Literafilia: Sobre as Paternidades de Machado de Assis

O fascínio pelo escritor Machado de Assis persiste de maneira impressionante, fato manifestado na intensa produção impressa que o têm como centro das atenções. Não contestando sua enorme habilidade artística e obliquidade de estilo, é certo que a posição historicamente construída de “maior figura” da literatura nacional muito contribuiu para esta conjuntura de febril estima e interesse. Ao mesmo tempo em que se alimentam teorias sobre aspectos particulares do passado do autor, surgem novos olhares sobre a influência de sua trajetória pessoal nas obras que publicou, aquecendo o meio acadêmico e a própria criação ficcional brasileira. Todavia, junto a descobertas importantes para a crítica, também são estimuladas diversas hipóteses de foro íntimo, como a que abrange a ocultação de um suposto filho fora do casamento. Tal pressuposto chegou a ser apontado como forma de desrespeito à sua memória por admiradores mais rígidos, ressaltando certa “sacralização” atribuída ao nome deste ilustre homem de nossas letras.

Antes de tudo, é interessante destacar que muito se tem discutido a respeito do cânone literário, envolvendo a objeção acerca da exclusão de títulos e autores que escapavam aos padrões ideológicos e estéticos que ele solidificava e, consequentemente, a contestação do discurso das “autoridades” que o elegeram na historiografia oficial. Neste sentido, o grande deslumbramento pelo compor sinuoso do Bruxo do Cosme Velho pode sim diminuir daqui para frente, mas a curiosidade em torno de sua vida reservada tende a permanecer, visto que o interesse sórdido pela esfera privada de personalidades consagradas sempre alimentou a fantasia de muitos.

A pesquisa em arquivos como a Biblioteca Nacional, principalmente no suporte periódico, já trouxe à tona importantes informações sobre a carreira de Machado, como os recentes achados do professor Wilton José Marques, da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar: duas notas (datadas de 20 de agosto de 1858 e 19 de janeiro de 1860) e um anúncio (de 20 de fevereiro de 1860) antecipando o lançamento do que seria a primeira “coleção de versos” do escritor, intitulada Livro dos Vinte Anos, projeto que parece ter sido abortado antes de vir a prelo, além da composição com ares ufanistas “O Grito do Ipiranga” (datado de 9 de setembro de 1856), assinada com o nome completo de um ainda jovem entusiasta literário – tesouros encontrados nos jornais Correio Mercantil e Correio da Tarde sem qualquer precedente em biografias do mestre.

A exposição de documentos antigos que citam o célebre autor, entretanto, também já acarretou más interpretações e originaram furdunço. Em agosto de 1999, com a publicação de algumas crônicas do escritor Carlos Heitor Cony na Folha de S. Paulo, à época do centenário do romance Dom Casmurro, a discussão em torno do elemento confessional nos escritos machadianos foi reacendida. Isso porque ele mencionou dados de uma fonte até então esquecida, o “Diário Secreto” de Humberto de Campos, compêndio de crônicas elaboradas a partir de 1915. Este caderno de confissões registrou comentários mordazes sobre vários conhecidos do início do século XX, incluindo Machado de Assis. O registro, trancado nos cofres da Academia Brasileira de Letras – ABL por mais de uma década após o falecimento de Campos, veio à tona duas vezes antes das novas reedições: a primeira, em fascículos, na revista O Cruzeiro, a partir de 1950; a segunda, editada em livro quatro anos mais tarde, com dois volumes.

Cony havia participado naquele ano como testemunha de acusação em um júri promovido pela Folha sobre o suposto adultério de Capitu, com o intuito de mostrar a força narrativa do Bruxo: cem anos após a publicação de seu romance, ele era discutido num auditório lotado, em sessão presidida por um ministro do Supremo Tribunal Federal (Sepúlveda Pertence). O autor retomou a especulação levantada por Humberto de Campos, indicando que a traição do livro seria baseada em uma experiência vivida por Machado, o que resolveria o principal – e mais cansativo – mistério de nossa literatura. Em fragmento claramente pilhérico, datado de 1919, o jornalista carioca apontava as semelhanças fisionômicas e o apreço paternal entre Machado de Assis e determinado colega de academia, a quem se refere com as iniciais “M. de A.”. Este sujeito seria filho de um “J. de A.”, que não sofreria de epilepsia, mal hereditário que teria levado o admirado escritor fluminense à morte. Em uma das visitas ao consultório do médico Afonso Mac-Dowell, este lhe confirma que o tal M. sofreria do mesmo mal dos nervos, o que o fez conjecturar sobre o que teria de verdade na famosa trama de amor clandestino, em que um amigo trai o outro com sua mulher, culminando no nascimento de um possível fruto secreto.

Humberto de Campos presumivelmente referia-se a Mário de Alencar, filho de José de Alencar e Georgiana Augusta Cochrane que, segundo o seu pensamento, seria na realidade rebento de um caso extraconjugal daquela senhora com Machado, de quem também era amigo, à semelhança do enredo dos personagens Ezequiel, Bentinho, Capitu e Escobar. Esta informação, que havia passado tanto tempo despercebida, nunca foi comprovada, mesmo reconhecendo-se que Mário foi mesmo epilético e que sua relação com o principal fundador da ABL de fato implicava em grande afeto. Acontece que, na época em que o registro foi retomado por Carlos Heitor Cony, a revista Veja aproveitou-se vergonhosamente de seus textos e tentou criar um grande escândalo com a intriga, à semelhança das fofocas e sensacionalismos envolvendo celebridades, abrasando a polêmica em volta do caráter de um sujeito que muito primava pela discrição.

O mito da paternidade oculta de Machado de Assis ou sua conexão com filhos hipotéticos acabou tomando espaço em algumas interessantes publicações que de alguma maneira transformam o velho Bruxo em figura de ficção.

                                    

O romance Machado, do mineiro Silviano Santiago, centra-se nos últimos quatro anos do ilustre autor, abordando questões interessantes de um período relativamente desprezado por estudiosos e biógrafos. A partir de uma extensa pesquisa, ele traça um significativo retrato da cena literária nacional do início do século XX, destacando o convívio daquele que dá título ao livro com algumas personalidades de nossa história política e intelectual. O protagonista é apresentado em luto pela morte da companheira, Carolina Augusta, solitário e sofrendo com os problemas de saúde. Além do convívio com as duas criadas que manteve em sua residência, ele recebe as visitas do já referido Mario de Alencar, com quem cultiva uma terna amizade. A descrição do vínculo se apoia principalmente nas cartas trocadas entre os dois que ilustram o volume. Mesmo que Santiago evoque algumas lacunas e estranhas coincidências pertinentes à misteriosa filiação, ele infere que José de Alencar teria mesmo sido o pai biológico do jovem, enquanto Machado de Assis fazia o papel de seu pai espiritual. O impresso mostra a relação entre um mentor e seu pupilo, parecendo ser o mais perto que poderíamos chegar da realidade, ainda que a perspectiva contenha detalhes fictícios. A melancolia de Machado ainda é acompanhada por um velho narrador-autor também perdido na intranquilidade dos momentos derradeiros, traçando intrigantes ligações com a figura do Bruxo. Podemos perceber, desde a primeira página, um profundo respeito e apreço de Silviano Santiago pelo escritor fluminense, envolvendo grande seriedade e sensibilidade na reconstrução de cenários e episódios reais de sua vida, concebendo uma verdadeira carta de amor ao seu legado.

O paraense Haroldo Maranhão já havia se debruçado sobre a velhice de Machado de Assis, realizando um complexo pastiche biobibliográfico. Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis segue uma narrativa deveras fragmentada e digressiva que mistura figuras históricas a elementos de diferentes escritos machadianos. A paródia-homenagem não só tenta retomar o tom galhofeiro presente especialmente em Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas o arranjo e personagens de Memorial de Aires, também reproduzindo e costurando excertos de crônicas, poemas, entre outros registros. O capítulo LI, intitulado “O Último Abraço”, recria um episódio mostrado em uma crônica do carioca Euclides da Cunha, com nome de “A Última Visita” e datada de 30 de setembro de 1908, que trata da despedida realizada por diversas personalidades a Machado em seu leito de morte. Nesta passagem, um jovem admirador do autor o visita em seus últimos momentos de vida. Machado aqui assume a identidade do Conselheiro Aires e comove-se com a devoção do rapaz, comparando-o à sua imagem insegura de mais novo. Ele chega a entrever nele o filho que não teve, “que desejaria ter tido” – reformulando a conhecida última frase de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. O tal moço misterioso seria o também escritor carioca Astrojildo Pereira, mais conhecido como fundador do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que ainda se dedicou ao estudo crítico da produção de Machado de Assis. Sua veneração pelo mestre é ressaltada na atitude de ajoelhar-se aos pés da cama, com o autor demonstrando afetividade pelo discípulo, mesmo sem aparentemente conhecê-lo. Este quadro evidencia novamente a aptidão para uma paternidade ligada à transmissão de conhecimento, além de assinalar que a consideração de leitores e estudiosos os traduziria em efetivos filhos do velho Bruxo.

Em A Filha do Escritor, o carioca Gustavo Bernardo também fundiu aspectos de notáveis textos de Machado com conjecturas e suspeitas sobre sua vida. O livro segue o olhar do psiquiatra Joaquim, que é surpreendido pela chegada de uma bela mulher chamada Lívia em sua clínica para doentes mentais. Ela não surge sozinha, mas acompanhada de Luís, um filho imaginário de seis anos. Declara ser filha de Machado de Assis, morto a cerca de um século no que concerne o momento da narrativa, e aloja-se naquele local à espera de seu encontro, mesmo nunca tendo o conhecido e só se comunicado com ele por escrito. O narrador passa a investigar a produção do ilustre autor fluminense a fim de encontrar pistas para tratar a aparente “esquizofrenia ficcional” da jovem enquanto um engenhoso arranjo metaficcional vai se revelando nas entrelinhas do romance. Jogando com as oposições entre suspeita e certeza, loucura e sanidade, passado e presente, Bernardo resgata os capítulos curtos, a “coloquialidade erudita”, o tom “joco-sério”, a interpelação ao leitor de um narrador em primeira pessoa, elementos de estilo correntes da prosa machadiana. As interessantes equivalências traçadas no decorrer da trama, como o nome da personagem feminina principal ser o mesmo da protagonista de Ressurreição, romance de estreia do Bruxo do Cosme Velho, e toda a ação se passar em um sanatório bastante semelhante à Casa Verde do conto O Alienista, acabam por provocar uma incrível reflexão acerca da gênese literária: os escritores, indivíduos de existência concreta, podem assumir a paternidade de seres criados no papel, assim como pessoas reais podem adotar figuras idealizadas como pais, com a arte escrita podendo acarretar certa filiação enobrecedora com seus apreciadores.

Finalmente, a divertida novela O Filho de Machado de Assis, do mineiro Luiz Vilela, explora a temática que o dá título de forma irônica através de uma longa conversa entre um professor ranheta e seu ex-aluno. O velho Simão Serapião, em pesquisas realizadas na papelada antiga da Biblioteca Nacional, descobre uma referência confirmando que Machado teve mesmo um filho, aparentemente concebido antes de seu casamento com a amada Carolina – refutando a ideia de adultério em detrimento de uma “aventura de mocidade”. A ansiedade o leva a convidar o jovem Mac, apelido de Telêmaco, para visita-lo em seu sobradinho, a fim de expor a novidade. Todavia, o estudioso não se permite contar tudo ao pupilo, freando o entusiasmado discurso nos momentos que exigiam detalhes. Apesar de confiar no rapaz, ele explica que quer proteger aquela revelação até conseguir mais comprovações e assim poder levá-la a público. O diálogo acaba tomando outras vias, com os dois discorrendo sobre a diferença entre verdade e rumor, explorando pormenores ocultos da vida privada de outros notáveis escritores e supondo sobre o futuro da literatura em um país ainda desprovido de grande cultura.

A utilização da relação mentor-aprendiz – inclusive com o nome do personagem-narrador aludindo ao filho de Odisseu/Ulisses da Odisseia, de Homero, educando que se tornou símbolo do valor da aprendizagem na civilização ocidental – toma destaque na construção da intriga. Ademais, percebemos certo nível de subversão por meio do contraste entre o professor nem um pouco politicamente correto, de falar escrachado e até ultrajante, e o aluno que constantemente se patrulha para evitar proferir expressões que poderiam ser tomadas de forma errada ante nossa contemporânea conjuntura social. O exagero contido nessas características, um claro artifício de humor, parece ajudar Vilela na equivalência de seu Simão com o Simão Bacamarte de O Alienista no tocante ao comportamento obsessivo e à duvidosa sanidade, enquanto em nada atrapalha na consistência da personalidade de Mac, verossímil no seu ar despreocupado e nas suas abstrações juvenis, frequentemente se distraindo com bobagens, como o som do estalo de dedos do professor. Em certa passagem, a paranoia com a recuperação da linhagem do escritor faz o velho senhor pensar ter encontrado por acaso um motorista de táxi parecidíssimo com ele e que poderia ser um de seus bisnetos ou tataranetos.

A trama leve e de linguagem precisa, situada nas vésperas do centenário de falecimento de Machado de Assis, levanta inspiradas considerações ao brincar de desmontar significados. Será que o achado sobre a descendência do Bruxo surtiria mesmo impacto nas nossas letras, jogando por terra uma história já legitimada? Tal informação modificaria efetivamente a interpretação que temos sobre a produção machadiana? A sua posição de importância nos livros didáticos, seria de fato revisada? A sua boa recepção pelos leitores e críticos seria profundamente alterada? Essas questões surgem do zigue-zague mental do professor Simão, envolvendo comentários pertinentes à crítica refinada projetada por Luiz Vilela, que menciona os boatos envolvendo a sexualidade e o hipotético sentimento racista do escritor fluminense, além de trazer à tona o saber popular sobre a sua figura, que muitas vezes contraria os relatos oficiais ou confunde suas informações. A força da palavra impressa também entra em pauta, indagando-se sobre as muitas faces de tudo o que ela estabelece como absoluto, visto que não podemos conferir seu nível de veracidade: talvez, Tiradentes nem tenha morrido na forca como nos registraram até agora, assim como Machado pode não ter sido exatamente o homem virtuoso que tantos afirmam. Neste sentido, a narrativa ainda indaga sobre o culto exacerbado à imagem do Bruxo do Cosme Velho, que Simão chama de “machadolatria”, assim como refuta os excessos do mundo acadêmico, que insiste em nutrir toda esta conjuntura.

Em conclusão, devemos compreender que ainda surgirão muitos dados de ordem biográfica que fomentarão a releitura dos escritos machadianos ou contribuirão para um melhor entendimento de sua trajetória, suas convicções e atitudes. A pesquisa historiográfica tem de ser estimulada, mesmo com os seus resultados não atingindo enorme relevância para muitos que nem chegaram a ler literatura. Todavia, a consideração pelo contexto de produção, mesmo sendo deveras importante, não traduz todo o conteúdo dos impressos. Sendo assim, as fofocas de bastidor não devem tomar o espaço das obras ou estigmatizar seus autores, assim como o ensino de nossas letras não deve implicar no engrandecimento de determinados nomes em prejuízo de outros, visto que esse fator gera a reverência e pode suscitar em comparações injustas ou comprometimento do olhar crítico.

O texto dinâmico de Vilela mostra que especular sobre a vida e a família de Machado de Assis continua sendo algo interessante principalmente aos fãs do seu trabalho que, a exemplo dos autores citados anteriormente, podem espelhar-se em seu compor e tornarem-se seus “filhos de inspiração” ao mesmo tempo em que se tornam pais de suas respectivas criações, festejando-o e perpetuando seu espólio em novas publicações. Somos livres para nos apaixonar pela produção do Bruxo, mas às vezes se faz necessário uma cisão entre o apreço e a avaliação, considerando que ele foi composto essencialmente de humanidade.

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Referências Utilizadas:

VILELA, L. O filho de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2016.
ISBN: 9788501078865

SANTIAGO, S. Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
ISBN: 9788535928365

MARANHÃO, H. Memorial do fim: A morte de Machado de Assis. São Paulo: Marco Zero, 1991.
ISBN: 8527901250

BERNARDO, G. A filha do escritor. São Paulo: Agir, 2008.
ISBN: 9788522009718

PEREIRA, L. M. Machado de Assis: Estudo crítico e biográfico. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
ISBN: 9788531905216

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4 Comentários

  1. Sobre o gênio, só conhecia algumas das suas obras, nada sobre a polêmica que girou em torno da sua vida e morte. Muito interessante e bem escrito. Obrigado! Aproveito para desejar que a passagem desse para o novo ano seja de grande alegria e expectativas positivas.
    Feliz ano novo!

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  2. Excelente artigo! Parabéns! Para mim, trazer Machado de Assis de volta à sua humanidade, subtraída pela machadolatria, não o diminui, apenas o mostra como de fato era: humano como todos nós – sem que isso diminua sua obra ou a importância dela.

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    • Isso, Júlio! Sou muito fã do Machado e sei de sua enorme importância, mas tento não o estimar demais. A “sacralização” que às vezes vinculamos ao nome de alguns escritores pode acarretar o problema de nunca lermos suas obras com criticidade. Acredito na irrelevância de certos detalhes da intimidade desses autores, mas o exercício de imaginá-los não deixa de ser algo interessante – isso não fere o seu legado literário, ao contrário do que muitos admiradores mais fervorosos acreditam. Grande abraço e muito obrigado pela visita!

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