#74 A Teus Pés

Título: A Teus Pés

Autor: Ana Cristina Cesar

Primeira publicação: 1982

Modalidade: Poesia

Minha Edição: Editora Companhia das Letras (Selo Poesia de Bolso)

“Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.”

Ana Cristina Cesar, mesmo com uma literatura aparentemente muito pensada e reescrita, não tão fugaz ou feita para o descartável, esteve conectada à geração mimeógrafo justamente por não se prender à grande esfera editorial e às exigências do público, sendo considerada por muitos um dos principais nomes da nossa poesia marginal da década de 1970. A escritora carioca, também bastante conhecida pelo trabalho como tradutora, vinculava em seus versos uma linha tênue entre o ficcional e o autobiográfico. Seu único livro publicado de forma não independente, A Teus Pés, reúne o conteúdo de três compêndios lançados anteriormente: Luvas de Pelica, Correspondência Completa e Cenas de Abril.

A coletânea apresenta composições que, à primeira vista, constituem anotações fragmentadas e despropositadas, aparentemente livres de qualquer cadência ou metrificação, flertando com a prosa e a poesia tradicionais. A escritora utiliza de características marcantes de gêneros como a carta, o diário e a correspondência, traçando uma interessante reflexão sobre a intimidade e o cotidiano. A impressão é de que o leitor se torna cúmplice de seus segredos ao mesmo tempo em que também é invasor de sua privacidade, ainda que ante a encenação de várias personagens imaginárias.

A linguagem simples e o tom confessional vêm aliados ao jogo de omissões e referências, cifrando os versos e atraindo a atenção justamente pela especulação e intensa vontade de capturar seus sentidos. Um curioso detalhe é a brincadeira com o título Correspondência Completa, na verdade composta de uma única carta. O impresso original também continha a falsa indicação de uma segunda edição, instigando os bibliófilos a procurarem os exemplares de uma inventada primeira tiragem.

Além da interlocução direta com quem está lendo, Ana C. por vezes também parece se dirigir a si mesma, como que diante de um espelho, ou a um alguém com quem não precisa explicar tudo entre vírgulas, visto que este já saberia ao que ela está se referindo. É o que podemos conferir no poema ‘Samba-canção’, que muito se assemelha a uma conversa telefônica a qual só acompanhamos um lado da linha.

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Samba-canção

Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

(CESAR, 2016, p. 37)

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Esta composição faz alusão a dois importantes sambas do nosso cancioneiro, apontando para um habilidoso trabalho de manipulação semântica disfarçado de aleatoriedade: “Ta-hi (pra você gostar de mim)”, de Joubert de Carvalho, ilustre na voz de Carmen Miranda, e “Pelo Telefone”, de Ernesto dos Santos, o Donga. O eu-lírico desconstrói o amor romântico e indica a aplicação de estratégias e instrumentos de sedução do ser estimado. Outro aspecto pertinente é o arremate do poema indicar um movimento circular de retorno às linhas iniciais.

O elegante exercício poético evidencia um estilo sucinto, ferino, agudo, resultado de um notável poder de síntese e condensação. Há na coletânea também certa ironia arraigada em um humor requintado, de um sorrir discreto. Os versos ainda refletem o movimento de afirmação do feminino, refletindo o contexto cultural e social em que foram elaborados, mas não se limitando a ele. Todavia, o cerne de A Teus Pés está na dor interior e nas impressões acerca da vida urbana.

Envolto em densidade e ousadia, o fazer literário de Ana Cristina Cesar é extremamente envolvente. Por meio de uma incrível sucessão de camadas, de enganos, de falsas pistas e intensões, esta “sereia de papel”, nas palavras do amigo e poeta Armando Freitas Filho, insiste em escapar quando chegamos perto, embora deixe os cadeados de sua poesia sempre entreabertos. Seja como for, seus versos certamente permanecerão provocando, intrigando e conquistando cada vez mais leitores.

*Os versos que compõem a citação de cabeçalho são do poema ‘O Homem Público N. 1’.

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Referências Utilizadas:

CESAR, A. C. A teus pés. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. (Selo Poesia de Bolso)
ISBN: 9788535927238

www.ims.com.br/ims/explore/artista/ana-cristina-cesar

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Filmoteca: Bruta Aventura em Versos (2011). Filme dirigido por Letícia Simões.

Deixo a indicação deste excelente documentário que procurou captar a beleza e a profundidade dos escritos de Ana C. Com edição sensível, o filme intercala excertos da produção poética da carioca, trechos de entrevistas raras e depoimentos de diversos agentes que se apropriaram de sua arte através de outras linguagens, como Paulo José e Ana Kutner, que desenvolveram uma peça de teatro a partir das cartas trocadas com Armando Freitas Filho (que também é convidado do longa), Marcia Rubin, Patrícia Niedermeier e Oscar Saraiva, que elaboraram um espetáculo de dança baseado nos seus versos, e os escritores Alice Sant’Anna, Laura Liuzzi e Augusto Guimarães, que assumem a influência determinante desta importante poeta em suas composições. Destaca-se ainda a ilustre participação de Heloisa Buarque de Holanda, contando detalhes da personalidade e das publicações em livro deste ícone das nossas letras (incluindo a famosa coletânea 26 Poetas Hoje).

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9 Comentários

  1. Jorge Sasgarante

     /  16 de outubro de 2016

    Post sensacional :) \o/

    Responder
  2. Maravilhoso ☺😃

    Responder
  3. Uma escritora, no mínimo, polêmica…

    Responder
  4. Jorge Sasgarante

     /  20 de outubro de 2016

    20 de outubro, dia do poeta :) parabéns, Viana! :) muita poesia sempre e tudo mais :)

    Responder

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