Literafilia: Sobre Julgar Livro Pela Capa

Em uma cultura em que o recurso visual muitas vezes se sobressai ao conteúdo, a capa, enquanto embalagem do livro, tem uma importância crucial no processo editorial, servindo de guia do que será encontrado no interior de tal suporte ou constituindo seu principal meio de propaganda. Ela geralmente é construída tendo em vista a sedução dos leitores, podendo apresentar, além do título, nome do autor e indicação da editora, alguma referência sutil ou explícita ao escrito que protege. Esse elemento, todavia, não traduz completamente o conteúdo impresso, podendo gerar experiências frustrantes ou grandes mal-entendidos.

É muito comum a atitude de julgar o livro pela capa na hora de escolher a próxima leitura. As casas editoriais sabem disso e investem bastante no designe de suas publicações, prezando o impacto que terão nas prateleiras das livrarias físicas ou virtuais. Nessa perspectiva, as decisões gráficas tendem a cumprir estratégias de mercado junto a um público-alvo específico. Assim, capas chamativas não costumam acompanhar impressos de teor técnico-acadêmico-artístico, do mesmo modo em que capas mais simples ou experimentais não são utilizadas em livros de caráter predominantemente comercial. Ainda que consideremos determinada capa pavorosa ou pouco interessante, dificilmente poderemos apontar que ela não é coerente à sua proposta de distribuição.

O equilíbrio entre imagens, pesos de fontes, efeitos e combinações de cores no espaço da capa às vezes também depende da série ou coleção a qual o livro pertence, como o padrão seguido nos títulos do escritor Luiz Vilela lançados pela Record ou na tiragem da Companhia de Bolso, selo pocket da Companhia das Letras. Na contemporaneidade, o sucesso em outras instâncias, como a internet e o meio audiovisual, também interfere na proposta de cobertura do impresso. Deste modo, alusões a adaptações cinematográficas ou televisivas, depoimentos de famosos recomendando o livro ou algum selo indicando sua alta vendagem também se tornaram elementos importantes ao projeto de capa, pois conseguem atrair a atenção e garantir o lucro.

Com a primeira impressão influenciando bastante na decisão dos consumidores, a indústria por trás do produto livro explora o criar de expectativas. Não excluindo a responsabilidade de vários leitores em alimentar esta estratégia, os editores às vezes extrapolam e preocupam-se mais com a qualidade da cobertura que com a do recheio, resultando em leituras decepcionantes. A elaboração pode não funcionar e o contrário também acontecer, com as capas  passando alguma mensagem que mais espanta do que atrai ao texto escrito.

O maior problema talvez resida não no julgamento do livro antes da leitura, mas em como esse parecer prévio é realizado. As pessoas são livres para formarem e seguirem seus próprios critérios de escolha, mas um livro não pode ser reduzido apenas ao seu envólucro. Por que não folhear o impresso, procurar críticas de pessoas em quem confiamos, pesquisar sobre o autor e a obra? De vez em quando, uma capa charmosa encobre um livro descartável e uma capa feia envolve um trabalho relevante.

Recentemente, experimentei a leitura de mais um livro de Fabrício Carpinejar, escritor gaúcho deveras popular principalmente no meio digital. Seu êxito editorial é geralmente ligado a uma criação mais palatável e de apelo comercial, embora ostente notável habilidade em arrancar lirismo do que é ordinário, tendo sua extensa produção reconhecida pela crítica em alguns dos principais prêmios literários do país. A obra Amizade É Também Amor reúne surpreendentes cento e vinte e duas crônicas que privilegiam o afeto entre amigos e o percurso de tal relacionamento. A capa desta seleção segue o modelo de outra lançada pelo autor, Felicidade Incurável que, entre outros temas, também apresenta algumas amostras sobre a amizade. Trata-se de um arranjo visual sóbrio, com as letras se destacando em cores semelhantes às da figura de um coração formado por pétalas de flores em um fundo totalmente branco, com certo movimento causado pelo desfazer da estrutura. A feição simplória da capa unida ao título óbvio me lembrou a conjuntura comumente usada em livros de autoajuda, como os do famoso médico Augusto Cury, gênero que não me empolga. Tal inferência poderia ter me afastado deste compêndio, não fosse as minhas leituras prévias do e sobre o autor, além de uma rápida olhada em seu sumário. A insistência, afinal, trouxe boa recompensa.

Carpinejar traça reflexões sobre as mais variadas ligações de apreço entre as pessoas, incluindo seu lado tempestuoso, mas não limita todo o conteúdo da obra essa espinha dorsal. Para além das crônicas um tanto genéricas, que parecem compostas por frases de efeito ou pílulas de sabedoria, o autor se destaca nos escritos que tratam de acontecimentos de seu passado ou que abordam seu cotidiano com singularidade. É o caso de textos mais sinceros, como “Idade de meu pai”, em que medita diante da foto do poeta Carlos Nejar aos quarenta e três anos, “A capa de super-herói dos cadernos”, na qual relembra com carinho os tempos de escola primária, e “Gafes familiares”, meditando sobre a relação com a mãe, a poeta Maria Carpi. Também são dignos de nota “Até a ligação cair”, expondo o laço afetivo que ele possui com os escritores e jornalistas José Klein, Mário Corso, Everton e Eduardo Nasi, “Sou a própria sessão da tarde”, ponderando sobre alguns hábitos da infância e suas reverberações na vida adulta, “Brique de amor”, revelando a importância do valor afetivo direcionado a alguns objetos, “O quê” e “No tempo em que todos estavam vivos”, nos quais analisa o peso da velhice. Ainda se fazem marcantes as crônicas “Diga o seu nome e a cidade de onde está falando”, que discute o medo do desconhecido partindo de uma ligação a cobrar durante a madrugada, “Não tem ninguém em casa”, em que pondera sobre propagandas e enganos telefônicos, “Coitado do Hulk” e “O selfista”, debatendo aspectos egocêntricos da sociedade atual, além de “Moletom na cintura” e “Pasta de couro”, em que elenca curiosas considerações sobre aspectos da vestimenta masculina. Em outras passagens, aproxima-se de temas mais pesados, como a morte, o assédio e o uso de medicamentos psicotrópicos, dando à obra uma feição caleidoscópica.

O autor cativa pelo estilo direto que torna a leitura sempre aprazível e pelo retrato contundente de situações que causam estranheza ou identificação. Por trás da aparência rasa, ele subverte o trivial servindo-se principalmente do humor, mas não por isso deixando de lado a intensidade no trato de seus próprios sentimentos e reminiscências. Ele permite que o leitor compartilhe de suas vivências tanto quanto o deixa livre para não concordar com suas espirituosas opiniões. A intensidade de seu trabalho não é mostrada na capa, embora possamos inferir alguma pista no movimento das pétalas que se despregam do desenho do coração. No fim, é sempre melhor ser surpreendido com um ótimo conteúdo do que ter completamente quebradas as expectativas formadas pela embalagem.

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1 comentário

  1. Ótima reflexão. São insondáveis os caminhos que nos levam aos livros. Já comprei muita coisa pela capa e pela qualidade da edição. É uma loteria. Muitas vezes bem sucedida, como no caso deste livro, de um autor que não conhecia: https://lombadaquadrada.com/2015/10/16/loucos-por-livros/

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