#78 Desmundo

Título: Desmundo

Autor: Ana Miranda

Primeira publicação: 1996

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Companhia das Letras

Este mundo é um desterro e nós, estrangeiros.”

A cearense Ana Miranda tem o passado como principal cerne de sua literatura. Bastante reconhecida tanto em esfera nacional quanto internacionalmente, ela realiza na maioria de suas obras a reconstrução ficcional de alguma época, exercitando o preencher de lacunas da história sem ignorar costumes, acontecimentos e personagens reais. Esse trabalho de elaboração pode ser conferido em Desmundo, romance que toma como ponto de partida o episódio ocorrido em meados do século XVI, em que algumas órfãs foram enviadas de Portugal para se casarem com os primeiros colonizadores do Brasil.

Tal projeto jesuítico caracterizou uma tentativa de impedir a miscigenação nas primitivas terras descobertas, visto que as jovens, criadas em conventos, muitas desejando seguir a atividade religiosa, firmariam alianças cristãs com os portugueses que aqui habitavam. É através do triste relato de Oribela, uma dessas moças, que entramos em contato com um cenário ainda muito hostil e violento. Ela resiste à difícil travessia do oceano Atlântico alimentando sonhos e fantasias de um futuro feliz, até a chegada das caravelas aos trópicos, onde amargou a dor da opressão com veemência. Pisando naquele chão distante, ela foi exposta, junto às outras apavoradas mancebas, à escolha dos colonos. Acabou desposando o rude Francisco de Albuquerque, que a levou para morar em seu engenho de açúcar.

Na isolada fazenda, a narradora se viu inserida num obscuro seio familiar, formado por dona Branca e Viliganda, a velha mãe e a irmã com problemas mentais do novo marido. Tal bruto homem desconhecido aparentemente respeitava o intuito de torná-la a senhora da casa e mãe de seus “filhos abençoados de alvura na pele”. A protagonista, contudo, o repudiava e logo se pôs a tentar fugir daquele lugar, iniciando uma dura trajetória marcada por constante medo e enorme sofrimento.

O livro – dividido em dez partes que progressivamente demarcam as diferentes fases das desventuras de Oribela – vai tomando imprevistas direções e evidenciando o papel da mulher no cruel período quinhentista. Ana Miranda utiliza-se da fala interrompida ligada ao feminino daquele tempo para desenvolver a narrativa, que transcorre através de blocos de escrito sem clara continuidade, como pensamentos secretamente confidenciados ao leitor em diferentes momentos. Nesta perspectiva, a personagem principal, emudecida pelo contexto em que estava inserida, vai se revelando justamente através da palavra, excedendo os limites do fato histórico.

A mentalidade ligada à sociedade patriarcal de então submetia as mulheres a uma intensa normatização comportamental em relação à Igreja e aos homens, envolvendo sua educação e sexualidade em privatização de qualquer poder ou saber ameaçador às suas funções domésticas ou de procriação. O que realmente parecia pertencer a elas era o seu interior abalado por ambiguidades, crenças e questionamentos. Em Desmundo, somos apresentados ao cosmo particular de uma dessas vítimas da “superioridade masculina” de outrora, em que muitas vezes o discurso religioso parece se chocar com a não aceitação em relação às imposições para o “papel feminino”. Este auto-estranhamento se faz mais evidente na medida em que a protagonista vai descobrindo o próprio desejo em sensuais visões noturnas que provocam pertinentes reflexões acerca das oposições entre virtude e pecado, liberdade e aprisionamento. Dando voz aos pensamentos “impuros” e paixões que a constituem, Oribela consegue se rebelar contra o regulamento de seu corpo e essência.

Com o desenrolar da obra, também acompanhamos o destino de algumas companheiras de viagem da narradora, que não deixam de ser menos conflituosos e tolhidos de infortúnio. Outro aspecto digno de nota é a composição de uma linguagem metafórica, hiperbólica e carregada de antíteses ante a selva de significados encontrada pela personagem principal na imensidão dos brasis. Ainda que se enuncie como expressão da língua portuguesa entre o popular e o arcaico, surgem no impresso uma série de termos e sentenças em espanhol e latim, além dos dialetos nativos. O instrumento linguístico indígena se faz notório quando do contato da protagonista com índia Temericô, com quem desenvolve uma relação de apoio além das diferenças culturais e dificuldades comunicativas.

Oribela serve-se de uma língua plural, ainda em formação e evolução. A construção de muitos vocábulos confirma este quadro, a começar pelo título do romance, um neologismo iniciado pelo prefixo de negação “des-”, expondo a realidade purgante que caracterizava a colônia portuguesa para a personagem.

O livro de Ana Miranda, não estando a serviço da fidelidade documental, mostra que não há nenhuma verdade totalmente inconteste, mesmo em uma época marcada pelo silêncio. Empregando engenhosamente verbos no infinitivo, a autora vincula ao texto a ideia de atemporalidade, denunciando que muito daquele “desmundo” ainda precisa ser combatido.

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Referências Utilizadas:

MIRANDA, A. Desmundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
ISBN: 9788571645660

www.anamirandaliteratura.com.br

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Filmoteca: Desmundo (2003). Filme dirigido por Alain Fresnot, com Simone Spoladore, Osmar Prado e Caco Ciocler.

A premiada adaptação do livro de Ana Miranda teve o roteiro escrito em colaboração com Anna Muylaert e Sabina Anzuategui. Tal incrível produção comandada por Alain Fresnot fez uma rigorosa reconstituição do Brasil do século XVI, inclusive em relação à comunicação entre os diversos grupos sociais, retratando no filme a pluralidade de línguas existentes na colonia. Todo o elenco principal teve aulas de português arcaico para reproduzir o texto com maior fidelidade à tradução inversa feita pelo professor Helder Ferreira, da Universidade de São Paulo – USP. Interessante observar que, para a compreensão do público, o longa é acompanhado de legendas. Destaco a belíssima trilha sonora do maestro John Neschling e o excelente trabalho de Simone Spoladore como Oribela, que conseguiu com engenho e sutileza traduzir para a tela o intenso universo interno da personagem.

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