#75 Cobra Norato

Título: Cobra Norato

Autor: Raul Bopp

Primeira publicação: 1931

Modalidade: Ficção/Poesia

Minha Edição: Editora José Olympio

“Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim”

O gaúcho Raul Bopp viajou por todo o Brasil assumindo os ofícios mais díspares (desde pintor de paredes até caixeiro de livraria), mas acabou se envolvendo de maneira mais expressiva com a Região Norte. Já em São Paulo e formando em Direito, fundou algumas publicações periódicas além de fazer carreira como diplomata. Acabou se aproximando do movimento modernista e ligando-se a grandes nomes da revolução artística que se instituía na década de 1920, como Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Cobra Norato, sua obra de estreia, ainda continua sendo considerada um necessário complemento ao famigerado Manifesto Antropofágico. Trata-se de um extenso poema épico-dramático em tom de rapsódia que traz como cenário a selva amazônica e todo o seu tecer mítico.

O escrito, dividido em trinta e três partes (ou cantos) elabora uma variante da lenda da Cobra Norato ou Honorato (Nhengatu da margem esquerda do rio Amazonas), criatura de gênero masculino concebida por uma índia tapuia que engravidou ao banhar-se no rio Claro. Este ser acabou amaldiçoado ao matar sua irmã gêmea Maria Caninana (que cometia toda sorte de maldades), passando a abandonar sua pele e transformar-se em um rapaz sedutor todas as noites. Ele poderia ser desencantado e permanecer na forma humana se alguém conseguisse pingar leite em sua boca e ferir sua cabeça, o fazendo sangrar.

Na versão de Bopp, o eu-lírico (talvez o próprio poeta) logo no início enlaça o pescoço da Cobra, estrangulando-a para, em seguida, se enfiar em seu couro e encarnar sua figura lendária. Ele deseja encontrar a rainha Luzia, pois pretende pedir sua filha em casamento, e parte em uma jornada pela “floresta cifrada” em direção a Belém do Pará. No caminho, cumpre uma série de missões impostas pelo Mascarão, como passar por sete mulheres brancas de ventres despovoados (vigiadas por um jacaré), entregar a sombra para o Bicho do Fundo, beber três gotas de sangue, etc. Ele ainda se depara com diversas entidades folclóricas e comunga com animais da mata, tendo de enfrentar a Cobra Grande ou Boiúna e assim chegar nas terras altas do Sem-fim, onde a serra se amontoa.

Um aspecto bastante interessante é a impressão de que o poema retrata um extenso sonho, visto que o eu-poético aparentemente inicia suas aventuras após adormecer.

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[…]

Vou visitar a rainha Luzia
Quero me casar com sua filha
– Então você tem que apagar os olhos primeiro
O sono desceu devagar pelas pálpebras pesadas
Um chão de lama rouba a força dos meus passos

(BOPP, 2016, p. 15)

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Unem-se à ideia de sonolência a aparência lúgubre da floresta e a busca metafórica por aquela que nasceu da luz (a filha de Luzia). Com isso, a experiência de leitura exige atenção apurada à singular lógica interna do livro e à vasta simbologia que ele vincula. Todavia, a linguagem simples e o léxico saboroso desenvolvem a fluidez e a atração por esse registro.

Além do impacto da estrutura fragmentada, entrecortada pelo discurso direto, os versos livres de metrificação demonstram um claro interesse pela sonoridade das expressões coloquiais, das onomatopeias, do uso do diminutivo e de termos de raiz indígena ou africana. O autor ainda explora a síncope e a grande ausência de pontuação para dar ao texto um ritmo tenso, sintético, com cortes secos semelhantes aos de cinema. Ficam claras as influencias da cultura popular nacional, das narrativas tradicionais da literatura ocidental e das ousadas propostas relacionadas às vanguardas europeias do início do século XX, se “alimentando” principalmente das ideias do Futurismo e do Surrealismo.

As vigorosas descrições evidenciam uma perspectiva urbana unida à ancestralidade cultural brasileira: o eu-lírico constantemente traduz as paisagens com que se depara através de elementos contrastantes à profusão visual da floresta, como em “Noite está bonita. / Parece envidraçada.”, com o uso de um adjetivo mais próximo à realidade cosmopolita. Há também muitas imagens eróticas, como em “Vamos passear naquelas ilhas decotadas?” ou em “Ventres da floresta gritam: / – Enche-me!”.

Essa obra emblemática faz sentir de forma vibrante um Brasil mágico ainda em formação, retratado com lirismo e a verve exótica de um escritor completamente envolvido com a efervescência artística de seu tempo.

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Referências Utilizadas:

BOPP, R. Cobra Norato. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016.
ISBN: 978850300528

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. pp. 369-370.

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