#85 Risco No Disco

Título: Risco No Disco

Autor: Ledusha

Primeira publicação: 1981

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Luna Parque

“pele linguagem
vapores do desejo
estar entre o risco
do silêncio e ilhas.”

A paulista Leda Spinardi, mais conhecida como Ledusha, tem sua produção literária identificada com os escritores da geração mimeógrafo dos anos 1970, embora ela afirme ter ficado oficialmente “à margem dos marginais” dos quais era contemporânea. De fato, sua poesia de acento pop e simulada feição de leveza, muito vinculada em colunas de jornal, traz ecos daquele movimento, mas também revela traços de uma fase de transição. Publicado de forma independente com a ajuda de amigos como Chico Alvim, Ana Cristina Cesar, Pedro Lage e Eudoro Augusto, Risco no Disco marcou a estreia da autora em livro, uma edição em pequeno formato que evidenciou a força singular e criatividade profana desta figura de grande ressonância nas letras brasileiras recentes.

Os versos da coletânea quase sempre enveredam pelo tom despretensioso da crônica, descrevendo alguns tipos humanos e situações cotidianas à semelhança de anotações momentâneas. As composições são em totalidade curtas, de leitura rápida, urgente, mas não por isso resguardam um caráter frívolo. Em sua maioria, os registros circunstanciais se fundem a estados da alma do eu-lírico (em tese feminino), formando instantes ora de reflexão, ora de encantamento. A linguagem utilizada traz tanto elementos coloquiais quanto eruditos, também evocando alguns estrangeirismos.

Em algumas passagens, a relação com vida da escritora é latente. E ela colocou mesmo muito de si até na composição gráfica da obra, cheia de recortes fotográficos ao que tudo indica escolhidos a dedo (desde a capa, mostrando os atores Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg em cena do filme ‘Acossado’, do diretor Jean-Luc Godard, lançado em 1960, até o encontro no miolo com uma imagem dos poetas Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e Murilo Mendes). O seu vínculo pessoal com os poemas se aprofunda na medida em que expõem experiencias com namoros, família, saudade, solidão, independência, vícios e o respectivo fazer poético, sempre com uma pitada agridoce entre o delicado e o irônico, como em “Felicidade”.

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Felicidade

nada como namorar
um poeta marginal
incendiado
nada
como um mingau de maizena
empelotado
de tanto amor acumulado
uma casinha em botafogo
um quarto uma eletrola
uma cartola
&
depois da praia sonhar
que a bossanova voltou
pra ficar
eu você joão
girando na vitrola sem parar.

(LEDUSHA, 2016, p. 21)

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As praias e bairros cariocas, a rotina um pouco melancólica e o amor juvenil também são elementos recorrentes no volume. A mistura de referências abrange várias áreas, enumerando intertextos com outras formas de arte, misturando baixa e alta cultura com esperteza e humor ácido. Destaca-se, além do contato com o cinema e a própria literatura, a evidente importância da música no compêndio, desde o seu título, que aponta simbolicamente para o decifrar de seus versos, equiparando o texto a um disco riscado de tanto tocar, com o leitor podendo prestar atenção nas falhas (os mistérios a serem decifrados ao longo das composições) ou no som como um todo.

Aliás, é interessante destacar que Ledusha já colaborou com grandes nomes do nosso cancioneiro, como Francis Hime, Bebel Gilberto, Fernanda Porto e Lobão. Todavia, parece ter sido o elo com Cazuza o mais célebre, visto que ele muito contribuiu para a difusão do que talvez seja o seu verso mais famoso, estampado em camisas até hoje: “Prefiro toddy ao tédio.”, do poema monóstico “New-maiacovski”. Trata-se de uma adaptação dos versos de “A Sierguéi Iessiênin”, do poeta russo Vladimir Maiakovski que, por sua vez, escreveu tal composição critica em resposta ao poema suicida do maior expoente do imaginismo moscovita: “Melhor / morrer de vodca / que de tédio!” (em tradução de Haroldo de Campos). A autora faz a transposição da bebida alcoólica para a famosa marca de achocolatado, jogando com o seu inexistente poder letal em comparação à aguardente.

Depois do lançamento em curta tiragem, boa parte dos poemas presentes no livro circularam de forma avulsa em diversas antologias, cativando, impactando e influenciando uma expressiva gama de jovens entusiastas que viram nos versos de Ledusha a abertura para experimentar a verve literária com intensa liberdade estética.

*Os versos que compõem a citação de cabeçalho são do poema sem título que abre o livro.

> Risco no Disco foi o meu escolhido da categoria Livro de Poesia proposta para o mês de Fevereiro no #DesafioLivrosBR.

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Referências Utilizadas:

LEDUSHA. Risco no disco. São Paulo: Luna Parque, 2016.
ISBN: 9788569476115

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