#92 Hospício é Deus – Diário I

Título: Hospício é Deus – Diário I

Autor: Maura Lopes Cançado

Primeira publicação: 1965

Modalidade: Não Ficção

Minha Edição: Editora Autêntica

“O louco é divino, na minha tentativa fraca e angustiante de compreensão. É eterno.”

A arte e a loucura sempre se cruzaram, ainda que de maneira tortuosa. Na literatura, a mente frágil e inconstante de alguns escritores gerou trabalhos de grande potência. Nesse vínculo entre o desatino e a manifestação estética, também se destacou a mineira Maura Lopes Cançado, cuja curta produção permaneceu ignorada pelos grandes veículos editoriais e centros acadêmicos por vários anos, embora tenha sido bem recebida pela crítica especializada de seu tempo.

Tal apagamento pode estar relacionado ao próprio estigma da insanidade ou à interrupção de sua carreira após o homicídio que cometeu em 1972, acometida por um surto psicótico. Ainda que muitos a incentivassem, ela não conseguiu voltar a escrever após o terrível incidente. Felizmente, sua obra vem sendo aos poucos redescoberta e conquistando novos leitores. Já no livro de estreia, Hospício é Deus, extenso relato que tem como subtítulo Diário I, a autora demonstrou maestria de engenho em um processo de autopercepção. Em suas primeiras páginas, ela traça um apanhado autobiográfico, da infância no interior de Minas Gerais até sua ida para o Rio de Janeiro, aos 22 anos. Logo depois, apresenta anotações marcadas por datas que vão de 25 de outubro de 1959 a 7 de março de 1960, período principalmente marcado pela experiência no Hospital Gustavo Riedel, também conhecido como Centro Psiquiátrico Nacional e Hospital Pedro II, no bairro Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro.

Reconhecendo a própria vulnerabilidade, Maura se internou voluntariamente no sanatório que serve de cenário central do livro. Como em outras vezes, ela considerava que poderia se sentir melhor acolhida neste ambiente, encontrando proteção e refúgio. Filha de uma família abastada de grandes fazendeiros, mesmo bastante mimada, ela tinha problemas de autoestima, além da necessidade insaciável de afeto e atenção. A insatisfação persistente e inexplicável iria acompanhá-la por toda a vida.

A criação ligada a dogmas religiosos marcou sua infância de forma angustiante. A atmosfera tradicional, impregnada de injustiças e machismo, além da falta de verdadeira comunicação com as pessoas, contribuiu para o fomento de uma alma intranquila e de um temperamento oscilante. Atormentada por uma incomum insônia, ainda criança questionava tudo o que lhe era imposto, inclusive a figura de Deus, de quem tinha extremo medo.

Cercada de crenças e superstições, a menina sonhava e tinha alucinações com aquela entidade da qual nada se podia ocultar, enquanto o temor da morte e a paranoia de que poderia ser enterrada viva eram alimentados pelas visões do que acreditava ser o fantasma de seu padrinho. Os traumas relacionados a episódios de violência e aos ataques convulsivos decorrentes da epilepsia ainda podem se ligar ao seu comportamento ambíguo, entre a timidez quase patológica e os gestos exagerados, por vezes agressivos. O sexo foi-lhe despertado com brutalidade. Ela menciona os abusos sexuais que sofreu a partir dos cinco anos por empregados da família, revelando sensações e sentimentos confusos. Assim também encara as relações íntimas que manteve com outras garotas ainda muito nova.

O minucioso depoimento de Hospício é Deus descortina a lucidez quanto à situação dos centros psiquiátricos no Brasil do período: instalações precárias, “doentes” abandonados por seus parentes por pura conveniência, sendo maltratados e às vezes presos em quartos-forte por médicos que os visitavam poucas vezes e por enfermeiros que mais pareciam carcereiros, apenas preocupados em controlá-los e “acalmá-los”. Promovendo o encontro entre os acontecimentos conturbados de sua trajetória e o que presenciou naquele lugar regido por arbitrariedade e incoerência, Maura Lopes Cançado produz um texto autêntico e deveras corajoso que ultrapassa o mero grito de revolta, também nos permitindo explorar sua forma peculiar de ver o mundo.

Além da narração do cotidiano no hospício e do convívio com pessoas consideradas loucas, Maura traz detalhes de como era dado o tratamento dos distúrbios mentais a base de eletrochoques e trepanação. Destacam-se os trechos em que ela reflete sobre a relação com Dona Alda, paciente esquizofrênica com quem desenvolveu um importante laço afetivo e que a fez perceber que “os loucos parecem mais humanos”, assim como as observações agudas sobre a linha tênue entre o profissionalismo e o carinho na relação médico-paciente a partir do envolvimento com um terapeuta que realmente demonstrou se preocupar com sua melhora. Aliás, a estima pelo “Dr. A”, vice-diretor do hospital, denuncia um possível viés fantasioso ou montagem inventiva em sua fala. Ademais, toda fabulação pode sim ter seu fundo de verdade e Cançado sabe como convencer o leitor da criação que fez de si mesma. Interessante é que muito de Hospício é Deus realmente serviu de matéria para a produção ficcional da escritora, de perfil extremamente autocrítico.

O livro ainda envolve a lenda de uma segunda parte, o Diário II, cujos originais – se é que realmente existiram – teriam sido esquecidos pelo editor José Álvaro em um táxi. O jornalista e pesquisador Maurício Meireles, que assina o perfil biográfico da autora na edição que serve de base para essa apreciação, levanta a hipótese de que tal segundo volume pode ter desaparecido de forma proposital, visto que o texto de Maura incomodaria se publicado sem cortes, pois ameaçava citar nomes de pessoas importantes de forma indecorosa. De vida desregrada, envolvida em casos amorosos problemáticos, ela foi aos poucos se desviando das expectativas que lhe foram postas, estampando os noticiários com inúmeros escândalos, entrando e saindo de manicômios, desenvolvendo tendência suicida. A escrita parecia lhe proporcionar a fuga daquela existência insegura.

Tirar o leitor de sua zona de conforto parece ser um dos princípios da escritora, que justapõe o tom jornalístico a uma harmonia quase onírica, por meio de uma linguagem econômica e de um arranjo temporal deveras fragmentário, estilhaçando qualquer relação com uma narrativa comum. Sua voz rompe com o isolamento e a solidão advindos tanto do fazer literário quanto do distúrbio mental.

Embora marginalizada, com seu potencial oprimido, ela não sucumbiu à covardia. Prova disso é que frequentemente trava embate com Deus no decorrer do livro, até mesmo simbolicamente o colocando em um patamar de igualdade ou inferioridade ao grafar seu nome com inicial minúscula. Para ela, assim como o divino, a loucura seria infinita, inacessível e indecifrável. O hospício, como abrigo deste mal, resguardaria a mesma (in)compreensão.

Antecedendo o movimento pela reforma e extinção dos asilos psiquiátricos no Brasil, o olhar de Maura Lopes Cançado ainda se faz oportuno em relação aos retrocessos sociais e políticos da contemporaneidade. Trata-se de uma personalidade fascinante e intensa, que viveu “desmesuradamente, como janela aberta para o sol” e cujo percurso traz à tona importantes discussões a respeito não só da paradoxal reclusão do doente mental, mas também do sentimento de inadequação imposto às mulheres ao longo da história.

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Referências Utilizadas:

CANÇADO, Maura Lopes. Hospício é Deus – Diário I. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
ISBN: 9788582177310

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