#77 Não Tive Nenhum Prazer Em Conhecê-los

Título: Não Tive Nenhum Prazer Em Conhecê-los

Autor: Evandro Affonso Ferreira

Primeira publicação: 2016

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“Posso dizer que fui apenas alguns parênteses neste longo texto cujo nome é vida.”

O escritor Evandro Affonso Ferreira é figura notável da cena contemporânea de nossas letras. Tendo trabalhado por muitos anos como redator publicitário, começou a exercitar efetivamente a arte literária quando abriu um sebo em São Paulo, pondo à venda o seu enorme acervo pessoal. A prosa inteligente e hermética deste mineiro continua agradando aos leitores e sendo reconhecida pela crítica em diversas premiações, como o famigerado Prêmio Jabuti. Seu romance Não Tive Nenhum Prazer Em Conhecê-los utiliza uma estrutura em mosaico para explorar o desencanto e a melancolia ante a proximidade da morte.

A obra é construída no encadeamento de parágrafos curtos, muitas vezes apresentados na forma de epigramas ou aforismos. O narrador, um homem de noventa anos, rememora fatos importantes de seu passado enquanto lança inquietantes indagações sobre o fazer literário entre andanças pela capital paulista. Dedicado à escrita do que viria a ser seu primeiro livro, ele tenta lidar com a velhice e a própria ideia de finitude, além do medo da loucura, da solidão e da saudade da mulher amada – “aquela que não voltará jamais”, em suas palavras.

Trata-se de uma narrativa centrada no mundo interno de um ancião entregue ao pessimismo e à desesperança, completamente tolhido de dor e insatisfação, que experimenta um intenso mergulho em recordações da infância e da juventude para vencer a amargura de uma existência vazia. Assim, passa a preencher o oco de suas horas com o lapidar das palavras no papel enquanto foge do “quarto-claustro” em que habita.

A extrema elaboração do texto de Ferreira consegue adequar-se à interessante composição em cacos, mesmo quando o emaranhamento deixa entrever notas dispersas que aparentemente não se completam ou trechos bastante parecidos. A aparência de repetição, aliás, acaba ressaltando o pulsar negativo da mente do protagonista. Todavia, este painel acarreta um ritmo de leitura mais lento, requerendo certo empenho por parte do leitor.

A maestria técnica também se evidencia através da escolha das citações literais ou não de uma enorme gama de autores, indo da antiguidade clássica ao século XIX, conferindo sustentabilidade ao caráter erudito do personagem principal. Em determinados trechos, Evandro Affonso Ferreira ainda ostenta um claro parentesco estilístico com a lírica de Manoel de Barros e Carlos Drummond de Andrade, principalmente ao explorar as possibilidades sonoras e imagéticas de suas descrições.

No fim, Não Tive Nenhum Prazer Em Conhecê-los esboça pertinentes reflexões acerca da aceitação dos próprios erros e limitações, apontando o cultivo da escrita como uma possível saída à agonia de um crepúsculo pessoal.

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Referências Utilizadas:

BOPP, R. Não tive nenhum prazer em conhecê-los. Rio de Janeiro: Record, 2016.
ISBN: 9788501084170

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4 Comentários

  1. Olha só!!! Este deu mais vontade de ler. Penso que vou seguir minha intuição – depois de ler sua postagem – e lê-lo!!! Bom domingo! Obrigado pela dica!

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  2. Evandro é sensacional. Recomendo demais “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, que está resenhado aqui: https://lombadaquadrada.com/2014/06/02/o-mendigo-que-sabia-de-cor-os-adagios-de-erasmo-de-rotterdam/

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