#90 Azul e Dura

Título: Azul e Dura

Autor: Beatriz Bracher

Primeira publicação: 2002

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora 7Letras

“Nada importa quando nada está certo.”

Uma das autoras mais interessantes e respeitadas de nossa produção literária recente, a paulista Beatriz Bracher iniciou a carreira no mundo editorial brasileiro participando da organização da revista de literatura e filosofia 34 Letras e se destacando como uma das fundadoras da competente Editora 34. A premiada autora também já se fez notável no cenário do cinema nacional, assinando argumentos e roteiros de filmes aclamados pela crítica. Seu romance de estreia, Azul e dura, apresenta uma narrativa de intensa preocupação estética com enfoque no dilaceramento existencial e no eminente confronto com si mesmo.

O enredo acompanha a perspectiva e os conflitos de uma mulher bem-nascida, na casa dos quarenta anos, mãe de filhos adolescentes que, em férias nos Alpes suíços, reavalia momentos importantes de sua vida, da infância no seio de uma família tradicional, passando pela audaciosa formação em cinema e o casamento frustrado, até o acidente que serve de estopim para tal autorreflexão. Através da escrita, Mariana tenta lidar com o trauma da culpa por ter possivelmente provocado um fatal atropelamento, tentando recompor sua identidade ante o caos que parece dominar tudo o que a rodeia. É quando se tornam claros alguns importantes aspectos do romance: certo exercício metalinguístico e a pesquisa interna a qual Bracher se empenha na construção do texto, incitando-lhe um caráter autobiográfico.

A personagem escreve a partir de anotações e vestígios do passado que foram levados para a viagem em uma mala azul e dura. Em seu percurso de entendimento, ela avalia o processo judiciário em que se envolveu, além do comportamento das pessoas que a fizeram pensar que não é responsável pelo que aconteceu ou que a tragédia nada significou. Legalista, Mariana carece de verdade e justiça e se revolta. O inquérito policial a beneficia descaradamente enquanto acusa os parentes da vítima de negligência. Contudo, a narradora não consegue superar o peso da tradição imoral a qual sempre fez parte. Os estereótipos sociais diluem-se no embaralhar de sua percepção: ela questiona e recusa os papéis predispostos, mas permanece ligada a encenações, não conseguindo descartá-las. Trata-se de um dilema ético de implicações políticas envolvendo os privilégios da burguesia, que projeta um fragilizado plano pessoal para um corrompido universo social.

O livro se divide em três partes que se fragmentam aparentemente de forma aleatória, seguindo principalmente as lembranças da narradora: “Começo”, “Segunda Semana” e “Fechos”.  A trajetória da personagem ainda tem os planos temporais articulados em três espaços: os primeiros anos no Rio de Janeiro, o amadurecimento em São Paulo e o presente na Suíça. Todavia, a memória da protagonista envolve blocos não marcados por exatidão, com o reordenamento de atos, fatos e seres expostos seguindo contornos um pouco incertos. Sujeita ao medo, à angústia e ao alcoolismo, ela transita em pensamento pelo real e hipóteses a partir do acontecido, por vezes evocando imagens contraditórias.

Destaca-se o enorme cuidado com a linguagem que também se torna um forte indício do perfeccionismo da personagem principal, assim como delineia o clima ao mesmo tempo vertiginoso e lírico da narrativa. O texto preciso ainda resguarda uma larga gama de referências à MPB, com o discurso de Mariana se apropriando de letras de Caetano Veloso, Chico Science, Elomar, Luiz Melodia, entre outros.

Com poucas páginas, o denso e cortante debute de Beatriz Bracher cria um envolvente drama íntimo tolhido de melancolia, violência e névoa. Do despertar para o nocivo meio em que está inserida, sua multifacetada protagonista caminha para uma eminente desesperança. Talvez a prosa contemporânea brasileira tenha mesmo esse poder ainda maior de impactar e revelar a dor interior dos seus leitores.

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Referências Utilizadas:

BRACHER, B. Azul e dura. Rio de Janeiro: 7Letras, 2002.
ISBN: 8575770098

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1 comentário

  1. Não conheço nem a autora nem o livro, mas pelo que você escreveu, deve ser uma boa escritora. Parabéns pelo comentário.

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