#60 O Fim de Tudo

Título: O Fim de Tudo

Autor: Luiz Vilela

Primeira publicação: 1973

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“Nada mais restava do que era bom naquele tempo.”

O mineiro Luiz Vilela é certamente uma das maiores referências na prosa brasileira, sendo considerado um dos nossos melhores contistas na contemporaneidade, mesmo também já tendo dedicado sua pena a outros gêneros. Formado em Filosofia, o escritor começou a publicar seus textos ainda na adolescência, não demorando muito para que sua produção ficcional fosse reconhecida em diversos concursos, recebendo importantes condecorações, como o Prêmio Jabuti. Em O Fim de Tudo, ele reuniu narrativas curtas que apresentam como fio condutor a própria conclusão, a certeza de que tudo, um dia, acaba.

São vinte e cinco pequenos escritos que giram em torno do fim, em diferentes conjunturas: a decepção, a perda da razão ou inocência, o epílogo de um sentimento, a despedida de um ideal, a revelação de um segredo, o limiar de uma mentira, o término de um relacionamento, a morte. Despido de qualquer moralismo, Vilela aqui constrói tramas aparentemente triviais, autênticos retratos do cotidiano mais corriqueiro, sem perder de vista as situações reflexivas e o lapidar estético. Na coletânea, a aparente despretensão dissimula o pensar sobre questões mais profundas.

O autor aborda a unidade temática com naturalidade e olhar frio, mesmo quando o registro é narrado em primeira pessoa, denunciando a indiferença humana com desesperança e pessimismo. O livro possui personagens em maioria solitários, acometidos de grande saudosismo, intensa resignação ou desejo de liberdade, refletindo o fim como modalizador de perdas e ganhos, encontros e desencontros. A força destas figuras se encontra justamente na universalidade de seus conflitos existenciais, embora a exposição dos acontecimentos que os envolvem supere o interesse de reparação de seu âmago.

Destaco os contos “Surpresas da vida”, centrado no frustrante reencontro de um aluno com um professor que sempre admirou, “Numa cidade estrangeira”, que trata da eminente separação de um casal, “Uma lástima”, seguindo os pensamentos de um jovem entregue ao insucesso por estar fora dos padrões impostos pela sociedade, além do incrível “Coisas de hotel”, que aborda as inúmeras possibilidades de relacionamento perdidas pela insensibilidade e constante distanciamento entre as pessoas. A narrativa “Um rapaz chamado Ismael” rememora a época em que Vilela trabalhou como redator e repórter do Jornal da Tarde, trazendo como protagonista um jornalista iniciante desiludido com a profissão, enquanto “Carta”, elaborada em forma de missiva, apresenta as confissões de um filho para o pai, desenvolvendo um clima envolvente de tensão que desemboca num desfecho surpreendente. O conto que dá nome à obra também funciona como o seu arremate, analisando a individualização do homem moderno e o caos advindo da incessante urbanização com certo desengano e melancolia.

Luiz Vilela não optou pelo rebuscado, compondo seus textos com leveza, mas sem cair na banalidade, evidenciando um cuidado preciso principalmente na construção de diálogos. Com estilo bastante objetivo, ele consegue efetivamente direcionar a atenção de seus leitores à beleza e às indagações presentes na efemeridade de todas as coisas.

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Referências Utilizadas:

VILELA, L. O fim de tudo. Rio de Janeiro: Record, 2016.
ISBN: 9788501104823

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Musicoteca: A Tempestade ou O Livro dos Dias (1996). Disco de Legião Urbana.

Deixo a indicação do último álbum da banda Legião Urbana para acompanhar o desenrolar das narrativas deste compêndio de Luiz Vilela. O disco que marca o último suspiro artístico do grande Renato Russo é dotado de canções pesadas e introspectivas, abordando o cotidiano com tristeza e sofrimento. São letras que tratam, acima de tudo, da fragilidade da vida, muito combinando com os conflitos apresentados em O Fim de Tudo.

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4 Comentários

  1. Me senti bem ignorante agora, nunca tinha ouvido falar em Luiz Vilela… bom, sempre é tempo, obrigada pela dica! Fiquei curiosa…
    Bjs!

    Responder
    • Não se sinta assim, Val! Sempre há aquele autor-tesouro que descobrimos tardiamente. O que importa é a leitura! :)
      Fico feliz em ter aguçado sua curiosidade para conferir o trabalho do Vilela. Grande abraço!

      Responder
  2. Bruno Bucis

     /  9 de maio de 2016

    Esse livro é muito bom! Pena que não é tão falado, muito bom vê-lo na sua seleção

    Responder

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