#47 Antônio: O Primeiro Dia da Morte de um Homem

Título: Antônio: O Primeiro Dia da Morte de um Homem

Autor: Domingos Oliveira

Primeira publicação: 2015

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“Histórias são histórias, meios de caminho entre o terror e as glórias.”

O cineasta e teatrólogo Domingos Oliveira é detentor de uma carreira invejável. São mais de cem peças escritas e dezessete longas-metragens lançados, além de outras produções em que participou enquanto roteirista ou ator. No campo das letras, publicou suas memórias, cultivando ainda a verve de ensaísta e cronista, participando de algumas coletâneas em livro. Com Antônio: O Primeiro Dia da Morte de um Homem, o carioca realiza sua primeira incursão no gênero romance, construindo uma narrativa instigante e cheia de personalidade.

No enredo, o protagonista que dá nome à obra, um professor sexagenário de antropologia, se envolve com a estonteante Blue em uma viagem a Paris. Retornando ao Brasil, os dois vivem juntos por dezoito anos, até que ela o troca por Esteban, um rapaz bem mais novo. Desiludido, Antônio decide dedicar-se ao ofício de escritor e roteirista, almejando o reconhecimento e a ascensão editorial. Ele acaba se apaixonando novamente, dessa vez por duas jovens: a ex-aluna Manuela e a sua namorada Nádia. É quando o espectro de Eduardo, seu amigo recém-falecido, passa a observá-lo de perto.

Na explicação de Antônio, aquele sujeito “começou a morrer” quando se metamorfoseou de exímio boêmio e anarquista em um psicanalista conservador em favor da conquista de uma mulher mais velha, vinda de uma família rica e tradicional. Este fragmento inicial justificaria o título do livro a partir do questionamento de quando se iniciaria a morte do protagonista, envolvendo um interessante paralelo entre a vitalidade demonstrada por ele, mesmo com o avanço da idade, e a privação do amigo Eduardo, que havia deixado de provar a magia das novas experiências para poder apresentar-se como marido de Aureliana.

Logo percebemos que Oliveira soube muito bem explorar a narração do romance, realizada por meio de vozes de primeira e de terceira pessoas que ora se intercalam, ora se mesclam de modo bastante natural. Através de outras experimentações estéticas, como a comunicação direta com o leitor e a estrutura textual deveras fragmentada (algumas passagens se assemelham a flashes fotográficos), ele ainda consegue traçar reflexões sobre o respectivo exercício de criação literária.

O discurso do eu-lírico se confunde com o de um autor intruso, também cedendo espaço para a fala das mulheres que compõem o narrado, embora a trama continue acompanhando o ponto de vista de Antônio. Trata-se de algo totalmente intencional, abrindo margem à interpretação de que a narrativa poderia estar sendo escrita (e não só contada) pelo próprio personagem principal, à medida que acompanhamos suas peripécias. O trabalho de redação do romance poderia estar dispondo da ajuda das parceiras de Antônio, na condução ou aprofundamento de alguns trechos. Domingos brinca com a ideia que muitos compactuam de que o escritor não é quem escreve o livro, mas sim os personagens, como se quem assina a capa apenas psicografasse o percurso dessas entidades. O bom resultado disso tudo é a aproximação do leitor tanto de quem vivencia a história narrada, como de quem a escreve.

A linguagem simples e os capítulos curtos contribuem para a fluidez da leitura. No entanto, o aspecto descomplicado caracteriza mais um recurso de criação, conservando o interesse e a curiosidade de quem lê ao mesmo tempo em que chama a atenção para os significados presentes nas entrelinhas. A figura vigorosa de Antônio, apesar da trajetória calejada, representaria importantes indagações relacionadas à plenitude da vida e à resistência contra o tempo. A fugacidade existencial do homem viria simbolizada na escolha específica de se contar a história de maneira breve.

Misturando eloquência filosófica com boas doses de paixão, erotismo e ironia, Domingos Oliveira consegue transpor muito de sua criatividade dramatúrgica para a prosa de ficção, criando um romance primoroso, que se faz marcante em toda a sua conjuntura.

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Referências Utilizadas:

OLIVEIRA, D. Antônio: O primeiro dia da morte de um homem. Rio de Janeiro: Record, 2015.
ISBN: 9788501105677

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Musicoteca: Vida (1980). Disco de Chico Buarque.

Deixo a indicação deste ilustre álbum de Chico Buarque para acompanhar a leitura do livro. As faixas retratam a boemia, o amor avassalador, o ciúme, o desespero, a esperança, também discutindo o íntimo das incertezas. Destaco as canções “Qualquer Canção”, “Já Passou”, “Vida”, “De Todas as Maneiras” e “Eu Te Amo” (em dueto com Telma Costa), composições que muito combinam com o desenvolvimento do personagem Antônio.

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