#89 Memórias de um Gigolô

Título: Memórias de um Gigolô

Autor: Marcos Rey

Primeira publicação: 1968

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Global

“Realmente eu não sabia o que queria ser. Aliás, sabia, sim. Não queria ser nada.”

O versátil Marcos Rey (pseudônimo de Edmundo Donato), além da atividade profissional como redator jornalístico e publicitário, envolveu-se em diversas instâncias da produção cultural brasileira, assinando o roteiro de radionovelas, programas televisivos e comédias eróticas para o cinema entre as décadas de 1960 e 1980, também participando da adaptação de alguns clássicos da literatura para o meio audiovisual. No campo das letras, assinou colunas de crônicas semanais em diversos veículos impressos, ainda se destacando na tradução e na autoria de ficção, explorando tanto a narrativa curta como a longa e voltando-se a diferentes públicos. Mesmo com suas criações bastante ligadas ao gosto popular, o escritor foi reconhecido pelos principais prêmios da crítica nacional ainda em vida. Muitas vezes apontado como precursor da nova prosa urbana vigente a partir da segunda metade do século XX, ele soube unir certo rigor de estilo e objetividade funcional no retrato das muitas facetas da metrópole paulistana (tratada como representação de toda a nação). Memórias de um Gigolô constitui uma ótima amostra do seu excelente domínio da palavra, apresentando uma trama envolvente e bem humorada que não perde de vista a análise humana.

Lançado no período de início do regime militar no país, o livro celebra corajosamente a marginalidade ao centrar-se nas recordações de um genuíno malandro, grande praticante do “nadismo” e da fanfarronada a partir da década de 1930. Tal anti-herói aprende a encenar personas e a trapacear desde cedo, presenciando os trabalhos de sua tia e única referência familiar, a cartomante Antonieta. Era ainda um menino quando ela leu sua sorte em um sebento baralho de tarô: ele encontraria no futuro uma Dama de ouros, amiga que muito o ajudaria financeiramente, e um Valete de espadas, inimigo de quem deveria ter cuidado. A previsão igualmente mencionava uma mulher misteriosa também ligada ao perigo do protagonista.

Com a morte da parente, o narrador relata ter sido adotado por Madame Iara, mulher elegante e à primeira vista muito bem relacionada. Esta senhora o leva para morar em seu bordel de primeira classe e habitado por muitas “sobrinhas”. Logo todas se encantam com a inteligência do rapazinho e sua grande habilidade de redigir cartas, que acaba se tornando sua primeira fonte de lucro. Logo o garoto conhece a dinâmica da casa, com cada marinheira daquela tripulação desempenhando algum papel importante para o efetivo funcionamento do negócio de sua protetora. Lá também descobriu a importância de se manter uma boa aparência, assim como o prazer advindo do requinte material, da vida mansa e da gigolotagem.

No entanto, mesmo presenciando a conturbada relação de algumas garotas com os variados figurões que frequentavam o prostíbulo, foi só com a chegada de uma nova e especial hóspede que o jovem teve um contato maior com o poder avassalador da paixão. A doce e sedutora Lu (ou Lupe) contribui para o seu amadurecimento sexual e amoroso ao mesmo tempo em que também o auxilia nos inúmeros golpes que passa a aplicar na noite paulista. Todavia, a aparição da figura de Esmeraldo, charmoso proxeneta e antigo amante da jovem prostituta, acaba originando um complicado jogo de sedução e ocasionando uma série de peripécias à trajetória do sujeito principal.

O que mais chama a atenção no romance é sem dúvida a construção aguda das muitas personagens. O verdadeiro nome do protagonista, Mariano, não é apresentado imediatamente, com ele recebendo ao longo da narrativa a alcunha de Tumache (apelido criado pela amada, ironicamente equivalente à expressão em inglês “too much”) ou de Mon Gigolo (cognome tomado como título). A ausência de identificação configura um interessante semi-anonimato que muito pode se ligar à falta de formalidade ou classificação social de tal indivíduo avesso ao trabalho fixo e a qualquer tipo de protocolo. Outro aspecto interessante do narrador é o seu repertório intelectual formado na leitura de almanaques e no contato com a literatura. O conhecimento demonstra-se útil à dissimulação do mal-caráter durante a aplicação de seus golpes. Também é através da erudição que ele traça comentários sarcásticos sobre as situações vividas e as pessoas que cruzaram o seu caminho, veiculando relativa autocrítica. Rey ainda utiliza este aspecto para elencar diversas referências que vão desde o cinema mudo a grandes autores de nossas letras, sempre em tom satírico, debochado.

Já Lu, de personalidade enigmática e ação sorrateira, manifesta ter ciência do controle sobre as ações dos dois homens que disputam sua atenção. Nesta perspectiva, ela se afasta da cândida faixada de uma Virgem de Guadalupe, revesando-se constantemente entre os amantes, mas não se deixando ser realmente explorada por nenhum deles. O outro vértice do triângulo amoroso, apesar do temperamento explosivo, termina estabelecendo uma simbólica relação de cordialidade com o rival, muito provavelmente por desenvolverem os mesmos hábitos, por encararem a vida de modo tão semelhante. Assim, a concorrência permanece muitas vezes velada. Além do cativante trio, o autor tem grande habilidade no trato de arquétipos comuns tanto ao submundo quanto aos setores opulentos da pauliceia. Sendo assim, somos levados a uma viagem da baixa esfera boêmia à alta roda das elites por meio de diferentes figuras que entram e saem do enredo. Em geral, Memórias de um Gigolô não corresponde a uma “autenticidade realista”, mas consegue expor determinada avaliação acerca da coletividade e suas convenções.

Outro ponto digno de nota em relação ao texto é a paródia a diferentes gêneros narrativos de massa, como o romance-folhetim (primeiro registro ficcional voltado ao entretenimento), especialmente com a quebra de tensão e a proximidade narrador-leitor, o romance policial, através do efeito surpresa e da amplificação descritiva, e a picaresca, com o espírito de aventura atrelado à comicidade farsesca. O escritor, ademais, também inclui boas doses de lirismo em seu caldeirão criativo. A linguagem escolhida para a projeção das reminiscências é despretensiosa e imediata, mas não por isso simplória, sendo permeada por expressões de época. O resultado é um ritmo de leitura ágil e adequado a um romance de formação.

No final, confirma-se que Marcos Rey foi um coeso contador de histórias, com enorme poder de comunicabilidade e cuidadosa arquitetura estética. Tornando atraente um personagem cínico, oportunista, volúvel, que ascende sua condição com base em truques e um pouco de sorte, ele enfrentou a restrição moral da política corrente e, simultaneamente, deleitou muitos leitores com uma trama bem elaborada e crua. Tomara que mais gerações percebam sua relevância e prestigiem o seu trabalho.

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Referências Utilizadas:

REY, M. Memórias de um gigolô. São Paulo: Global, 2011.
ISBN: 9788526015371

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Filmoteca: Memórias de um Gigolô (1970). Filme dirigido por Alberto Pieralisi, com Cláudio Cavalcanti, Jece Valadão e Rossana Ghessa. Memórias de um Gigolô (1986). Minissérie dirigida por Walter Avancini, com Bruna Lombardi, Lauro Corona e Ney Latorraca.

Diversas obras de Marcos Rey foram adaptadas para o audiovisual e não seria diferente com um dos seus maiores sucessos editoriais. A versão cinematográfica, com roteiro e direção do italiano Alberto Pieralisi, deslocou a história do contexto paulista da primeira metade do século XX para o Rio de Janeiro dos anos 1970, explorando a sensualidade do romance em uma divertida chanchada. Mesmo com a modernização, o roteiro procurou seguir a maioria dos acontecimentos narrados no livro, dando ênfase à figura do protagonista vivida por Claudio Cavalcanti. Já a versão televisiva de vinte capítulos teve a participação do próprio Rey em sua produção. Foram acrescentados ao texto contos independentes e fechados que convergiam com a trama central. Apesar deste alargamento e da transposição da história para o auge dos anos 1920 (em uma formidável reconstituição de época), a produção também conseguiu se manter bem fiel ao universo do malandro Mariano, interpretado com vigor por Lauro Corona. Todavia, quem toma maior destaque aqui é Bruna Lombardi, que trouxe diversas nuances à personagem Lu. Por fim, merece nota a estelar participação de Elke Maravilha como Madame Iara.

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2 Comentários

  1. Olà!
    Vc recebeu um email q enviei com um livro de poesias e crônicas ?
    Obrigada

    Responder
  2. Elisabete

     /  6 de julho de 2017

    Ótimas resenhas! Parabéns aos responsáveis pelas mesmas!

    Responder

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