Extrato Poético: Conceição Evaristo

Todas as Manhãs

Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.

Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida
cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.

Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós.

Conceição Evaristo in ‘Poemas da Recordação e Outros Movimentos’ (Editora Nandyala)

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2 Comentários

  1. A dor e a memória desta dor ritualizada em versos. Magnífico.

    Responder
  2. CONCEIÇÃO ARRASA DEMAIS!
    Adorei o blog! E já estou seguindo aqui, se puder, depois visita o meu!
    Beijos.
    http://buscandominhasorte.com.br

    Responder

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