#09 Ciranda de Pedra

Título: Ciranda de Pedra

Autora: Lygia Fagundes Telles

Primeira Publicação: 1954

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora José Olympio

“Ali estavam os cinco de mãos dadas […]”

A ficção de Lygia Fagundes Telles centra-se, a partir de diversos temas, no complexo comportamento humano. Detentora de uma prosa apaixonante e bem construída, a escritora paulista continua sendo uma das mais comentadas, analisadas e elogiadas da literatura brasileira. Por sua prolífica produção, ela já recebeu os mais importantes prêmios de nossas letras, como o Jabuti, dedicando-se a narrativas longas e curtas. O primeiro romance de sua autoria, Ciranda de Pedra, retrata muito bem a obscuridade do contato social através do enfoque psicológico em personagens intrigantes e em suas relações conturbadas. O livro é elaborado em duas partes cujo período compreenderia as décadas de 1940 e 1950: a infância e a fase adulta da protagonista Virgínia, que vive uma difícil situação familiar simultaneamente à necessidade de encontrar-se no mundo.

No inicio da obra, vemos a personagem ir morar com a mãe Laura, que abandona seu então marido, Natércio, para ficar com o médico Daniel. Suas irmãs mais velhas, Otávia e Bruna, com quem não consegue se relacionar muito bem, continuam morando com o pai. A menina reluta em conviver com o homem que dissolveu sua família (mesmo o admirando), desejando ir morar com as irmãs, que visita nos fins de semana. Virgínia acaba por assistir, com o tempo, o declínio psicológico de sua mãe e o sofrimento de Daniel, sendo enviada ao casarão de seu pai. Ali, ela é tratada com falsa condescendência pela governanta alemã de suas irmãs e passa a lidar com os amigos delas, os vizinhos Conrado, Afonso e Letícia.

A atenção dada à garota é escassa, fazendo com que sua personalidade introspectiva seja potencializada pela rejeição. Ela se sente excluída da rígida “ciranda de pedra” que as outras cinco crianças formam, como as estátuas de anões que ela encontra ao redor da fonte no jardim, permanecendo de mãos dadas, resistentes, não deixando ninguém mais entrar e fazer parte da roda. O único que não a rejeita é Conrado, por quem a menina logo se descobre apaixonada. Ademais, todos os fantasmas da infância trazem força para Virgínia, que vê sua vida se transformar através de algumas revelações internas, as quais promovem na protagonista reflexões a respeito de sua realidade. Sua jornada de autoconhecimento nasce na alternativa de permanecer afastada em um colégio interno, inclusive no período de férias. Com o distanciamento, cria maturidade para enxergar criticamente a estrutura envolta em hipocrisia que compõe aquele seio parental.

O trabalho primoroso com a narração sensível, repleta de melancólicas reminiscências e até lampejos de fantasia, aproxima-nos da realidade da personagem principal, quase como se a história fosse narrada por ela em primeira pessoa. A linguagem é fluida, marcada por belas e ao mesmo tempo sufocantes descrições. Trata-se de um livro sensível, envolvente e deveras corajoso, principalmente por denunciar a decadência vivida pelos círculos sociais burgueses em meados do século XX e explorar os desencontros existências que envolvem o feminino. Sua leitura é essencial por evidenciar o exímio talento de uma de nossas maiores escritoras logo em sua estreia.

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Referências Utilizadas:

TELLES, L. F. Ciranda de pedra. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.

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Musicoteca: Elis (1972). Disco de Elis Regina.

Indico o som de Elis Regina para acompanhar as páginas do livro de Lygia Fagundes Telles. A voz marcante e as letras presentes no disco Elis certamente irão emocionar os leitores, assim como a trama de Ciranda de Pedra.

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4 Comentários

  1. Gostei muito quando li.A voz da Elis ilustra a abertura de uma novela inspirada ou adaptada deste livro.

    Responder
    • Sim, sim! É a música “Redescobrir”. Não é a toa que indiquei um disco dela de que gosto muito para acompanhar a leitura do livro.
      Grande abraço!

      Responder
  1. #32 elis | 1001 DISCOS BRASILEIROS PARA OUVIR ANTES DE MORRER
  2. Listeratura: Mães na Ficção | 1001 Livros Brasileiros Para Ler Antes de Morrer

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