#94 Causa Morte

Título: Causa Morte

Autor: Débora Gil Pantaleão

Primeira publicação: 2017

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Penalux (Selo Castiçal)

“O homem é uma paixão inútil, meu amigo.”

A paraibana Débora Gil Pantaleão, para além da produção enquanto escritora, é coeditora da revista literária independente Malembe e líder da editora Escaleras, voltada principalmente à publicação de autores brasileiros contemporâneos. Com uma consistente elaboração estética, a novela Causa Morte marca sua estreia na prosa, apresentando uma primorosa narrativa fragmentada de inspiração niilista.

Em capítulos curtos, repletos de elipses, conhecemos a figura de Pedro, homem inexpressivo de considerável longevidade e magreza “infinita”, morador do município paraibano de Cabedelo. O narrador, identificado apenas como um jornalista vindo de São Paulo, bate à porta de tal ancião que, à princípio, rejeita sua presença. O insistente visitante acaba sendo acolhido no sofá da sala, mesmo ainda impelido a ir embora. O velho não sede a qualquer investida de conversa até o seu centésimo aniversário, quando subitamente tenta forçar o repórter a matá-lo com uma faca. A partir desse momento, passamos a explorar, junto ao forasteiro, as memórias daquele idoso, descobrindo as razões de sua melancolia, a origem da “eternidade” que tanto o assola.

É mostrada a infância do personagem central e seu convívio familiar, junto aos pais, Eunice e Josué, e os irmãos, Raquel e Davi, além de sua relação com Seu Severino, pescador mau visto pela vizinhança – decerto por ser ateu e comunista – que o tem como ajudante e companheiro a bordo do barco Alvorada. A repentina morte do irmão mais novo e o desaparecimento do amigo navegante parecem determinar a trajetória de Pedro, que começa a se perceber diferente, “duradouro”. Após as abruptas despedidas, ele aparenta não mais adoecer ou desenvolver marcas da idade. Ademais, a ausência da amada Maria, a quem sempre tentava agradar e mostrar a beleza da vida, também revela sua triste dificuldade na manutenção de laços afetivos, contribuindo com sua incomunicabilidade e solidão. A lembrança da travesti leitora de Clarice Lispector, aliás, repercute pungentemente na constituição dos últimos anos do protagonista, talvez por envolver um forte sentimento não correspondido.

Na companhia do idoso, o narrador acaba por questionar a própria existência em possível representação à figura-fonte de sua investigação jornalística. Ao final, a morte, que parecia tão distante à realidade daquele ser quase fantástico, nota-se cada vez mais adjacente, tragando-lhe aos poucos, invadindo-lhe a casa.

A trama é amarrada com sensível lirismo, evidenciando a habilidade de Débora Gil em aproveitar-se do mimetismo formal para oferecer densidade ao breve texto, concentrando muitos sentidos em períodos bastante segmentados e justapostos. O experimentalismo estrutural e o desautomatismo linguístico ocasionam interessantes oscilações de ritmo à leitura, comprovando a maturidade criativa da autora. Edificado em beleza e desencanto, Causa Morte provoca a reflexão sobre o sentir-se morto no suportar de infindáveis dores, indagando acerca da validade do persistir.

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Referências Utilizadas:

PANTALEÃO, Débora Gil. Causa morte. Guaratinguetá-SP: Penalux, 2017.
ISBN: 9788558331609

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