Literafilia: Sobre Crônicas

A maioria dos escritores brasileiros começou sua trajetória no universo das letras por meio das publicações periódicas. Os jornais e as revistas foram por muito tempo os principais meios de difusão da literatura em nosso país, constituindo, na verdade, uma parte importante desta, fonte viva e essencial para o traçar de sua história. Antes da facilidade de divulgação advinda da internet, eram estes suportes impressos que proporcionavam a notoriedade imprescindível a qualquer autor que quisesse viver da arte. O mercado livreiro nacional também nunca foi fácil aos iniciantes, que acabavam voltando suas penas para aquelas páginas vendidas diariamente.

Os periódicos já foram a principal forma de entretenimento e disseminação intelectual do Brasil, por possuírem tiragem relativamente grande e, consequentemente, teor mais acessível que os livros, alcançando um público leitor mais abrangente. Mesmo os que não começavam contribuindo com algum veículo, logo estavam se dedicando a alguma de suas seções, tencionando uma maior projeção de seu trabalho ou de suas ideias.

Como os folhetos vendidos nas ruas tinham perfis editoriais e objetivos distintos, seus espaços também moldavam ou influenciavam a criação dos autores que, por sua vez, viam neles uma ótima oportunidade de experimentação estética e temática. Nesta perspectiva, a imprensa também foi capaz de gerar novas expressões literárias, como a crônica, que por aqui recebeu relevo cultural (com muitos estudiosos e pesquisadores defendendo seu caráter nativo). Foi através desse gênero que muitos puderam exercitar a escrita, fosse ela de ordem narrativa, descritiva ou opinativa, versando sobre qualquer assunto, sério ou banal, em tom de conversa informal. Seu engenho revelava ainda uma constante interação com outros textos dentro do próprio periódico.

A crônica herdou do suporte jornalístico a transitoriedade e o caráter efêmero, ligado ao consumo imediato, além da brevidade e da análise crítica de seu tempo. A linguagem utilizada é mais coloquial, visando uma falsa impressão de intimidade aliada a uma feição bem humorada do que está sendo dito. Trata-se de um gênero que, de maneira aparentemente simples, diverte, persuade, inspira ou faz amadurecer a visão acerca de alguma questão.

A interessante coletânea A Máquina de Caminhar (Editora Record), organizada pelo jornalista e tradutor Christian Schwartz, mostra um pouco da incursão do escritor Cristovão Tezza no jornal paranaense Gazeta do Povo. Convidado a assinar crônicas semanais, o consagrado romancista catarinense aprendeu as artimanhas, limitações e potenciais do gênero na prática, desenvolvendo, aos poucos, a segurança necessária à publicação regular. Em pouco mais de seis anos, ele produziu exatos trezentos e cinquenta e cinco textos curtos (dos quais, sessenta e quatro compõem a antologia) que dissertavam sobre cotidiano, futebol, política, viagens, leitura, leitores, influências, além de seu respectivo fazer literário e bloqueio criativo. O título do compêndio se relaciona à crônica “Esteira Sherazade,” em que o autor conta que, por recomendação médica, teve de começar a praticar alguma atividade física, encontrando inspiração para superar a rotina sedentária na leitura de livros, se deixando conduzir pelas narrativas durante as caminhadas numa esteira (metaforizando o poder das boas histórias, como as contadas pela personagem Sherazade, do Livro das Mil e Uma Noites).

O mister do livro, entretanto, foge à ótima síntese da produção do cronista. Trata-se do ensaio “Um discurso contra o autor”, escrito inédito que aparece no final da compilação, após o os parágrafos que marcaram o encerramento da colaboração do autor com a Gazeta. Neste texto, ele explica as circunstâncias que o fizeram, mesmo hesitante, aceitar o cargo em 2008, comentando a experiência tardia com a elaboração textual mais concisa e com as possibilidades do jornal.

No decorrer de seu discurso, Cristovão Tezza traça um provocativo esboço teórico sobre a crônica e sua configuração, utilizando amostras das séries Balas de Estalo, publicada entre 1883 e 1886, e Bons Dias!, publicada entre os anos de 1888 e 1889, ambas editadas no periódico carioca Gazeta de Notícias e atribuídas ao ilustre Machado de Assis. Os exemplos analisados, datados de 22 de julho de 1883 e 19 de maio de 1888, mostram a maestria do escritor fluminense em extrair pequenas pérolas literárias do circunstancial, conferindo notáveis comentários e tom ficcional aos assuntos que tomava como tema. A crônica o proporcionava a liberdade para exprimir suas colocações, principalmente pela elaboração de uma “persona cronista” que, à maneira da ficção, não necessariamente poderia estar diretamente ligada à figura do autor, mesmo que evidenciasse suas convicções. De certa forma, criando uma nova faceta de si mesmo, mais confessional, Tezza demonstra ter seguido esta premissa.

Todavia, a manifestação da crônica na contemporaneidade tende realmente a não separar tanto o observador que assina o texto das opiniões que estão sendo projetadas em suas linhas, com o nome do escriba aparecendo quase como um “selo de garantia”, como podemos verificar no trabalho de Antonio Prata e Fabrício Carpinejar. Talvez por essa dificuldade atual, o autor aparentemente entenda a crônica não como literatura, mas uma espécie de ramificação do jornalismo que se apropria de recursos literários, dando ênfase ao seu “pé no real”, à sua intenção informativa e argumentativa. Problematizo esta concepção, acreditando que qualquer texto pode ser literário se não perder de vista o critério artístico, mesmo se pautado em algo real e vinculado ao “espaço dos fatos”, transmissor da “verdade”.

As crônicas da época de Machado, inclusive, mesmo baseadas em acontecimentos reais que viravam notícia ou em assuntos que fugiam à curiosidade pública, nem sempre respeitavam uma rigidez formal, podendo ser guiada por um narrador, estruturada em versos ou em diálogo de personagens, evidenciando um verdadeiro trabalho literário e ficcional, indo além dos meros comentários descritivos ou opinativos. O escrever sobre si também nunca é tão verossímil, mas entregue a uma seleção do que pode ou não ser exposto, evidenciando um verdadeiro lapidar ficcional.

Outra discussão pertinente originada do compêndio é acerca da participação do leitor no processo de formulação da crônica, assim como de qualquer outro texto de jornal. O consumidor é uma figura integrante e inseparável dos textos no suporte periódico, um pressuposto deveras essencial e também modalizador, guiando os escritores na utilização de qualquer artifício estilístico. Diferente do leitor de livros, sua resposta é quase imediata e suas exigências são sempre levadas em consideração.

No fim, discorrer sobre a importância do gênero crônica é pensar criticamente na relação da literatura com a plataforma periódica, além de refletir sobre as transformações das práticas de leitura e escrita no Brasil.

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