Literafilia: Sobre Poesia Marginal

No Brasil dos anos 1970, o regime militar ao mesmo tempo em que tentava proibir qualquer tipo de produção e comportamento que pudesse causar dano à sua estrutura, acabava por incentivar o surgimento de impactantes movimentos culturais atrelados à emergente juventude nacional.  Em meio a um ambiente de repressão, violência e vazio criativo, a nova geração sofreu uma metamorfose comportamental, ganhou voz e grande expressão, originando importantes rupturas em relação às concepções estéticas até então vigentes. O surto criativo que subverteu os padrões oficiais da literatura lançada na época adveio justamente do inconformismo com os moldes impostos pelas esferas acadêmica e política. A formação de uma poética “fora do sistema”, à margem da tradição, possibilitou a liberdade das amarras do conservadorismo intelectual através da escrita. Os versos sujos e irreverentes de notáveis desconhecidos ganhariam, mais tarde, respeitável destaque na historiografia de nossas letras, influenciando e inspirando, inclusive, muito do que é feito na contemporaneidade.

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Extrato Poético: Torquato Neto

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;

agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim do fim de tudo
e o tem do tempo vindo;

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento

Torquato Neto in ‘Torquatália – Volume 1 (Do Lado de Dentro)’ (Editora Rocco)

Extrato Poético: Torquato Neto

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto in ‘Torquatália – Volume 1 (Do Lado de Dentro)’ (Editora Rocco)