#58 A Chuva Imóvel

Título: A Chuva Imóvel

Autor: Campos de Carvalho

Primeira publicação: 1963

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora José Olympio

“Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo.”

Walter Campos de Carvalho, mesmo formando-se em Direito e aposentando-se como procurador, sempre teve a vida ligada à literatura. Autor de diversas crônicas publicadas principalmente no periódico O Pasquim, o mineiro é conhecido pela ficção de cunho surrealista, apresentando uma construção textual bastante irreverente e inquietante. Com A Chuva Imóvel, ele traçou o relato ao mesmo tempo melancólico e furioso de um homem infeliz em intenso conflito existencial.

O livro é focado na figura de André Medeiros, que revê os principais eventos que marcaram a sua trajetória em uma frenética sobreposição de pensamentos e imagens particulares. O tempo desta narração é aparentemente anterior ao seu suicídio, lançando impressões acerca do inferno interior do personagem. O fluxo das lembranças descritas não respeita o desenrolar cronológico, obedecendo apenas a uma livre associação de ideias na memória. Sendo assim, logo percebemos que a morte do irmão e a relação conturbada com a irmã gêmea Andréa muito contribuíram para sua amargura e sensação de incompletude.

O narrador tinha a responsabilidade de tornar-se diplomata, para honrar o sobrenome de sua família, propósito este não alcançado pelo irmão, um mensageiro de fraca saúde. Todavia, ele demonstra também não ter conseguido tal feito, apesar de sua competência para a profissão. A revolta contra os valores impostos pela parentela acabou levando-o ao trabalho maçante em um arquivo. Funcionário de pequeno porte, o protagonista passa a nutrir uma paixão incestuosa por sua irmã, desenvolvendo, concomitantemente, o ódio pelo patrão, marido da moça. A impressão era que a gêmea preenchia sua ausência de si, como uma metade que o faltava (em referência ao fato de que os dois já foram um só na placenta da mãe). Eis que a morte acaba se apresentando como a única saída racional para os conflitos do personagem em seu caminho sombrio e paranoico.

Ainda destaca-se na trama o significativo elemento da chuva que cai insistentemente, acompanhando a dissertação. Podemos entendê-la como um símbolo ligado à purificação, representando a reflexão do protagonista acerca de sua própria alma e da realidade que o rodeia. Mesmo referindo-se à chuva com certo aborrecimento, ele curiosamente não demonstra desejar verdadeiramente a sua extinção.

Campos de Carvalho conseguiu construir uma atmosfera claustrofóbica, quase sufocante para a narrativa. O humor absurdo, tão comum em outros trabalhos do escritor, assume aqui uma configuração mais densa e anárquica, casando muito bem com o grande teor lírico e filosófico do romance. A análise da natureza humana também permeia todo o texto, com o personagem principal, além de investigar o próprio íntimo, observando com asco o mundo exterior e suas contradições, não poupando críticas aos tabus do convívio social.

A exposição de André se constrói de forma fragmentada, em diversos episódios transmitidos de maneira descontínua. Tal característica torna a leitura desafiadora e sedutora, justamente pelo desconforto advindo da recusa da clareza superficial e da subversão do entretenimento fácil. A linguagem empregada no discurso em primeira pessoa, contudo, é direta e bastante simples.

No fim, este violento testemunho, repleto de inquietações e indagações profundas, torna-se um inspirado grito de revolta contra a opressão, entoando a liberdade através da desconstrução das limitações formais e ideológicas.

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Referências Utilizadas:

CARVALHO, C. A chuva imóvel. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2008.
ISBN: 9788503009881

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Musicoteca: Loki? (1974). Disco de Arnaldo Baptista.

Indico o brilhante primeiro álbum solo do grande Arnaldo Baptista para acompanhar a leitura do livro de Campos de Carvalho. O som experimental deste disco antológico, marcado por letras introspectivas, melancólicas e raivosas, muito reflete o tom do relato feito pelo protagonista André. As composições denotam uma usina efervescente de ideias, ao mesmo tempo em que evidenciam a dor e os delírios de um artista atormentado pela incerteza.

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4 Comentários

  1. Não conhecia o autor. Gostei muito da resenha…

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  2. Adorei a dica não conhecia vou dar uma olhada..bjuss
    http://www.feedhi.com

    Responder

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