#48 Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil

Título: Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil

Autor: Rodrigo Faour

Primeira publicação: 2015

Modalidade: Não Ficção

Minha Edição: Editora Record

“Angela, ou melhor, a Sapoti, era uma predestinada.”

Rodrigo Faour é atualmente um dos mais respeitados pesquisadores do cancioneiro nacional. Jornalista, crítico e produtor musical, ele é autor das biografias de Dolores Duran, Cauby Peixoto e Claudette Soares, além de curador de importantes coletâneas e reedições em disco de outros grandes nomes da MPB, como Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Elis Regina, Nara Leão, Caetano Veloso, Bezerra da Silva, Nana Caymmi, Simone e Os Mutantes. O grande fascínio do carioca pelas damas da nossa música acabou rendendo mais um audacioso trabalho literário, dessa vez debruçando sobre o perfil de Abelim Maria da Cunha, a ilustre Angela Maria.

A obra Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil tece a vida íntima e a carreira artística de uma das eternas rainhas do rádio, aplaudida por todas as classes sociais a partir da década de 1950. Detentora de uma voz apoteótica, a intérprete que emplacou mais de cinquenta canções nas paradas de sucesso, sendo reconhecida como “cantora favorita” dos brasileiros durante muitos anos, transformou algumas composições simplórias em verdadeiras preciosidades através de suas marcantes performances.

A décima filha de um casal pobre, advinda de Macaé, no distrito de Conceição de Macabu, no Rio de Janeiro, começou cantando em coro de igreja. Determinada, tentou conquistar seu espaço em shows de calouros e danceterias, até assinar contrato com a Rádio Mayring Veiga em 1951 e estourar em todo o país e no exterior. A estrela de agudos marcantes atravessou períodos de altos e baixos ao longo de mais de sessenta anos de atividade profissional.

Mais que detalhar a trajetória de Angela Maria, o livro também esmiúça os anos de consolidação da nossa indústria do entretenimento, época em que surgia a imprensa musical e brotavam as primeiras publicações envolvendo celebridades badaladas. Indo além das seções reservadas à música, Angela Maria curiosamente aparecia nas colunas sobre política e nas páginas policiais de diversos jornais e revistas. Ela teve admiradores famosos dentro do cenário governamental, como Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas, que a conferiu o famoso apelido de “Sapoti”. Todavia, sua imagem acabou afetada pelo escândalo relacionado a um de seus ex-maridos, José Kleber Lisboa, acusado judicialmente de estelionato. Rodrigo, a propósito, mostra que a artista foi explorada pela maioria dos homens com quem se envolveu, culminando em inúmeros casamentos desfeitos e cogitação de suicídio. A dor pelos amores fracassados sessou com a feliz união com Daniel D’Angelo, que perdura até hoje (ele acabou tornando-se seu empresário), rebatendo o julgamento em torno da diferença de idade entre os dois: quando iniciaram a relação, ele tinha dezoito anos e ela, cinquenta.

Rodrigo Faour vasculhou entre artigos, reportagens, colunas e notas que registraram a cronologia da cantora, escritos recolhidos no acervo digital da Biblioteca Nacional e na coleção de alguns fãs mais devotos. Este material é mesclado a depoimentos de familiares, amigos, parceiros de ofício, personalidades famosas que atravessaram o seu caminho (como Cid Moreira e Milton Nascimento). A fala de Angela Maria (entrevistada pelo pesquisador em apenas dois encontros), apesar de atravessar toda a narrativa, toma mais espaço nos capítulos finais, que enfatizam seu retorno ao mercado fonográfico a partir dos anos 1990. 

O arranjo textual trata com objetividade a exposição dos fatos, mas abarca, mesmo que pontualmente, algumas opiniões do autor. Ele reconhece que algumas críticas feitas à cantora, principalmente na década de 1960, tem algum fundamento, admitindo que ela por vezes rendeu-se ao esquema comercial, gravando músicas a seu ver cretinas e descartáveis, com arranjos horrorosos e demasiadamente datados (incluindo versões de baladas estrangeiras). No entanto, o estudioso não esconde o desacordo com aqueles que avaliam a prolífica produção de Angela de forma preconceituosa, atentando-se apenas a esses deslizes de repertório e a seu forte apelo popular. Para Faour, estas pessoas não compreenderiam que a cultura musical brasileira também é constituída pelo exagero e pelo melodrama.

A linguagem simples brinda o escrito com um tom saborosamente informal, embora Faour demonstre bastante seriedade na descrição dos acontecimentos. O impresso ainda dispõe de uma rica seleção de fotografias, reproduções de capas de álbuns e revistas que estamparam o rosto da cantora, além de um detalhado relatório a respeito de sua discografia e filmografia.

O enorme compêndio biográfico é repleto de passagens interessantes, destacando-se as que tratam do encontro entre a Sapoti e Carmem Miranda, e da ocasião em que ela dividiu o palco com Dorival Caymmi. Contudo, a leitura se vale pelo resgate do percurso de um dos maiores ícones da nossa música, abordando seus erros e acertos, momentos de felicidade e frustrações, num projeto cuidadoso e de grande expressão.

Conversa com Rodrigo Faour contando detalhes sobre o processo de escrita da obra no Blog da Editora Record.

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Referências Utilizadas:

FAOUR, R. Angela Maria: A eterna cantora do Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2015.
ISBN: 9788501103000

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Filmoteca: Rio, Zona Norte (1958). Filme dirigido por Nelson Pereira dos Santos, com Grande Otelo, Paulo Goulart e Jece Valadão.

Indico esse excelente filme que conta com a participação de Angela Maria em dois números musicais. Trata-se do segundo longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos, cuja narrativa em flash-backs envolve as dificuldades de um sambista anônimo em ser reconhecido por suas composições. A Sapoti participa do filme interpretando samba-canções do grande Zé Keti. A cena em que ela canta com Grande Otelo é memorável.

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Musicoteca: A Rainha Canta (1955). Disco de Angela Maria. // Estava Escrito (1994). Disco de Ney Matogrosso.

Indico o meu disco preferido de Angela para acompanhar a o desenrolar da biografia escrita por Rodrigo Faour. Trata-se de um de seus primeiros registros, uma coletânea das canções que apresentava nos programas de rádio. A expressiva fotografia que estampa o encarte da gravação foi a mesma escolhida para a capa do livro. Também deixo a recomendação do ótimo álbum que Ney Matogrosso fez em homenagem à cantora, recheado de releituras excepcionais dos maiores sucessos de sua carreira, incluindo “Fósforo Queimado”, “Orgulho” e “Escuta”.

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