#80 O Feijão e o Sonho

Título: O Feijão e o Sonho

Autor: Orígenes Lessa

Primeira publicação: 1938

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Global

“Verso não enche barriga.”

O paulista Orígenes Lessa foi publicitário, tradutor e jornalista em diversos veículos de comunicação, mas foi com a literatura que adquiriu maior notoriedade. Conhecido por uma prosa leve, o escritor trouxe a lume histórias dotadas de profundo lirismo, explorando a humanidade de figuras do cotidiano. O Feijão e o Sonho marca sua estreia no gênero romance, alcançando sucesso, no momento de seu lançamento, principalmente entre os jovens e as pessoas sem grandes posses. Os dilemas de um casal aparentemente incompatível também conquistaram a crítica e acabaram sendo adaptados para o rádio e a televisão, incluindo o autor entre os mais expressivos do cenário brasileiro no século XX.

A narrativa em terceira pessoa centra-se na relação antagônica entre o idealista Juca Campos Lara e sua esposa, a trabalhadora Maria Rosa, dois consortes antagônicos, mas que permaneciam estreitamente unidos. Ela era comprometida com o amparo da família, enquanto ele era absorvido por mirabolantes projetos intelectuais, não conseguindo ajudar a mulher com os ganhos de professor e escritor, mesmo já tendo alguns livros lançados e feito carreira nos jornalecos da cidade interiorana em que residiam. As dívidas envolvendo o aluguel, a básica alimentação e o cuidado com a saúde dos filhos Irene, Anita e João eram contornadas a muito custo, principalmente por meio dos esforços da senhora que, mesmo muito se preocupando com as atitudes do marido, remediava aquele difícil convívio se amparando no bom senso.

A construção do contraste entre esses dois personagens centrais é deveras interessante. Com o passar dos anos, Maria foi transformando o encanto pelo lado poético de Campos Lara em verdadeira aversão à literatura, que insistia em lhe criar problemas, por vezes questionando o casamento com aquele “coisa-à-toa” entregue a abstrações estéticas, que não a ajudava nem na criação dos rebentos. Juca, por sua vez, cultivava gostos requintados e parecia viver totalmente à parte da própria miséria, negligenciando suas atividades na escola que tentava tocar para frente e não percebendo o mau julgamento dos outros moradores do povoado à sua “loucura artística”, principalmente ao apenas ensinar versos “inúteis” aos poucos alunos que mantinha. Ao passo que a mulher enfrentava um intenso infortúnio, o homem continuava a tentar realizar-se como autor, se dando por feliz e recompensado com os artigos elogiosos que recebia à sua obra, contribuindo para a imprensa local mais pelo gosto do que pela necessidade de retorno financeiro. A comunicação entre os dois, inclusive, aparenta não existir em diversos trechos. Todavia, ainda que sobrecarregada, ela conservava-se ao lado do companheiro, projetando o melhor futuro para seus pequenos em ocupações de real compensação econômica.

Junto ao desenrolar do enredo, o protagonista vai sendo vencido pelas dificuldades, sendo obrigado a abdicar de seu sonho pelo feijão diário, chegando a vender uma composição como jingle ao açougueiro para sanar despesas. Ademais, é a descoberta de que as novas gerações estariam interessadas em outras formas de trato com as letras que parece fazê-lo indagar-se sobre a dedicação a um desejo ou aspiração pessoal.

O autor utiliza-se de uma trama bem humorada e à primeira vista simples para discutir o lugar da arte frente à própria existência. Com linguagem despojada e capítulos ágeis, o livro cativa e prende a atenção dos leitores, fazendo-os refletir sobre o constante embate entre o pragmático e o quimérico. Lessa aparentemente tenta inferir que tal relação na verdade deve ser encarada como de complemento e não de inteira oposição, visto que precisamos tanto de estar com a cabeça nas nuvens como de estar com os pés no chão. Maria Rosa não é construída como uma inimiga, mas como outra face da vida de Juca, lado esse que não consegue anular as cores da fantasia a que se apega. Contudo, é justamente o egoísmo a irresponsabilidade frente à manutenção familiar que o transformam em uma figura palpável, fugindo a uma elaboração romântica.

Outras figuras tomam destaque no livro, como o barbeiro “Oficial” do vilarejo e o trapaceiro Chico Matraca, que contribuem para um pertinente retrato da condição social subdesenvolvida de nosso país de então, com muitas regiões ainda tolhidas de mentalidade conservadora e provinciana. Muitas passagens, inclusive, como a que descreve um parto e as que insinuam relações condenáveis entre um padre e crianças paroquianas, constituem fortes indicações da sagacidade do impresso em assimilar elementos da época em que saiu do prelo.

O inteligente texto de Orígenes Lessa amplia o conflito entre o anseio e a lida de forma sensível, garantindo a permanência de seus personagens na memória afetiva dos leitores.

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Referências Utilizadas:

LESSA, O. O feijão e o sonho. São Paulo: Global, 2012.
ISBN: 9788526016873

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Musicoteca: Cartola (1976). Disco de Cartola.

Deixo a indicação deste clássico álbum de um dos maiores poetas de nossa MPB para acompanhar a leitura do livro de Orígenes Lessa. O disco se relaciona com a história de Juca e Maria Rosa já pela capa, mostrando o mestre Cartola ao lado da esposa Dona Zica na janela de sua humilde casa. Muitas composições presentes nesse registro seguem devaneios e reflexões do ilustre sambista sobre o que a vida sofrida lhe mostrara até ali, também abarcando canções voltadas aos pequenos prazeres cotidianos e à realização artística.

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7 Comentários

  1. Jorge Sasgarante

     /  19 de dezembro de 2016

    sensacional :) \o/

    Resposta
    • Muito obrigado, amigo! Espero que tenha te instigado a ler o Lessa! Grande abraço!

      Resposta
      • Jorge Sasgarante

         /  24 de dezembro de 2016

        Total pow :) suas resenhas são sensacionais :) grande abraço! boas festas e literalmente feliz 2017 :) o/

      • Boas festas também, Jorge! Um 2017 cheio de leituras para nós! :)
        Fique atento que o blog reserva algumas surpresas para o ano novo! Abração!

      • Jorge Sasgarante

         /  28 de dezembro de 2016

        auee!! valeu manolo! :) boas festas ae!! um 2017 sensacional para todos nós!! Abração!! seu site é um dos mais massas que conheci esse ano :) resenhas sensacionais, texto sensacional. tudo de massa ae manolo Viana! o/

  2. Excelente resenha. Inspiradora para leitura desta obra de Lessa. Obrigado.

    Resposta

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