Listeratura: Mães na Ficção

Não há dúvidas de que a arte literária brasileira é cheia de personagens femininas notáveis pela enorme força. Muitas delas, aparecendo ou não na posição de protagonistas, tiveram na maternidade um ótimo ponto de exploração pelos escritores, que procuraram representá-las sob diferentes perspectivas, também utilizando-as como importantes vetores para a ruptura ideológica. Nos livros, assim como no contexto real, mães não são apenas aquelas mulheres que geraram a vida, mas também aquelas que adotaram, criaram e cuidaram, desempenhando muitas vezes o papel de pai em simultâneo. Sua relação com os filhos nem sempre poderá ser considerada positiva, mas não há quem refute a influência desta figura no desenvolvimento e constituição de cada indivíduo, mesmo que em ausência ou má-convivência. Neste sentido, convido-os a relembrar algumas das mais marcantes mães da nossa ficção.

___________________________________________________________________

10 – Fada-Mãe
Livro: A Fada que Tinha Ideias – Fernanda Lopes de Almeida

A Fada-Mãe muito preocupava-se com a desobediência da filha Clara Luz, que era cheia de ideias e opiniões “subversivas” em relação aos ditames da Rainha das Fadas. Por diversas vezes, teve que reverter ou anular as mágicas criadas pela travessa fadinha. Muito zelosa, temia que a menina fosse punida por  não seguir as lições do Livro de Fadas. Preocupava-se ainda em ser um bom exemplo, tentando guiar a filha pelo caminho que considerava correto e melhor em relação ao seu bem estar. O embate entre as gerações é latente pela falta de compreensão da Fada-Mãe ao novo comportamento proposto por Clara Luz, uma situação bastante comum na realidade dos jovens leitores.

___________________________________________________________________

9 – Márcia
Livro: Corda Bamba – Lygia Bojunga

A jovem Márcia, vinda de uma família rica e tradicional, apaixonou-se pelo modesto Marcelo quando este trabalhava como pintor de paredes no edifício em que morava. Contrariando sua mãe, fugiu de casa e se casou com ele, ajudando-o a realizar o sonho de trabalhar no circo como equilibrista. O casal teve uma filha, Maria, a menina protagonista do livro. Os três desenvolveram juntos a paixão pela altura e pela arte circense de atravessar a corda bamba. Márcia caracteriza uma importante chave para o mundo interior da filha, que havia bloqueado as lembranças ruins envolvendo o trágico acidente que presenciara. Ela também representa o pilar de uma estrutura familiar pautada no amor sincero, tratando a criança com igualdade e respeito.

___________________________________________________________________

8 – Maria Lúcia
Livro: Uma, Duas – Eliane Brum

No enfrentamento de um câncer terminal, Maria Lúcia volta a ter contato com a filha Laura, uma jornalista que tenta vencer as dores do passado por meio da escrita e da automutilação. A difícil relação entre as duas é embasada em traumas pesados que vão se desvelando aos poucos para os leitores do romance. A idosa rechaça qualquer manifestação de afeto da jovem, mas se aventura, junto a ela, na busca de si mesma e de maiores significados para a vida. Dependentes uma do sofrimento da outra, elas adentram num vertiginoso jogo de espelhos, discutindo os vínculos não só familiares, mas propriamente humanos, (re)descobrindo o amor em meio a tanto ódio.

___________________________________________________________________

7 – Patrícia
Livro: Verão no Aquário – Lygia Fagundes Telles

Patrícia, uma escritora que prefere o trabalho intelectual ao envolvimento com o ambiente doméstico, não aceita as cobranças obsessivas de Raíza, a filha (protagonista e narradora do romance) que insistentemente quer chamar sua atenção.  O conflito quase edipiano entre as duas acirra-se com a chegada à trama de André, um ex-seminarista amargurado que forma com elas um triângulo de atrações. Nesta obra, Lygia Fagundes Telles aparentemente se dispôs a desconstruir a conjuntura familiar tradicional, evidenciando que ninguém está limitado a um papel fixo (como o da mãe dedicada totalmente à cria e ao lar). Sem levantar bandeiras político-sociais, a autora realiza, através da figura de Patrícia, uma proposição implícita de que todas as mulheres são livres para fazerem suas próprias escolhas, tornando-se plenas além da experiência maternal.

___________________________________________________________________

6 – Alice
Livro: Quarenta Dias – Maria Valéria Resende

A professora aposentada Alice acabou por abandonar a vida pacata em João Pessoa para ir morar em Porto Alegre a fim de auxiliar a filha Norinha na criação do futuro neto. A capital gaúcha se mostra um mundo bastante diferente daquele que conhecia e ela acaba praticamente entregue à própria sorte, sem poder voltar ao antigo lar. Decide ir em busca de Cícero, filho de uma conhecida da Paraíba, que havia desaparecido em algum lugar daquela cidade. Sua aventura de quarenta dias perambulando pelas ruas da periferia porto-alegrense é registrada em um velho caderno com uma Barbie na capa, pelo qual podemos acompanhar seu processo de perdão ante maneira abusiva com que foi tratada. O relato de Alice revela a disposição comum à maioria das mães em amparar os rebentos nos momentos de dificuldade.

___________________________________________________________________

Download-O-Tempo-e-o-Vento-O-Con 5 – Ana Terra
Livro: O Continente (O Tempo e o Vento – Parte I) – Erico Verissimo

Ana Terra é a protagonista da parcela inicial do primeiro volume da magnífica trilogia que conta a formação histórica brasileira pelo ponto de vista do Sul. Logo no início da narrativa, a personagem descobre, nas terras de seu pai, um índio ferido, chamado Pedro Missioneiro. Ao se recuperar, ele acabou permanecendo na fazenda e os dois se apaixonaram. Ana engravidou e teve de criar o rebento sozinha. Quando castelhanos invadiram a instância, ela conseguiu esconder o pequeno Pedro Terra, protegendo-o do massacre que dizimou todos os homens da família. Violentada pelos bandoleiros, não cedeu ao sofrimento e partiu com o filho para o povoado de Santa Fé, região onde seus descendentes dão continuidade à narrativa.

___________________________________________________________________

4 – Vitória
Livros: Vidas Secas – Graciliano Ramos

A retirante Sinhá Vitória, junto com o marido Fabiano, conduziu os filhos, identificados apenas como menino mais novo e menino mais velho, na fuga da seca do Nordeste. Trata-se de uma mulher esperta, que descobriu que o patrão roubava nas contas do marido. Também era bastante inconformada com a miséria, aspecto que se reflete nas passagens em que devaneava com uma cama melhor para dormir. Apesar das adversidades, ela esforçou-se para cuidar dos filhos, esperando que eles tivessem uma sorte diferente da que tiveram seus pais. Mesmo infeliz, Vitória era otimista e conseguia transmitir aos rebentos e ao companheiro um pouco de paz e esperança.

___________________________________________________________________

3 – Zana
Livro: Dois Irmãos – Milton Hatoun

Zana, mãe de Rânia e dos gêmeos Yaqub e Omar, muito contribuiu para a destrutiva relação dos filhos homens. Mulher de temperamento inflamado, mandava e desmandava no marido e nos rebentos. Como uma figura superprotetora, ela fundou na criação o ódio entre os irmãos, aparentemente pendendo para o lado de Omar, independentemente da irresponsabilidade e falta de comprometimento deste. A dedicação da mãe ao irmão tornou Yakub introspectivo, forçando-o a construir sua vida sem ajuda. De tão mimado, Omar se entregou à boemia e passou a contrariar a genitora, inclusive através de envolvimento com jovens que depertavam o seu ciúme. Destarte, o comportamento de Zana vai se modificando com o desenrolar da narrativa, chegando ao ponto de não sabermos de que lado está, rogando pela reconciliação dos filhos até o fim da vida.

___________________________________________________________________

2 – Glória

Livro: Dom Casmurro – Machado de Assis

A conservadora mãe de Bentinho abrigava os Santiago em sua casa, além do agregado José Dias, dos quais sempre acatava conselhos. Vivia usando trajes escuros, refletindo seu estado de viuvez em função da lembrança do marido. Por efeito de sua fé cristã e da morte do primeiro filho, prometeu o jovem protagonista à condição de padre, encaminhando-o ao seminário, embora a distância e a saudade lhe causassem grande sofrimento. Lá, o jovem Bento passou dois anos, tornando-se melhor amigo de Escobar, que mais tarde viria a enlaçá-lo num complicado jogo de desconfiança em relação à fidelidade de Capitu. Com isso, Dona Glória, mesmo que indiretamente, contribuiu para o desenrolar da narrativa, dando o “pontapé inicial” para o desabrochar amoroso do filho, também surtando certa influência em seu comportamento passivo e inseguro.

___________________________________________________________________

1 – Lola
Livro: Éramos Seis – Maria José Dupré

Dona Lola é a matriarca que narra a história conturbada de família Lemos. Num exercício rememorativo que atravessa cerca de vinte anos, ela nos faz acompanhar o crescimento de seus filhos Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel, assim como a difícil relação com o marido Júlio. Depositava  toda a sua felicidade no bem estar de seus “pedaços”, mas acabou entregue à tristeza e à solidão, distante daqueles a quem tanto se dedicara. Ela é um verdadeiro arquétipo das mães na primeira metade do século XX. Submissa, não participava das decisões familiares, se doando aos afazeres domésticos e à criação dos rebentos. Ademais, seu relato talvez seja o mais belo atestado dos sentimentos que envolvem a maternidade na literatura brasileira. Cada detalhe do desenvolvimento das quatro crianças até a fase adulta é evocado com bastante emoção, indicando que ela permanecerá mãe mesmo que suas crias tenham abandonado de vez o ninho.

___________________________________________________________________

> Menções honrosas:

Capitu
(Dom Casmurro – Machado de Assis)

Natividade
(Esaú e Jacó – Machado de Assis)

Do Carmo
(Memorial de Aires – Machado de Assis)

Bibiana
(O Retrato (O Tempo e o Vento – Parte II) – Erico Verissimo)

Senhora
(Dôra, Doralina – Rachel de Queiroz)

Ângela
(Rebentar – Rafael Gallo)

Alicia
(Cinzas do Norte – Milton Hatoum)

Laura
(Ciranda de Pedra – Lygia Fagundes Telles)

Helena
(O Jogo do Camaleão – Marçal Aquino)

Mãe Fantasma
(Pluft, O Fantasminha – Maria Clara Machado)

 ___________________________________________________________________

Lembrou de mais alguma mãe não mostrada por aqui? Escreve lá embaixo nos comentários!

Anúncios
Deixe um comentário

1 comentário

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: