#87 Maíra

Título: Maíra

Autor: Darcy Ribeiro

Primeira publicação: 1976

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Global

“Ser dois é não ser nenhum, ninguém.”

O incrível Darcy Ribeiro teve uma carreira múltipla: escritor, antropólogo, etnólogo, educador, além de político principalmente voltado às causas sociais e ambientais. Estudioso do modo de vida dos povos indígenas, ele sempre os defendeu arduamente, evidenciando sua real importância para o arranjo demográfico nacional. Fugindo à comum estereotipização e à romântica idealização do “sujeito selvagem”, o mineiro explorou, através do romance Maíra, sua envolvente estreia na narrativa ficcional, as várias reflexões que envolvem a identidade do índio no Brasil, assim como a complicada relação deste com as próprias raízes culturais e o com a gente dita “civilizada”.

Embora o livro seja bastante fragmentado, com uma interessante multiplicidade de perspectivas e histórias sobrepostas, o drama de Avá é o que mais chama a atenção no texto. Índio Mairum, ele tinha sido destinado, por sua ascendência, a ser tuxaua (chefe de guerra) de sua aldeia, assumindo o posto de seu tio, Anacã. Acometido por uma doença, acabou sendo levado sob os cuidados do padre Vecchio para Roma, recebendo o nome cristão Isaías – igual ao do profeta bíblico. O personagem foi então submetido a uma verdadeira lapidação para se tornar sacerdote e líder missionário aos moldes sacros europeus. Não se sentindo de fato parte daquele mundo, empreende um caminho de retorno à terra natal e de reaproximação com a sua tribo. No entanto, o trânsito entre dois espaços culturais distintos – o de origem e o imposto pela colonização – acarretará tensões e deslocamentos ligados à dolorosa percepção de que já não lhe é permitida uma só identidade.

O contraste entre a tradição cristã e a mitologia dos povos nativos atravessa o desenvolvimento e a estrutura da obra: os capítulos em maioria designados por palavras de origem indígena são divididos em quatro grandes partes que remetem à estrutura de uma missa católica e aos últimos momentos da vida de Cristo: “Antífona” (rito inicial, canto de abertura), “Homilia” (rito da palavra, sermão, pregação), “Cânon” (rito sacramental da oferenda e da comunhão) e “Corpus” (rito de ação de graças, bênçãos finais). Uma passagem bastante simbólica do livro mostra Avá/Isaías empenhado em traduzir o evangelho bíblico de Mateus para a língua Mairum, modificando elementos sintáticos e agregando imagens que podem resistir ao discurso catequizador e, de certa forma, garantir a continuidade de sua primeira cultura, criando uma espécie de espaço de convivência entre as duas cosmovisões que o constituem. Todavia, seu conflito permanece ao longo da trama, espelhando o fim simbólico de toda uma etnia.

Ainda toma destaque a figura intensa de Alma, carioca que procurou redimir-se de um passado vazio atuando como missionária junto aos índios Mairuns. O romance começa justamente com a redação de um boletim policial apurando os dados de sua misteriosa morte: às margens do rio Iparanã, seu corpo é encontrado nu, pintado de traços negros e vermelhos (formando linhas e círculos), ligado a dois gêmeos natimortos pelos cordões umbilicais. O intrigante contato desta mulher branca com a aldeia e sua integração à cultura daquele povo aos poucos vão se desvelando, sugerindo outra alegoria central ligada à mistura de mundos tão díspares e à busca de um lugar de pertencimento. A investigação da tragédia fica a cargo do Major Nonato dos Anjos, sujeito desajeitado que não compreende e se acha superior aos índios. Ele, ao lado de Juca, parente de Avá/Isaías que não aceita a condição mestiça e explora o comércio de peles à custa da população nativa, compõe a denúncia da exploração e abusos sofridos pelas comunidades indígenas do país, correndo o sério risco de serem dizimadas.

Ao mesmo tempo em que é mostrado como a tribo é ameaçada de várias formas, sendo protegida apenas por uma precária lei, também conta-se como se deu o nascimento de seus deuses e a criação do mundo segundo a sua visão, contribuindo para a compreensão de seus rituais e valores. Maíra (o sol) é o deus supremo da expansão, da criação de novas formas, uma espécie de força vital que rege a aldeia. Em determinados momentos do livro, ele e outras divindades Mairuns entram nos corpos de algumas figuras importantes da trama, firmando a união entre os planos sagrado e terreno no romance.

O autor faz uso de uma linguagem não convencional, entre a naturalidade da fala coloquial e as exigências da escrita formal, não se preocupando em esclarecer o vocabulário nativo, nem tampouco as muitas expressões religiosas proferidas em latim. Ademais, o que garante um ritmo mais vagaroso à leitura é o complicado quebra-cabeças narrativo proposto no entrelaçar da voz de um narrador onisciente em terceira pessoa com o relato em primeira pessoa de vários personagens. É interessante assinalar a presença do próprio Darcy Ribeiro no capítulo intitulado “Egosum” (“sou eu”, em latim), marcado exatamente no meio da obra, fornecendo informações da época em que o livro foi produzido e referências que serviram para a construção do enredo, além de expor seu olhar como antropólogo, refletindo sobre a impossibilidade de aceitar totalmente a cultura do “outro”, analisando o choque cultural decorrente da necessidade de entendimento do que nos é alheio, diferente.

O maior mérito de Maíra é não vincular um caráter civilizatório no tocante ao retrato ficcional do povo nativo, preferindo penetrar em seu interior. Canalizando a dimensão trágica e poética do “ser índio”, Ribeiro alerta sobre a fragilidade de sua cultura e memória ante a intervenção exterior. Trata-se de um trabalho esplêndido e impactante, de enorme força e beleza incomensurável.

Conversa com Malú Alves Ferreira, que ajudou Darcy Ribeiro a transcrever e datilografar os originais de Maíra, contando sobre sua relação com o escritor e o romance no canal oficial da Editora Global.

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Referências Utilizadas:

RIBEIRO, D. Maíra. São Paulo: Global, 2014.
ISBN: 9788526019355

www.fundar.org.br

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Filmoteca: O Brasil de Darcy Ribeiro (2014). Série dirigida por Ana Maria Magalhães.

A narrativa apresentada nos cinco episódios deste programa é construída a partir de materiais de arquivo histórico, principalmente com entrevistas que o próprio Darcy Ribeiro concedeu ao longo de sua vida, além do depoimento de amigos, familiares, colegas de trabalho e outras personalidades importantes que tiveram contato com as diversas facetas do autor de Maíra. A série acompanha seus primeiros anos em Minas Gerais e a construção de sua brilhante carreira de projeção internacional, examinando sua contribuição para o fomento do Parque Indígena do Xingu e seu período de exílio na América Latina. Trata-se de um admirável produção que faz jus à relevância deste intelectual para a história brasileira durante a segunda metade do século XX.

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2 Comentários

  1. Li este livro há uns anos por conta de um projeto de iniciação científica de uma aluna. Confesso que, na primeira leitura, não entendi muito bem seu propósito. Como, por foça do ofício o reli, comecei a me sentir mais seguro sobre o que dele dizer para orientar a estudante. Não sei, ainda, mesmo depois do trabalho concluído, se gostei ou não. Ficou-me a mesma sensação de quando li Quarup. Um não sei o que dizer… Do mesmo quilate de quando vi o filme “De olhos bem fechados”. Teria que ler uma vez mais para, quem sabe, tirar a dúvida…

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  2. Li Maíra há mais ou menos 30 anos atrás – já não me lembro mais. Ao ler seu post, dei-me conta de que seria interessante reler o livro.

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