#51 Alguma Poesia

Título: Alguma Poesia

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Primeira publicação: 1930

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Record

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser
gauche na vida.”

O mineiro Carlos Drummond de Andrade figura na história da literatura nacional como um de seus mais emblemáticos poetas. A vocação para as letras o permitiu a participação em diversos periódicos, como o Diário de Minas e o Correio da Manhã, nos quais publicou, além dos versos, crônicas e contos que mais tarde foram reunidos em diversas coletâneas. Editado em uma pequena tiragem não comercial, o livro que deu início à extensa e vasta produção escrita do autor, Alguma Poesia, já demonstra o tamanho de seu talento, oferecendo alguns de seus poemas mais celebrados e estudados.

A obra contém quarenta e nove composições poéticas, reunindo criações datadas desde 1925 que abrangem temas relacionados à formação do poeta e à sua visão de mundo. Já na peça de abertura, ‘Poema de Sete Faces’, ele vaticina sobre o próprio destino, se definindo como “gauche” (“esquerdo”, em língua francesa), desajustado, torto em seus descompassos. Outros poemas tratam de sua vivência interiorana entre paisagens gravadas em sua memória, a relação com a família e o reconhecimento amoroso. Ademais, a obra se traduz na observação desencantada da realidade que o rodeia.

Um dos textos mais decisivos de Drummond, ‘No Meio do Caminho’, também se faz presente no livro. Publicado primeiramente em 1928, na “Revista de Antropofagia”, sob a curadoria de Oswald de Andrade, o poema repercutiu negativamente, sendo duramente criticado por romper com a erudição esperada à lírica tradicional.

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No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(ANDRADE, 2010, p. 27)

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Os ataques eram mais direcionados às suas constantes repetições e ao uso do termo “tinha” em lugar de “havia”. Acompanhando atentamente a repercussão do poema, o escritor selecionou e publicou em 1967 parte do material que foi dito sobre ele no volume Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema.

Aqui, Drummond demonstra-se precocemente amadurecido, apresentando o tom jocoso, coloquial e irônico, aliado à objetividade na linguagem e à reflexão amarga que marcariam seus lançamentos futuros. O poeta sabe como ninguém cultivar a poesia do cotidiano, dotada de versos anedóticos e sintéticos, livres de qualquer metrificação, mas não por isso alheio ao rigor estético. Alguma Poesia certamente assinala uma arrebatadora estreia, propiciando aos leitores um excelente primeiro contato com o agudo engenho de um dos autores mais significativos de nossa literatura.

*Os versos que compõem a citação de cabeçalho são da composição ‘Poema de Sete Faces’.

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Referências Utilizadas:

ANDRADE, C. D. Alguma Poesia. Rio de Janeiro: Record, 2010.
ISBN: 9788501091246

drummond.memoriaviva.com.br

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 440-446

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Filmoteca: Poeta de Sete Faces (2002). Filme dirigido por Paulo Thiago, com Zezé Motta, Othon Bastos, Cristina Pereira, Paulo Autran e narração de Júlia Lemmertz e Antônio Grassi.

Convido vocês a assistirem ao documentário que investiga a trajetória do poeta Carlos Drummond de Andrade, ao mesmo tempo em que interpreta sua produção escrita. O filme, cujo título é uma referência direta ao célebre poema que abre Alguma Poesia, registra a infância do autor no município de Itabira, abrangendo sua passagem pelo movimento modernista, o engajamento político e a carreira jornalística, culminando no reconhecimento como um dos maiores mestres da literatura brasileira.

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