#52 A Hora dos Ruminantes

Título: A Hora dos Ruminantes

Autor: José J. Veiga

Primeira publicação: 1966

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Companhia das Letras

“Isso de mexer com quem tá quieto pode chamar tempestade.”

O goiano José J. Veiga ingressou um pouco tarde na carreira literária, aos quarenta e quatro anos. Ademais, ele logo foi saudado pela crítica e pelo público por sua prosa singular, dotada de questões incisivas aliadas a uma abordagem bastante lírica. Formado em direito sem jamais ter exercido a profissão, foi tradutor e jornalista, trabalhando em diversos veículos impressos, também se destacando como locutor e comentarista no serviço brasileiro da rádio BBC de Londres. A experiência em suportes periódicos trouxe ao texto veiganiano a preocupação em ser simples e direto no trato do escrito lúdico. Considerado o romance mais importante do autor, A Hora dos Ruminantes traz como cenário um lugarejo interiorano fictício cuja população vê sua pacata rotina ser alterada por acontecimentos inexplicáveis.

A pequena cidade de Manarairema é apresentada pelo discreto narrador do livro com as típicas características das comunidades rurais brasileiras dos anos 1960. Seus moradores ainda vivem com poucos recursos de desenvolvimento, realizando funções bem demarcadas e sempre suspeitando do desconhecido. A narrativa começa com a chegada de vários forasteiros ao anoitecer, estabelecendo um acampamento do outro lado do rio que cortava aquela vila. Em nenhum momento fica claro o motivo de estarem ali ou seus planos. Sua presença causa curiosidade, já que eles não se aproximavam ou se apresentavam formalmente.

Os visitantes vão aos poucos se mostrando inconvenientes, abusivos, de poucas palavras e de modos grosseiros. Sem saber se devem acolhê-los ou combatê-los, a maioria dos cidadãos acaba se acomodando. Quando tudo parece controlado, uma enorme matilha chega misteriosamente à aldeia. Os cães tomam as ruas, fazendo com que as pessoas se confinem em casa. Algum tempo depois, Manarairema é novamente invadida, dessa vez por centenas de bois, que causam ainda mais estragos e questionamentos.

Não há aqui um personagem principal, mesmo com algumas figuras expoentes de Manarairema, como o carroceiro Germiniano e Amâncio, o dono da venda da cidade, tomando certo destaque na narrativa. A grande chave do livro, contudo, está nas diferentes formas dos habitantes do lugarejo em lidar com os eventos incomuns. Aquela gente é pega de surpresa e age como pode, com cada sujeito sendo guiado por uma psicologia particular. Veiga sabe como ninguém explorar tais reações ao anormal, nos fazendo acompanhar apenas o ponto de vista destes moradores, nos inteirando de seus sentimentos divergentes, de seus dilemas e, principalmente, da mudança de seu comportamento com o passar dos incidentes. Em algumas passagens, como as que versam sobre a aparição dos animais ruminantes na vila, o leitor experimenta a mesma sensação de sufocamento e desassossego vivida pela população.

O caráter absurdo da história criada por J. J. Veiga, geralmente associado à literatura fantástica ou à vertente latino-americana do realismo mágico, a meu ver, brota do próprio folclore nacional, manifestando a tradição popular, abarrotada de componentes extraordinários possíveis principalmente aos olhos do povo natural do interior, da zona rural. Não haveria em A Hora dos Ruminantes nada de maravilhoso, mas a pura expressão do “realismo irrealista” que existiria nos confins do Brasil.

Para vários estudiosos, as insólitas “pragas” que compõem o enredo da obra representariam alegorias ao momento turbulento vivido no país com a opressão do regime militar recém-implantado. O romance pode mesmo mostrar-se contaminado pelo clima político da época em que foi publicado. Todavia, ao que tudo indica, não fazia parte do projeto de Veiga marcar denuncias ao autoritarismo então vigente. Ele procurava, na verdade, ir além dessa perspectiva, levantando discussões mais profundas acerca do comportamento humano, tratando, por exemplo, da perda da própria individualidade e da relação homem-animal através das interessantes tensões construídas no livro.

A linguagem utilizada não tem entonações regionais, mas não perde o tom interiorano deveras coloquial, com o narrador por vezes traçando comentários à maneira dos provérbios ou ditados populares. O texto leve e preciso, elaborado em estilo requintado, torna a leitura agradável e envolvente. Não é por acaso que José J. Veiga está entre os mais brilhantes escritores da nossa literatura.

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Referências Utilizadas:

VEIGA, J. J. A hora dos ruminantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
ISBN: 9788535925371

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Musicoteca: Canto Geral (1968). Disco de Geraldo Vandré.

Para acompanhar a leitura do romance, indico o quarto disco de um dos artistas mais lúcidos da música brasileira: Geraldo Vandré. O álbum Canto Geral foi gravado em meio às turbulências do período da ditadura Militar nacional e traz composições marcadas pelo discurso combativo à conjuntura do regime. Algumas canções combinam com a narrativa de Veiga na medida em que tratam de problemas comuns às comunidades rurais, também constituindo um retrato social pungente da época em que A Hora dos Ruminantes foi editado.

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2 Comentários

  1. Eu definitivamente preciso muito conhecer esse autor! Eu tô muito curiosa pra ler algum livro dele

    Responder
    • Recomendo demais a leitura! O Veiga é muito inventivo e seus livros são realmente incríveis. Muito obrigado pela visita! Quando ler ‘A Hora dos Ruminantes’, volta aqui para a gente trocar figurinha :)
      Um grande abraço!

      Responder

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