#82 O Matador

Título: O Matador

Autor: Patrícia Melo

Primeira publicação: 1995

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Companhia das Letras

“Deus só pensa no homem quando tem que decidir como é que vai destruí-lo.”

A paulista Patrícia Melo já é um dos maiores nomes de nossa literatura policial. Tendo experiência na produção de peças para o teatro e como roteirista de TV e cinema, a premiada escritora ficou conhecida pelas narrativas centradas na violência urbana. Seu romance O Matador analisa a mente de um homem comum da periferia que, por circunstâncias adversas, se transforma em um brutal criminoso.

O livro é narrado por Máiquel, um jovem morador do subúrbio paulistano e vendedor de carros usados que revela ter pintado os cabelos em consequência de uma aposta de futebol: havia colocado fé no time que saiu perdedor. Todavia, por certo descuido, a tinta ficou mais tempo do que deveria e assumiu um tom bem mais claro. Agora loiro, ele se sentiu uma nova pessoa, como se a nova cor das madeixas tivesse iluminado sua existência. No mesmo dia em que teve a mudança de visual, conheceu a vendedora Cledir em uma loja de departamentos, por quem logo se apaixonou. Sem dinheiro para um programa romântico, ele decidiu levá-la após o expediente ao bar do Gonzaga, onde mostraria o resultado do desafio aos amigos, que poderiam lhe arranjar alguma quantia emprestada. Todos se demonstram surpresos com a aparência do protagonista, que também apresentou a moça como sua namorada. No entanto, Suel, um sujeito com quem nunca trocou muitas palavras, pareceu insultá-lo ao achar engraçado aquele aspecto de “gringo” do tingimento, fazendo-o propor um duelo de honra para o dia seguinte.

Atormentado pelo medo e arrependido de ter marcado uma querela por motivo tão estúpido, Máiquel então decidiu ir atrás do rival para tentar uma negociação. Não o encontrando, ele foi ao local marcado munido de uma espingarda para o caso de precisar se defender. Chegando lá, resolveu levar a sério a desavença e acabou atirando em Suel pelas costas. Aquela morte, entretanto, foi bem recebida por toda a vizinhança, que passou a admirar e respeitar o assassino, não abrindo espaço para o remorso. Com isso, a primeira vítima caracterizou o estopim para a sucessão de eventos que levaram o personagem principal a se tornar o “Matador da Zona Sul”, um improvável herói homicida. O que acontecera por impulso acabou evoluindo para uma espécie de profissão sem escrúpulos.

A trama vai revelando um cenário desumano, movido a suborno, conspirações e hostilidade. Lugar em que convivem aristocratas sádicos e pobres indivíduos que praticam delitos para sobreviver a um sistema que os menospreza. Além desta irônica discrepância social e moral, a autora ainda joga com a naturalidade do massacre ante a impunidade jurídica e o “senso de justiça” público. A população aqui retratada, com seu pensamento higienista de que “bandido bom, é bandido morto” (seja ele de qualquer escala), insiste em alimentar a agressividade e a hipocrisia.

Dentre outras figuras que aparecem no enredo, Érica toma grande importância. A companheira de Suel, que presenciou o seu assassinato, se enfia na casa do narrador querendo que ele a sustente, já que não tinha mais ninguém com quem contar. A personalidade curiosa da garota vai conquistando o protagonista, com a atração sexual que surgiu entre os dois se convertendo aos poucos em carinho. O complicado triângulo amoroso com Cledir faz com que Máiquel comece a pensar mais em suas escolhas e em seu destino. Ademais, a jovem ainda é a responsável por inserir consideráveis reflexões no escrito ao se envolver com a causa religiosa e o sentimento de culpa. A contestação ao papel do divino na vida dos marginalizados, inclusive, é um dos pontos altos no quadro digressivo do personagem principal. Já o porco de estimação Gorba aponta um lado afável e sensível de alguém confuso entre o certo e o errado, perdido em uma personalidade transitória.

Com uma prosa concisa e vertiginosa, de ritmo ágil e enorme magnetismo, Patrícia Melo conseguiu lançar ácido olhar acerca de uma dura realidade ainda bastante presente no Brasil. Utilizando-se de uma linguagem crua, demonstra intenso controle sobre o texto, que não perde sua inspiração cômica e abordagem sensível, embora seja dominado pelo trágico. Entre uma incômoda dor de dente, as doses de cocaína e o constante chamado para matar, Máiquel é corrompido pelo caos que o cerca, sofrendo profundas sequelas que abalam e invadem o leitor a cada página.

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Referências Utilizadas:

MELO, P. O matador. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
ISBN: 9788571644977

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Filmoteca: O Homem do Ano (2003). Filme dirigido por José Henrique Fonseca, com Murilo Benício, Natália Lage, Cláudia Abreu, Jorge Doria, Mariana Ximenes, José Wilker, Lázaro Ramos, Wagner Moura e Paulo César Peréio.

O Matador foi adaptado para o cinema pelo grande Rubem Fonseca, em produção dirigida por seu filho, José Henrique Fonseca. O premiado filme teve a trilha sonora assinada por Dado Villa-Lobos e contou com um elenco estelar, destacando-se o ótimo trabalho de Murilo Benício no papel de Máiquel e de Natália Lage na pele de Érica. Trata-se de um thriller febril, bastante fiel ao desenrolar da trama escrita por Patrícia Melo.

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Musicoteca: Tim Maia (1971). Disco de Tim Maia.

Indico o segundo álbum do Pai da Soul Music Brasileira para acompanhar a leitura do livro. O próprio Máiquel menciona as canções de Tim Maia como espécies de válvulas de escape para homens que não conseguem controlar seus próprios pensamentos. Apesar de o baile funk também estar bem presente na narrativa, o som do “síndico” parece ecoar em relevantes passagens que evocam certa ternura no protagonista. O disco homônimo de 1971 traz grandes sucessos da carreira de Tim, como “Você”, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, “Não Vou Ficar” e “A Festa de Santo Reis”.

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1 comentário

  1. Jamais li uma linha escrita por esta senhora. Sinto uma antipatia visceral e gratuita por ela. Explico-me. O primeiro livro que li de Carles Kiefer (escritor, muito bom, gaúcho) foi “Valsa para Bruno Stein”. Gostei do livro porque gostei dele. Havia uma foto sua num jornal literário (igualmente muito bom, coisa raríssima hoje em dia), ao lado da capa do livro. Comprei porque o autor era bonito. Não me arrependo. Isso se repetiu inúmeras outras vezes, não a partir apenas do critério da beleza do(a) autor(a), mas do ímpeto simpático que sua imagem me causava. Particularmente, devo dizer que não errei em nenhuma escolha até hoje. No caso dessa senhora, a antipatia se deu assim, na primeira visada. Resolvi então não ler nada que ela escreve. Preconceito? Pode ser! Não me importo. Sei que meus argumentos não são critérios “acadêmicos” para sustentar possíveis críticas. Ms não me interessa mais lê-la. Não como me interessa reler Ana Miranda…Obrigado por sua postagem!

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