#91 Vermelho Amargo

Título: Vermelho Amargo

Autor: Bartolomeu Campos de Queirós

Primeira publicação: 2011

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Global

Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles.”

O mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, com formação em educação e artes, foi idealizador de importantes projetos de leitura no Brasil, também dedicou sua vida à escrita. Sua prolífica e diversificada produção literária foi reconhecida por alguns dos mais importantes prêmios da crítica também internacionalmente, além de receber constantes reedições em decorrência do enorme sucesso entre os mais variados públicos. No seu último livro publicado em vida, Vermelho Amargo, o autor revisita as dores da própria infância em um incômodo exercício de memória que só comprova o poder de seu lirismo e sensibilidade estética.

A novela de claro cunho autobiográfico apresenta uma sucessão de lembranças que não forma exatamente uma narrativa linear, mas uma estrutura de sentido emocional. Os fragmentos parecem ser disparados por alguns gatilhos, isto é, situações ou objetos que detonam, no protagonista-narrador, sentimentos conflitantes e momentos de reflexão. Assim, entre tantos elementos que, por meio da experiência sensorial, liberam inesperadas recordações, o simples cortar de tomates torna-se determinante para o desenrolar de seu texto, revelando profundas marcas feitas no menino e que permaneceram no homem adulto.

As reminiscências da época de criança retratam a fria rotina de uma família grande que vai se desmembrando aos poucos. A morte prematura da matriarca muito repercute na trajetória do personagem principal. Tal perda é ainda mais sentida quando entra em cena a figura de sua madrasta, mulher que lhe causa repulsa quando posta em comparação com a imagem de sua mãe. Ela não corta o tomate como sua carinhosa genitora o fazia, o que parecia trazer um amargor ao fruto, tornando cada refeição uma tortura. Aquele “vermelho amargo” o acompanharia por muito tempo, sendo sentido em fatias cada vez mais grossas na medida em que o grupo de parentes se desintegrava.

Enquanto os irmãos tentam lidar com a falta (um deles come vidro, outra reproduz os gestos de uma gata, outra borda obsessivamente…), seguindo, mais tarde, por caminhos diferentes, abandonando o lar, o pai, homem bastante silencioso e alcoólatra, permanece distante. Em determinados momentos, pela visão do protagonista, a separação do seio familiar aparentava até ter sido planejada pela “substituta” de sua mãe, o que lhe causava ainda mais angústia. Vendo-se sozinho e desamparado ante às frequentes despedidas, ele encontrou acalanto nos livros, que acabariam se tornando sua principal companhia e dos quais também percebemos inúmeras referências ao decorrer da leitura.

A memória aqui se expõe como lugar de (re)criação, visto que a construção de uma lembrança, influenciada pela vivência recente, muito pode ter de imaginativo. Dessa maneira, é interessante perceber que a saudade corrompe o discurso e o pensamento do personagem principal, comprometendo a nossa total confiança em seu ponto de vista. A melancolia de suas palavras e o imenso desprezo pela madrasta desvelam uma indignação que corrói tanto o passado quanto o presente de seu enunciado, mesmo com o tempo sendo um componente incerto no texto. Todavia, a sensação de imersão ao escrito contribui para um contato mais íntimo com o seu sofrimento, intensificado na prosa poética permeada de coloquialismo de Campos de Queirós.

Com notável delicadeza e momentos de extrema beleza, Vermelho Amargo é dilacerante, rouba o fôlego. Partindo do horizonte infantil, o intenso relato exprime o quanto as separações forçadas podem torturar e causar um  impacto imensurável à existência de qualquer pessoa.

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Referências Utilizadas:

QUEIRÓS, B. C. Vermelho amargo. São Paulo: Global, 2017.
ISBN: 9788526023369

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1 comentário

  1. Ótimo blog, livros interessantes. Obrigado por compartilhar.

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