de me encontrar com o Charles umas tantas vezes no rincão gaúcho. Uma pessoa mais que simpática. Uma literatura instigante, partindo do tropo (já àquela altura) desgastado: a imigração. Sua escrita, entre melancólica e poética (existe possibilidade do contrário?) traga o leitor para o olho de um furacão bem conhecido pelos imigrantes no Rio Grande do Sul. A literatura de lá, segundo a minha inútil e insignificante opinião, respalda-se num auto consumo que faz com que o “circuito” literário nacional (sobretudo o que se circunscreve às flips, flops, flups tupiniquinds) deixe de ter contato com escritores e obras mais que interessantes. Uma pena… Parabéns pela postagem que resgata um autor que vale muito a pena ler. Que bom que leitores conscienciosos como você ainda existem!

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