#63 Pluft, O Fantasminha

Título: Pluft, O Fantasminha

Autor: Maria Clara Machado

Primeira publicação: 1955

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Bruguera

“Mamãe, eu tenho tanto medo de gente!”

Maria Clara Machado, célebre em seu exercício de atriz, professora e diretora de teatro, muito contribuiu para o fortalecimento de uma dramaturgia nacional dirigida à infância. Grande idealizadora d’O Tablado, ela liderou a companhia carioca e o espaço de suas apresentações por longos cinquenta anos, construindo uma instituição de peso para as artes cênicas brasileiras, formando profissionalmente, a datar de sua inauguração, mais de cinco mil atores. De sua mente criativa, nasceram grandes clássicos que privilegiam crianças no papel de protagonistas, trabalhando questões pertinentes ao seu universo.

Pluft, O Fantasminha é o texto mais importante de seu repertório, consagrado com diversos prêmios desde sua primeira montagem, em 1955, ano em que também foi publicado em livro. A peça, obtendo enorme repercussão e aceitação, percorreu todo o Brasil e alcançou o exterior, sendo traduzida em diversas línguas, como espanhol, alemão e francês. Logo ganhou uma versão em prosa escrita pela própria autora.

A ação concentra-se num ato único, tendo como cenário uma velha casa, habitada pelo fantasminha Pluft, sua mãe e um tio, o dorminhoco Gerúndio. A intriga acompanha uma noite em que o pirata Perna de Pau, que havia sequestrado a menina Maribel, chega àquele espaço aparentemente abandonado desejando encontrar um tesouro escondido pelo desaparecido Capitão Bonança, comandante da nau Arco-Íris e avô da garota. Os atrapalhados marinheiros Sebastião, Julião e João desembarcam no percalço do vilão, decididos a salvar a amiga.

O protagonista possui uma composição curiosa: pertence a uma espécie conhecida por assustar e assombrar, mas tem medo de gente, mostrando-se tímido e inseguro. É induzido pela mãe a se revelar um “fantasma de verdade”, de quem o pai, que fora o fantasma da ópera (clara referência ao personagem criado pelo francês Gaston Leroux, famoso pela adaptação para o teatro musical), se orgulharia.

O encontro entre Pluft e Maribel acontece no sótão. Os dois demonstram-se bastante assustados à primeira vista, mas acabam desenvolvendo uma forte amizade. A necessidade de enfrentar o perigo e socorrer a menina direcionam o pequeno herói para o enfrentamento de seus temores.

Na narrativa, a comicidade se manifesta de várias maneiras, como através das conversas telefônicas da mãe fantasma com a prima Bolha D’Água, uma agente secreta de voz peculiar, ou dos constantes sustos experimentados pelos personagens. Diversos elementos maravilhosos ou absurdos também contribuem para que o enredo não perca a graça e o divertimento, a exemplo dos deliciosos pasteis de vento adorados pelo tio Gerúndio e da noção de que os fantasmas não podem chorar, senão derretem (assim como supostamente não morrem, mas viram papel celofane).

O escrito descontroi o medo infantil geralmente transposto para entidades sobrenaturais, como os fantasmas e o escuro, apresentando o riso como modo de superação, além da família e amigos como alicerce da coragem. Até então, o receio aparecia no teatro infantil nacional encarnado em figuras ridículas e caricatas, que não suscitavam qualquer empatia em quem acompanhava as tramas.

O conflito existencial de Pluft revela uma forte densidade humana, simbolizando alguns questionamentos relacionados à busca de conhecimento e crescimento interior. O personagem descobre-se a partir do contato com a “gente” que tanto o apavorava, amadurecendo sua visão da realidade junto com os espectadores (ou leitores) no decorrer da peça.

Com uma linguagem leve, permeada de poesia, Maria Clara Machado mostrou toda a sua potência e delicadeza para a abordagem cênica do cosmo infantil, concebendo uma obra-prima atemporal.

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Referências Utilizadas:

MACHADO, M. C. Pluft, o fantasminha. Rio de Janeiro: Bruguera, 1970.

ZILBERMAN, R. Como e por que ler a literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
ISBN: 8573026634

www.otablado.com.br

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Filmoteca: Pluft, O Fantasminha (1962). Filme dirigido por Romain Lesage, com Dirce Migliaccio, Kalma Murtinho e Nelson Dantas.

A adaptação cinematográfica da obra constituiu uma das primeiras produções em vídeo voltadas ao público infantil no Brasil. O filme mantém a maioria dos diálogos e cenas escritas por Maria Clara Machado, apesar de acrescentar alguns detalhes a meu ver irrelevantes à narrativa base. Destaque para a ilustre participação de Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos e Sergio Porto como piratas de uma taberna, além de Tom Jobim, que assina a trilha sonora.

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4 Comentários

  1. Sempre uma viagem à minha infância. Quando ouvi, pela primeira vez em disco (LP).

    Resposta
  1. Listeratura: Mães na Ficção | 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer

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