Extrato Poético: Antonio Cicero

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero in ‘Guardar’ (Editora Record)

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3 Comentários

  1. Muito bom. Não conhecia esse autor. Gostei bastante.

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  2. Um poeta consistente, letrista delicado, homem sensato e atento…

    Responder
  3. Para mim “Guardar” é aquilo que se capta como poético e é transformado em poema. Uma metáfora às fontes da poesia e a sua forma guardada na escrita: “Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,/por isso se declara e declama um poema:/Para guardá-lo”…
    Depois de guardado na forma, o poema não se acaba mais e estará sempre à disposição para o desfrute. Excelente!

    Responder

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