#57 Parque Industrial

0000011842Título: Parque Industrial

Autor: Patrícia Galvão

Primeira publicação: 1933

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora José Olympio

“Matam os operários, mas o proletário não morre!”

A paulista Patrícia Galvão, conhecida por Pagu, foi diretora de teatro, tradutora, desenhista, jornalista e escritora em anos efervescentes da vida cultural e política do país. Editando seus textos em diversos periódicos desde a adolescência, sempre colocou sua arte a serviço das causas em que se engajou, obtendo, com isso, uma reputação escandalosa ante o pudor da sociedade conservadora na primeira metade do século XX. Pela militância e forte convicção ideológica, foi presa diversas vezes, no Brasil e no exterior. Seu romance de estreia, assinado com o pseudônimo Mara Lobo, lançado com pequena tiragem e pouca divulgação, denuncia a desigualdade de classes em meio ao acelerado processo de modernização do estado de São Paulo.

O livro traça um frenético painel de episódios que evidenciam o vertiginoso contraste entre a elite empresarial e o proletariado que luta por melhores condições de sobrevivência. O fio narrativo do romance, desenvolvido em pequenos fragmentos à primeira vista desconexos, dá ênfase aos dramas cotidianos dos trabalhadores industriais, procurando conceder voz a esse extrato social. Os personagens apresentados, contudo, não apresentam complexidade psicológica, sendo construídos segundo a circunstância que fazem parte. Nesta perspectiva, cada nome que vai aparecendo no impresso parece caracterizar uma espécie de tipo plano: o patrão aproveitador, o empregado honesto, a madame fútil, a empregada assediada, etc. Esse recurso tem sua importância na medida em que representa o contexto geral de uma coletividade.

Todavia, destoa desta conjuntura, por certa progressividade de atitudes, a figura de Alfredo Rocha, um rico herdeiro que, sentindo-se deslocado no cenário da burguesia, abandona a vida privilegiada e se junta aos operários moradores de cortiços no bairro do Brás, participando das manifestações de rua. O personagem, entretanto, continua sendo mal visto pelos companheiros de revolta, se assemelhando, neste aspecto, à própria Pagu, que aparentemente encontrou forte restrição dentro do grupo político ao qual se filiara em 1931, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), devido justamente ao seu passado de elite. A escritora, inclusive, ao que tudo indica, utilizou-se da assinatura pseudônima na obra em questão por exigência deste partido.

Deixando para trás a esposa, uma dondoca que mantinha suas aventuras e perversões sexuais à custa do marido, Alfredo acaba se envolvendo com a trabalhadora Otávia. Ela, juntamente com outras tantas heroínas criadas por Galvão para a publicação, como Rosinha e Matilde, se destacam na narrativa, assinalando a condição feminina nos grandes centros urbanos. São mulheres que sofrem ainda mais pela realidade financeira inferior, além da agressão e do assédio derivados das relações de poder nas fábricas de tecido, nas oficinas de costura ou no ambiente doméstico em que atuam, estando à frente das greves deflagradas mais ao final do romance. Através destas figuras fortes, idealistas, emancipadas e, principalmente, inconformadas, a autora também trata de temas como a prostituição, a homossexualidade, o abuso sexual e o aborto, sempre manifestando um viés transgressor.

A rebelião dos oprimidos é acompanhada pela violência do aparelho repressivo policial. A constante desumanização dos mais carentes revolta, excedendo o que está posto no papel e provocando a reflexão até sobre a função do estudo e da leitura crítica no combate contra a ignorância e a submissão. O narrador de terceira pessoa se aproxima dos personagens através da linguagem coloquial, artifício que realça as cenas de exploração e humilhações sofridas pelos proletários em ambientes públicos ou privados. A descontinuidade entre os capítulos indica o afastamento do escrito com o tradicional desenrolar do enredo em princípio, meio e fim. Cabe ao leitor fazer a soldagem das fatias que compõem a trama, assimilando toda sua amplitude.

Para muitos, Parque Industrial designou apenas uma tentativa de divulgação ou engrandecimento dos valores comunistas em território brasileiro. Ademais, como apontam vários estudiosos, por causa do conteúdo potencialmente explosivo, o texto permaneceu na contramão dos extremos ideológicos de esquerda e de direita. Mesmo que pareça propagar uma ideologia, a proposta política empregada pela autora torna-se interessante pelo direcionamento contra a ordem social injusta. Porém, não se pode negar que o tom de manifesto em prol da transformação social (aliado a uma visão inflexível a respeito do caráter estético de uma escritora iniciante) corroborou, por muito tempo, para o não reconhecimento do livro pela historiografia literária brasileira.

Em conclusão, podemos rejeitar ou endossar os pensamentos defendidos por Pagu em seu implacável romance. No mais, a leitura vale pela consideração de que, mesmo com tantos avanços sociais e econômicos, a disposição discrepante entre dominantes e dominados persiste de maneira quase insuportável em nosso país. Toda movimentação para liberta-se desta estrutura de base desequilibrada continua encontrando reações daqueles que não querem perder o seu lugar superior. Temos que avaliar este quadro complexo a todo momento, tendo coragem de nos posicionarmos opostos à cruel hierarquia que aflige a população brasileira.

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Referências Utilizadas:

GALVÃO, P. Parque industrial. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2006. (Coleção Sabor Literário)
ISBN: 9788503008983

www.pagu.com.br

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Musicoteca: Grande Liquidação (1968). Disco de Tom Zé.

Deixo a indicação do álbum de estreia do gênio Tom Zé para acompanhar a leitura do romance. O disco é marcado por letras dotadas de ironia e espírito crítico aliadas a melodias formadas na mistura de elementos musicais bastante distintos, refletindo o fervor delirante de São Paulo em seus anos de modernização. Destaque para a composição que  abre o disco, “São São Paulo”, e para a que tem o mesmo título da obra de Pagu, “Parque Industrial”.

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