#55 A Cinza das Horas

Título: A Cinza das Horas

Autor: Manuel Bandeira

Primeira publicação: 1917

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Global

“Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria…
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.”

O pernambucano Manuel Bandeira viveu para as letras, lecionando aulas de língua e literatura e voltando-se à escrita incessante de poesia, crônicas, ensaios críticos e obras de caráter didático, além de realizar inúmeras traduções. A coletânea A Cinza das Horas reúne os primeiros versos do autor, concebidos ao longo de sua juventude. Publicado em uma pequena tiragem não comercial e sem qualquer pretensão de iniciar uma carreira literária, este livro é marcado pelo lirismo melancólico e particularmente mórbido, ecoando principalmente o sofrimento e a tristeza advindos da tuberculose que o acometia.

As composições mais fortes do compêndio são certamente as escritas no período em que o escritor esteve interno num sanatório de Clavadel, na Suíça, para tratamento da doença (comumente fatal àquela época). A miscelânea de textos livres de metrificação, no geral, remete a temas como a espera da morte, a resignação de quem espera o fim, a frustração amorosa, a solidão, o medo e a angústia. Há também a séria presença dos laços familiares em diversos momentos que remetem à memória de experiências passadas, como também menção ao misticismo e até certo entusiasmo com a possibilidade do restabelecimento.

Um exemplo da criação artística à imagem intimista da amargura é o segundo poema da obra, Desengano, datado de 1912, que descreve o próprio ato de fazer poesia por meio de um tom deveras doloroso.

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Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

(BANDEIRA, 2013, p. 37)
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Percebe-se o teor confessional dos versos, revelando o desabafo de um enfermo que padece a agonia do desamparo e a incerteza de futuro. Todavia, engana-se quem infere que o livro se resume em meros queixumes, já que o conteúdo das peças que o compõem tanto retrata como transcende essencialmente as experiências pessoais de quem os assina.

O exercício poético descrente e cético do autor transforma o volume numa verdadeira pérola de nossa literatura, revelando um dos maiores nomes do cânone brasileiro. Contudo, notamos um Bandeira ainda em construção de espírito e estilo, apesar do já maduro domínio das amplas possibilidades da linguagem, dissecando as agruras da condição humana na maioria das vezes através de quadros muito bem desenvolvidos e soluções bastante elaboradas.

A Cinza das Horas representa o princípio da aurora criativa de um poeta que soube como poucos unir confidência e sábio jogo técnico para traçar lúcidas observações acerca de seu tempo e realidade.

*Os versos que compõem a citação de cabeçalho são do poema ‘Epígrafe’.

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Referências Utilizadas:

BANDEIRA, M. A cinza das horas. São Paulo: Editora Global, 2013.
ISBN: 9788526017771

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 360-365.

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