#88 Ferrugem

Título: Ferrugem

Autor: Marcelo Moutinho

Primeira publicação: 2017

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“[…] embora diferentes, algumas coisas continuam.”

O carioca Marcelo Moutinho, para além da já extensa carreira como escritor, também foi colaborador em diversos suplementos culturais do país e curador de importantes eventos em prol da leitura. Autor principalmente dedicado às formas literárias breves, ele traz como marca de sua produção o enfoque no cenário urbano, sempre explorado de maneira não convencional. Seguindo tal perspectiva, sua coletânea Ferrugem reúne treze contos que dão luz a figuras ordinárias da cidade do Rio de Janeiro em conflito com a passagem do tempo, unindo humor, encantamento e melancolia.

Ao tirar potência e beleza do cotidiano comum, as narrativas presentes no livro muito têm em comum com o gênero crônica, oferecendo um olhar agudo ao aparentemente trivial. Ademais, o autor ultrapassa a inusitada descrição de flagrantes da cidade maravilhosa ao propiciar densidade emocional e certo aprofundamento psicológico a alguns personagens, ainda que suas tramas sejam bem definidas em concisão. O exercício ficcional resulta em leveza de enredo e simplicidade de linguagem, sem excluir o requinte estrutural e a lapidação de diálogos. A sobriedade no trato da profusão de vozes narrativas e o jogo com as expectativas se fazem memoráveis ao leitor, que vai construindo aos poucos os sentidos guardados nas entrelinhas do texto.

A feição local é traçada principalmente através da menção a lugares específicos ao Rio, retratados em tom quase nostálgico. A espacialização contemporânea oportuna o registro das modificações ocorridas na cidade, como o Elevado da Perimetral, célebre viaduto que não existe mais, servindo de cenário em uma passagem de “Dezembros”, conto que é chave para a essência do compêndio ao valer-se das transformações na relação de um jovem com seu avô, que se orgulhava de trabalhar na Rádio Nacional. As referências musicais, inclusive, completam o interessante caldeirão de Moutinho, que não esconde aqui a influência que recebeu do nosso cancioneiro popular: o triste “As praias desertas”, que acompanha uma mulher presa à ilusão de um amor do passado, recebe o título da canção de Tom Jobim regravada por algumas das maiores vozes brasileiras, entre elas Maysa, Elizeth Cardoso e Maria Bethânia, assim como o divertido “Rei” retoma os sucessos da carreira de Roberto Carlos ao centrar-se em um velho cover do cantor que decide bancar um show próprio para provar seu talento ao público da boate de strip-tease em que trabalha há anos, enfrentando a concorrência com o moderno repertório oferecido pela nova gerência do inferninho, e o conto-coração da obra, “Três apitos”, recria o samba homônimo de Noel Rosa (mais conhecido pela marcante interpretação de Aracy de Almeida), substituindo o ambiente da fábrica de tecidos por um supermercado, com os sinais sonoros tomando outra dimensão: a de avisar a protagonista diagnosticada com HIV os horários de sua medicação. Correndo por fora, “Something” alude à famosa balada dos Beatles para embalar as fases de um relacionamento amoroso.

As conexões humanas tomam destaque em algumas narrativas, como em “Jantar a dois”, que retrata a decadência de um casal de meia idade através de não ditos à mesa de um restaurante, e “362”, que mostra uma cobradora de ônibus tentando ajudar um amigo a se aproximar de outra passageira por quem ele nutre um amor platônico. Outros temas ainda se fazem caros ao livro, como o fanatismo religioso, a descoberta sexual (tratada sem firulas) e a ebulição do futebol, mas a essência criativa dos contos parece estar mesmo em consonância com a corrosão temporal que dá nome à coletânea. Até mesmo a incidência do fantástico em “Caiu uma estrela na minha sala” projeta uma possível alegoria à fugacidade ligada a celebridades televisivas. O tempo aqui é apresentado não só como aquele que apodrece, que leva à queda, mas também o que remodela e fortifica, que traz superação.

Com histórias que, de tão poéticas e impactantes, se tornam inesquecíveis, Ferrugem discute a permanência ante a inevitável velocidade do tempo e a importância das ranhuras na trajetória de qualquer pessoa. Marcelo Moutinho surpreende ao extrair do seu desembaraço ficcional grande carga de sofisticação e lirismo, sabendo deixar claro que, embora sofram diversas mudanças, algumas coisas irão inevitavelmente se conservar ou se repetir de outras maneiras.

Entrevista com Marcelo Moutinho sobre aspectos do processo de escrita da obra no Blog da Editora Record.

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Referências Utilizadas:

MOUTINHO, M. Ferrugem. Rio de Janeiro: Record, 2017.
ISBN: 9788501108227

www.marcelomoutinho.com.br

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2 Comentários

  1. Parece muito interessante! Ferrugem… Dá mesmo a sensação que trata do passar do tempo. Vou deixar aqui como referência, para poder ler, no futuro. Obrigado pela indicação!

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