Listeratura: Casais na Ficção

A literatura, enquanto expressão artística da essência humana, sempre contemplou a história de amor como interessante elemento para a ficção. De fato, os encontros e desencontros de casais permanecem surtindo algum efeito nos leitores, seja fazendo-os torcer por um final feliz ou odiar a combinação entre os personagens, seja simplesmente estabelecendo certo nível de identificação com o desenrolar dos relacionamentos narrados. Indo além da mera idealização romântica e se aproximando a uma dimensão mais autêntica da convivência amorosa, esta lista evoca alguns casais memoráveis da produção literária brasileira, com os escritores revelando diferentes perspectivas acerca do contato interpessoal e a intensidade de seus desdobramentos.

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10 – Cauby e Lavínia
Livro: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios – Marçal Aquino

O fotógrafo Cauby, trabalhando para uma revista semanal, resolveu trocar São Paulo pelo interior do Pará. Os encantos daquele lugar o fazem encontrar a estonteante e misteriosa Lavínia, mulher do pastor evangélico Ernani. Mesmo tendo consciência de todos os riscos, os dois se envolvem em um tórrido relacionamento escondido. Todavia, a história pregressa da sedutora mulher é trazida aos poucos à tona, assim como os encontros vão se tornando cada vez mais evidentes ao marido traído, anunciando um rompimento dramático que serve de base para um dos mais belos relatos sobre o amor de nossa literatura.

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9 – Cleo e Daniel
Livro: Cleo e Daniel – Roberto Freire

Cleo e Daniel são pacientes do psicanalista Rudolf, o personagem central do romance de Roberto Freire. Ela, aos 15 anos, tenta se recuperar de um aborto imposto pela mãe. Ele, aos 17, tenta tratar sua personalidade revoltada e agressiva. O casal-título demora a se encontrar, mas logo inicia um relacionamento libertário, ainda que bastante conflituoso, passeando pelo submundo paulistano dominado pela cultura hippie e traçando um testemunho vigoroso dos loucos anos 1960.

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8 – Andréa e Berenice
Livro: As Traças – Cassandra Rios

Andréa, jovem que passa por uma fase de autoconhecimento, ao trocar de colégio, inexplicavelmente se interessa por Berenice, uma de suas professoras. A mulher alguns anos mais velha corresponde aos seus sentimentos e as duas passam a nutrir uma relação ao mesmo tempo ardente e tempestiva. Insegura com suas dúvidas e hesitações, a adolescente acaba se envolvendo com drogas e dando margem a problemáticos comportamentos. Na tentativa de ajudá-la, Berenice decide enfrentar seus próprios impasses ligados ao passado, mostrando que a conexão entre as duas não é tão simples quanto parece.

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7 – Nô e Edna
Livro: Riacho Doce – José Lins do Rego

Edna é uma sueca casada com um engenheiro que com ela mudou-se de Estocolmo para o Brasil, com fins de exploração de petróleo. Já Nô é filho de pescador e neto de Sinhá Aninha, velha guardiã dos bons princípios no povoado de Riacho Doce, na região litorânea de Alagoas. O envolvimento amoroso dos dois enfrenta muitos obstáculos e ocasiona perturbações de ordem ecológica e moral ao cotidiano das famílias de jangadeiros que residem no local-título de um dos mais célebres trabalhos de José Lins do Rego.

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6 – Camilo e Cosme
Livro: O Amor dos Homens Avulsos – Victor Heringer

Camilo, garoto de saúde frágil, viu a rotina de sua casa mudar completamente quando o seu pai (envolvido com serviços obscuros da ditadura militar) traz para casa, sem explicações, outro menino, chamado Cosme. O protagonista, impedido de tomar sol e com uma deficiência nas pernas que o obriga andar de muletas ou bengala, tem o instinto inicial de odiar aquele novo hóspede,  por inveja  de seu vigor, de sua saúde, de sua bela pele acobreada. Todavia, a natureza de seus sentimentos vai mudando ante as descobertas da puberdade. Os dois adolescentes acabam se apaixonando e descortinando juntos o primeiro amor. Precocemente interrompida por uma tragédia, a terna relação é pilar para todo o exercício de memória traçado pelo ressentido personagem principal do romance de Victor Heringer, resgatando o período ao lado do amado como o mais feliz de sua vida.

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5 – Lisbela e Leléu
Livro: Lisbela e o Prisioneiro – Osman Lins

Os protagonistas da peça de Osman Lins, a sonhadora e corajosa Lisbela, filha de um bravo delegado de cadeia, e o malandro, conquistador e aventureiro Leléu, formam um improvável e anticonvencional par amoroso. Ela prefere o artista preso ao Dr. Noêmio, advogado vegetariano a quem tinha a mão prometida em casamento. O relacionamento da não-mocinha com o anti-herói subverte os valores de Vitória de Santo Antão, o lugarejo nordestino em que a ação evolui, também se prestando a muitas tiradas cômicas.

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4 – Fernando e Isaura
Livro: A História do Amor de Fernando e Isaura – Ariano Suassuna

Por grande respeito e gratidão ao tio Marcos Fonseca, rico fazendeiro que o acolheu em dificuldade, Fernando aceita seu pedido em ir para outra cidade casar em seu nome, por meio de uma procuração, com uma mulher mais nova de que não tem detalhes, devido a uma promessa feita à sua família. Durante a viagem, o rapaz conhece Isaura sem saber que ela é a noiva esperada e os dois se envolvem intensamente. Ela já havia se encantado por ele três anos antes, quando, em determinado incidente, cuidou de seus ferimentos. Havia aceitado se unir em matrimônio a outro homem justamente por perder a esperança de reencontrar sua grande paixão. Os jovens acabam aceitando a fatídica situação, mantendo seus sentimentos guardados. Todavia, logo começam a se aventurar em encontros às escondidas, caminhando para um final trágico. A primeira prosa ficcional de Ariano Suassuna recontextualiza o mito celta de Tristão e Isolda (cujos fragmentos mais antigos remontam ao século XII) para a dura realidade do Nordeste brasileiro da primeira metade do século passado.

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3 – Bibiana e Rodrigo
Livro: O Continente (O Tempo e o Vento – Parte I) – Erico Verissimo

O capitão Rodrigo Cambará chega ao povoado de Santa Fé de forma inesperada, chamando a atenção de todos. Ele se apaixona pela jovem Bibiana ao vê-la visitando o túmulo da avó Ana Terra. Logo, passa a fazer de tudo para conquistar a sua amada, que termina rendida aos seus encantos, mesmo com os apelos da família para que se afastasse daquele forasteiro de gênio forte. Após a união em casamento, o casal eminentemente passa por várias dificuldades conjugais. Contudo, apesar das traições e bebedeiras, Rodrigo parece nunca tirar da cabeça a esposa e os filhos, que se mantêm firmes ao seu lado no decorrer dos acontecimentos que formam a magistral obra de Erico Verissimo.

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2 – Bentinho e Capitu
Livro: Dom Casmurro – Machado de Assis

O jovem Bento Santiago sempre se sentiu imensamente atraído pela vizinha Capitolina e seus “olhos de ressaca”. É com ela que o narrador-protagonista de um dos mais importantes romances nacionais conhece o amor e, por consequência de sua própria insegurança, o ciúme. Bastante apaixonados, eles tentam enfrentar as circunstâncias que envolvem a decisão de D. Glória em enviar o único filho ao seminário. Passados alguns anos de tal sufoco, acabam casando e tendo um filho, Ezequiel. A felicidade conjugal é afetada pelas constantes desconfianças de Bentinho, que transforma as belas lembranças ao lado de Capitu em amargura e ressentimento. Com este casal, Machado de Assis conseguiu construir um retrato preciso da fragilidade dos relacionamentos humanos, entre o lirismo da descoberta e a dor do fim.

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1 – Dona Flor, Vadinho e Teodoro
Livro: Dona Flor e Seus Dois Maridos – Jorge Amado

A curiosa relação entre Dona Flor e seus dois maridos tem inicio com a morte súbita do boêmio Vadinho em pleno domingo de Carnaval. Depois de um ano, a viúva acaba se unindo a Teodoro, um farmacêutico tranquilo e de hábitos conservadores que a faz feliz, mas não a entusiasma como amante. Quando o fantasma do falecido companheiro passa a conviver com os recém-casados, a protagonista se vê em profunda contradição, mas acaba cedendo aos seus desejos reprimidos e experimentando o melhor de dois mundos. O divertido “casal de três” criado por Jorge Amado se tornou emblemático justamente por explorar o desregramento social, evidenciar o poder de autonomia da mulher e sintetizar as mudanças ideológicas do próprio povo brasileiro.

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> Menções honrosas (e necessárias):

Úrsula e Tancredo
(Úrsula – Maria Firmina dos Reis)

Zuca e Jerônimo
(Cabocla – Ribeiro Couto)

Antonio e Karina
(A Máquina – Adriana Falcão)

Fabiano e Sinhá Vitória
(Vidas Secas – Graciliano Ramos)

Antônio Balduíno e Lindinalva
(Jubiabá – Jorge Amado)

Gabriela e Nacib
(Gabriela, Cravo e Canela – Jorge Amado)

Gato Malhado e Andorinha Sinhá
(O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá – Jorge Amado)

Beatriz e Paulo Donetti
(Um Erro Emocional – Cristovão Tezza)

Cora e Julia
(Todos Nós Adorávamos Caubóis – Carol Bensimon)

Dora e Pedro Bala
(Capitães da Areia – Jorge Amado)

Berenice e Bolachão (Gordo)
(O Gênio do Crime – João Carlos Marinho)

Israel e Obadiah
(Madrugada de Farpas – Paulo Venturelli)

Aurélia e Fernando
(Senhora – José de Alencar)

Cirino e Inocência
(Inocência – Visconde de Taunay)

Eugênio e Margarida
(O Seminarista – Bernardo Guimarães)

Carolina e Augusto
(A Moreninha – Joaquim Manuel de Macedo)

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Lembrou de mais algum casal interessante não mostrado por aqui? Escreve lá embaixo nos comentários!

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3 Comentários

  1. Lembrei da Lori e seu professor (Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Clarice Lispector; Amaro e Aleixo (Bom crioulo, Adolfo Caminha); Pedro e João (O amor de Pedro por João, Tabajara Ruas). Há contos com casais interessantes: Aqueles dois, do Caio Fernando Abreu; Pílades e Orestes, Machado de Assis; Frederico Paciência (Mário de Andrade); José Matias, Eça de Queiroz. E mais… mais… muito mais !

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  2. Rapaz, tava precisando de um texto assim! Obrigado.

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  3. Em A Casa da Palma de Carlos Nascimento Silva temos Don’Ana e Sebastião, envolvidos numa relação difusa e incestuosa, e Celeste, filha de Sebastião, com a sua ama Mariana, filha de Don’Ana. O livro mostra o incesto fazendo parte de nossas raízes.

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