Extrato Poético: Roberto Piva

A Piedade 

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema
paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas: por que navio boia? Por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de
fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou
barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos

Roberto Piva in ‘Um Estrangeiro na Legião’ (Editora Globo)

Anúncios

#69 Serafim Ponte Grande

Título: Serafim Ponte Grande

Autor: Oswald de Andrade

Primeira publicação: 1933

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Globo

“Serafim, a vida é essa.”

(mais…)

#61 Cazuza: Só as Mães São Felizes

Título: Cazuza: Só as Mães São Felizes

Autor: Lucinha Araújo e Regina Echeverria

Primeira publicação: 1996

Modalidade: Não Ficção

Minha Edição: Editora Globo

“Um dia pensei ter poderes divinos e que o poder de uma mãe poderia alcançar a graça suprema de mudar o rumo da história.”

(mais…)

#53 Memórias de um Sargento de Milícias

Título: Memórias de um Sargento de Milícias

Autor: Manuel Antônio de Almeida

Primeira publicação: 1854

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Globo

 “Quando temos apenas 18 a 20 anos sobre os ombros, o que é um peso ainda muito leve, desprezamos o passado, rimo-nos do presente, e entregamo-nos descuidados a essa confiança cega no dia de amanhã…”

(mais…)

#35 Maysa: Só Numa Multidão de Amores

Título: Maysa: Só Numa Multidão de Amores

Autor: Lira Neto

Primeira publicação: 2007

Modalidade: Não Ficção

Minha Edição: Editora Globo

“Maysa jamais se importou com a maldade de quem nada sabe.”
(mais…)

#27 Com os Meus Olhos de Cão

Título: Com os Meus Olhos de Cão

Autora: Hilda Hilst

Primeira Publicação: 1986

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Globo (Selo Biblioteca Azul)

“Minha pobreza é a secura do espírito. Minha solidão é ter ficado prisioneiro daquele sentir no alto da colina e hoje só encontrar elos de areia, correntes de pó.”

(mais…)

#25 Reinações de Narizinho

Título: Reinações de Narizinho

Autor: Monteiro Lobato

Primeira Publicação: 1931

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Globo (Selo Biblioteca Azul)

“Não sei explicar. Só sei que em certos momentos a gente muda de estado e começa a ver as maravilhosas coisas que estão em redor de nós.”

(mais…)

Extrato Poético: Hilda Hilst

VI

Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

Hilda Hilst in ‘Do Desejo’ (Editora Globo)

Extrato Poético: Mário Quintana

Canção do Dia de Sempre

Tão bom viver dia a dia…
A vida, assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Mário Quintana in ‘Canções’ (Editora Globo)