Extrato Poético: Thiago de Mello

O Chão do Mundo

Rumo nenhum persigo. É quando sigo
as vias do mais trôpego sonhar
ou de fundos e rijos pensamentos,
chego sempre a mim mesmo; o clamor áspero
que me atraiçoa o límpido silêncio,
após ressoar em vão pelas paredes
da gasta e surda concha do infinito,
retorna, feito mágoa, à minha boca.
Não sei dar-me o que busco, se o não tenho.

A erva do tempo cresce, suavemente,
não tarda e o chão do mundo me devora.
Por isso quando em mim se faz mais noite,
minha face despida de seus medos
em sua própria treva se contempla,
onde lhe esplende a rude finitude.

Em meu ser, resignado, permaneço,
pois se tento fugir-me, eis que me vem
à boca o travo frio do negrume
que existe além de mim, e que me espera.

Thiago de Mello in ‘Vento Geral [Poesia 1951-1981]’ (Editora Civilização Brasileira)

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#36 Eu e Outras Poesias

abgTítulo: Eu e Outras Poesias

Autor: Augusto dos Anjos

Primeira publicação: 1920

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Civilização Brasileira

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.”

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#34 Tancredo Neves: A Noite do Destino

Título: Tancredo Neves: A Noite do Destino

Autor: José Augusto Ribeiro

Primeira publicação: 2015

Modalidade: Não Ficção

Minha Edição: Editora Civilização Brasileira

“Por menor que ele fosse, o país confiara nele.”

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Extrato Poético: Augusto dos Anjos

A Árvore da Serra

— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho…
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros… no junquilho…
Esta árvore, meu pai, possui minh’alma! …

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

Augusto dos Anjos in ‘Eu e Outras Poesias’ (Editora Civilização Brasileira)