#86 Céus e Terra

Título: Céus e Terra

Autor: Franklin Carvalho

Primeira publicação: 2016

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“No céu, somos como Deus, e vemos a gema dentro do ovo.”

O baiano Franklin Carvalho é jornalista, com pós-graduação em Direito, Antropologia e Processo Trabalhista. A formação em áreas tão distantes não o afastou da verve literária, muito menos do apreço pelas narrativas. A aventura na ficção originou o premiado romance Céus e Terra, livro de grande magnetismo que trata de forma bastante lírica o tema da morte, explorando os seus desdobramentos em um típico cenário interiorano do Brasil.

A obra é narrada pelo pequeno Galego, menino que aos doze anos foi decapitado acidentalmente quando saiu junto a outros empregados da fazenda Guarani em socorro do corpo de um cigano crucificado, nos confins da pequena cidade de Araci (curiosamente, mesmo nome da terra natal do autor). Logo nos primeiros parágrafos, ficamos sabendo que um destrambelhado conhecido, apavorado com a imagem do flagelo pregado em uma árvore barriguda, havia permanecido escondido no mato, armado de um facão. Quando escutou barulho de passos e vozes, pensou tratar-se dos responsáveis por tal atrocidade e cortou a cabeça do primeiro que apareceu com um só golpe.

O corpo da criança foi então sepultado junto ao do misterioso desconhecido por determinação e estima do padrinho José de Arimateia. Todavia, seu “fantasma” continuou acompanhando a rotina daqueles com quem sempre conviveu. Mesmo sem entender muito bem a sua nova condição, ele permaneceu “invisível” aos olhos de todos e seguiu ouvindo as conversas na barbearia, assistindo às cerimônias religiosas, testemunhando os encontros e as despedidas daquele povoado, as transformações advindas da presença do circo, até outro incidente fúnebre assolar a região: a morte de um lavrador pai de família que motivará uma profunda investigação ao mesmo tempo íntima e coletiva em relação à passagem do tempo e à própria fugacidade da existência.

O olhar póstumo e a voz onisciente do garoto preso “entre o céu e a terra” nos aproximam da trajetória de inúmeros personagens durante os meses de abril e dezembro de 1974. Aos poucos, a população vai atribuindo alguns milagres à figura daquele moleque tão irrelevante, percebendo-o agora como uma espécie de santo local. Em contraponto, o relato de Galego não apresenta claramente qualquer lamentação ou mínima consideração acerca dos segredos, tragédias e miséria que presencia ou toma conhecimento. O infante defunto acaba evocando alguns influxos extraordinários que transcendem a realidade objetiva e contribuem para a interessante reflexão sobre o peso das tradições e crendices frente à razão.

Apesar de toda a brutalidade e violência daquele humilde ambiente, a inocência infantil do narrador consegue suavizar o desenrolar da trama, enchendo-a de uma beleza vagarosa, construída comedidamente. A própria resignação do personagem ao seu fim prematuro já é um reflexo da leveza de seu discurso. Aliás, a linguagem empregada une densidade e enlevo poético de forma cristalina, sem acarretar uma difícil assimilação, concedendo assim um ritmo interessante à obra – ainda que por vezes traga a impressão de inverossimilhança por se afastar do repertório semântico de uma criança sem educação formal.

O estilo fotográfico de Franklin Carvalho conduz sobriamente o leitor por um microcosmo de múltiplas faces, espelho de um espaço real que revela peculiaridades e idiossincrasias na conexão entre presente e passado. Entretanto, a narrativa vai perdendo um pouco do fôlego inicial por certo distanciamento entre o narrador em primeira pessoa e a ação contada (quase como se ele se tornasse um observador comum), fortalecendo uma quebra na versatilidade do romance, apesar de conservar o esculpir sensorial do que o menino Galego percebe e descobre à sua volta.

No fim, Céus e Terra se destaca como catalizador do fascinante imaginário popular presente no sertão baiano, centrando-se nas diversas tonalidades de um cotidiano sofrido, melancólico, mas sublime em pequenos detalhes.

Entrevista com Franklin Carvalho sobre o processo de escrita do romance no Blog da Editora Record.

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Referências Utilizadas:

CARVALHO, F. Céus e terra. Rio de Janeiro: Record, 2016.
ISBN: 9788501107732

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1 comentário

  1. Parece um romance interessante…

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