#76 Cravos

Título: Cravos

Autor: Julia Wähmann

Primeira publicação: 2016

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“Não é simples encontrar lugar para existências tão grandes.”

A carioca Julia Wähmann, formada em design gráfico, adentrou o universo dos livros como editora de texto. Sem demora, descobriu a verve literária e integrou um coletivo de autores independentes. A estreita relação da escritora com a dança originou Cravos, interessante narrativa fragmentada que marca sua estreia no gênero romance. O livro, completamente destinado a um interlocutor desconhecido dos leitores, evidencia uma conflituosa relação amorosa, marcada pela incomunicabilidade e inconstância.

A narradora não nomeada, ao mesmo tempo em que conta suas memórias, angústias e desejos, também assume a condição de espectadora de um desencanto eminente pelo amado. Tal mulher transforma cenas e acontecimentos em uma verdadeira história coreografada, com movimentos à primeira vista cifrados ao público, provocando a perplexidade. Repleta de elipses, a leitura assim salta rapidamente de um momento para outro, concentrando-se na agitação do Carnaval carioca para logo em seguida assinalar a melancolia chuvosa de cenários da Alemanha, por exemplo.

Nos capítulos, que constituem uma coleção de pequenos textos geralmente iniciados nas páginas ímpares, além do alguém amado a quem se dirige, ela também menciona outros personagens indicados apenas por iniciais, como O. e L. Estes amigos parecem acompanhar toda a trajetória do casal principal, seus ardentes e tristes encontros e desencontros, em um período de tempo indeterminado mesmo com a indicação pontual de certos episódios.

Alguns trechos trazem curtos diálogos em discurso direto, mas sem nenhuma pista de com quem a protagonista conversa, podendo constituir pequenos momentos efêmeros que posteriormente se mostraram importantes ao quadro reflexivo que ela tenta traçar. Além disso, algumas passagens assinalam que a própria organização das lembranças não segue uma linha certa, apresentando momentos que se intercalam, se combinam e se complementam de forma embaralhada, envolvendo a edição ou a encenação pela imaginação confessional.

É justamente essa estrutura em pedaços o maior trunfo do projeto, desafiando o leitor a tentar reconstruir a história até mesmo na pesquisa e compreensão das referências que ela abarca. As músicas, neste caso, sublinham aspectos importantes da narrativa. A trilha sonora montada por Wähmann une Gal Costa e Jards Macalé a David Bowie e Michael Jackson, oferecendo matéria para digressões ou dando o tom de algum cenário ou situação. A experiência da autora com espetáculos de dança contemporânea também se revela nas descrições das apresentações da companhia Tanztheater Wuppertal, da lendária coreógrafa alemã Pina Bausch. O título, inclusive, faz alusão à encenação de “Nelken” (“cravos” em alemão), performance em que o palco é totalmente coberto por cravos cor-de-rosa artificiais, com os bailarinos tendo de pisar em cima deles. Ao final, as flores estão amassadas ou arrancadas do piso, com novas “plantações” substituindo as velhas a cada montagem. Trata-se de uma clara metáfora à fragilidade dos relacionamentos amorosos.

Além da densidade na exposição sentimental diante dos movimentos de dança, a escritora demonstra grande habilidade na representação de imagens com incrível força plástica, como a do filhote de elefante se atirando de um trem suspenso. Através de uma tessitura do mínimo, ela concede enorme carga lírica ao escrito, desarticulando as fronteiras entre a prosa e a poesia.

Livro breve, mas não por isso menos poderoso, Cravos desenvolve a autodescoberta em consequência de uma paixão malograda, impossível em uma realidade tão caótica. Dotada de ampla engenhosidade criativa, Julia Wähmann elaborou um atraente trabalho de experimentação subjetiva, fazendo com que o leitor vivencie as abstrações de sua narradora, ajudando-a a interpretar e costurar suas recordações envoltas em afeto, lágrimas e saudade.

Conversa com Julia Wähmann sobre o processo de escrita do livro no Blog da Editora Record.

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Referências Utilizadas:

WÄHMANN, J. Cravos. Rio de Janeiro: Record, 2016.
ISBN: 9788501078537

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6 Comentários

  1. Parece interessante…

    Resposta
  2. Julia Wahmann

     /  21 de janeiro de 2017

    que alegria descobrir essa leitura tão atenta e sensível do meu livro, muito obrigada!

    Resposta
  3. maravilhoso esse livro!
    entrou para a ala dos meus preferidos. <3

    Resposta

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