#73 Até Você Saber Quem É

Título: Até Você Saber Quem É

Autor: Diogo Rosas G.

Primeira publicação: 2016

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

“A inteligência, a sensibilidade e a espiritualidade de Satã são sempre exatamente proporcionais à inteligência, à sensibilidade e à espiritualidade do indivíduo sobre quem ele está trabalhando.”

Formado em Direito, Filosofia e Tradução, Diogo Rosas G. divide-se atualmente entre o oficio de diplomata e a verve literária. Prova do talento e domínio técnico do curitibano é o primeiro romance Até Você Saber Quem É, que acompanha a gênese, ascensão e queda de um escritor para discutir a importância da descoberta de si mesmo ante o enfrentamento de demônios pessoais.

Logo no início, encontramos uma curiosa nota que evidencia o texto do livro como pertencente a outro, de título “A vida do escritor brasileiro Daniel Hauptamann, narrada por um amigo”. Nesta perspectiva, os capítulos se desenvolvem como o testemunho de Roberto que, através do registro de suas lembranças, tenta traçar, em retrospectiva, a triste biografia daquele que havia sido uma grande promessa das letras brasileiras. A sombria morte de Daniel havia despertado a curiosidade em torno de sua complicada personalidade e dos homicídios que aparentemente cometera. O relato então serviria para mostrar diversos ângulos de seu percurso profissional e privado, tendo como guia o discurso de sua primeira vítima e único sobrevivente.

A amizade surgida na adolescência, na escadaria da Universidade Federal do Paraná, estaria pautada em grande admiração e entusiasmo artístico. Todavia, Daniel é descrito, num primeiro momento, como alguém sério, intensamente frustrado, insatisfeito com o descrédito das pessoas com quem convivia e ante as implacáveis cobranças que lhe impunham. Ele odiava a faculdade de Direito para a qual havia sido empurrado e que castrava suas ambições. A cidade natal, Curitiba, também parecia sufocá-lo, enfraquecê-lo. Todavia, junto com Roberto, tornou-se tradutor e, em meio ao trabalho com documentos antigos, teve contato com o tema do mal e sua ligação com a figura do diabo, percebendo acenos da simbologia que o envolveria em diversos objetos, lugares e situações ao seu redor. Afirmando que tal elemento seria historicamente negligenciado na ficção nacional, ele decide escrever um romance que o represente de forma definitiva. Escrito em português arcaico, “Os Diálogos do Castelo” acabou se tornando um sucesso de vendas aclamado pela crítica, consagrando o protagonista como um fenômeno instantâneo, inserindo-o nos grandes círculos da literatura brasileira e mundial.

É a partir deste momento que Roberto, exercendo o cargo de agente literário do melhor amigo, passou a perceber que ele estaria se deixando afetar pelo mundo editorial e pela própria obra, se tornando taciturno, vaidoso e soberbo, sendo constantemente hostil, quando não tomado pela total indiferença. Suas oscilações bruscas de humor foram gradativamente tomando o lugar de suas conquistas, o levando a uma conduta antissocial, melancólica e altamente destrutiva.

Os acontecimentos são narrados de forma descontínua, mas com precisão, sem maiores digressões, exigindo a atenção de quem lê aos detalhes cuidadosamente encadeados por Rosas, a exemplo de determinadas falas, gestos e expressões dos personagens. A hipótese do pacto fáustico tende a rondar vários desses componentes, com o autor deixando entrever que a contemplação inicial de Daniel pelo maligno o teria induzido a querer obter dele algum benefício, como a autoafirmação.

Outro aspecto deveras relevante é o retrato social, político e cultural dos anos 1990, a começar pela ambientação na efervescente capital paranaense, terra em que figuras reais, como Paulo Leminski, encontram-se com os tipos concebidos pelo autor, também servindo para discutir o caráter mítico dos lugares de origem, atraindo e assombrando seus nativos através da memória. A atividade literária e os embates ideológicos de seus principais nomes também dão bastante verossimilhança ao narrado.

Ao final da leitura, fica evidente que Diogo Rosas G. já demonstra grande maturidade em um trabalho de intensa força criativa, delineando a procura pela identidade no equilíbrio entre o plausível e o inusitado.

Entrevista com Diogo Rosas G. sobre o processo de escrita do livro no Blog da Editora Record.

Trecho do livro destacando a influência da famigerada rixa entre os escritores Bruno Tolentino e Augusto de Campos em certo momento da trama.

____________________________________________________________

Referências Utilizadas:

ROSAS G., D. Até você saber quem é. Rio de Janeiro: Record, 2016.
ISBN: 9788501107534

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: