#71 Nunca o Nome do Menino

Título: Nunca o Nome do Menino

Autor: Estevão Azevedo

Primeira publicação: 2008

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora Record

 “Qual foi meu primeiro parágrafo?”

O potiguar Estevão Azevedo certamente merece destaque no cenário da literatura brasileira recente. Reconhecido principalmente pelos contos, ele também se faz notável no desenvolvimento criativo da narrativa longa. Seu romance de estreia, Nunca o Nome do Menino, apresenta uma narradora convencida de que é apenas a personagem de um livro de ficção, tendo seu destino guiado pelas linhas tortas de um autor desconhecido.

A trama se inicia com a mulher, uma artista plástica, contando que havia cortado o dedo mínimo da própria mão esquerda a fim de provocar algum dano à sua descrição e, por consequência, interromper a vida que estaria sendo controlada por outrem. Seu angustiante conflito interno enquanto possível ser imaginário preso às folhas de um caderno se evidencia na medida em que tem consciência de que talvez aquele ato de insubmissão não valesse de nada em vista dos subterfúgios que o seu suposto “criador” poderia utilizar para justificá-lo ou até revertê-lo. Ela demonstra-se privada da liberdade do sonhar e assolada por nebulosas e fragmentadas memórias, ao que tudo indica, forjadas ao sabor da necessidade descritiva.

No relato dos dias que se seguiram ao momento de descoberta do desprezível status ficcional, a protagonista vai revelando acontecimentos que marcaram sua trajetória até ali, nos fazendo acompanhar seu contato, na infância, com o menino do título, cujo nome nunca é revelado. Entre os capítulos que traçam seu empenho em deixar para traz a aparente existência inventada, ela também trata da descoberta do amor e do convívio com o corpo em transformação durante a passagem da puberdade, explorando ainda suas relações familiares e o envolvimento com um veterinário e um jornalista. Ademais, as idas e vindas no tempo apontam para a busca por explicações à crise presente, com a mulher tentando recompor sua identidade no retrospecto. Tentando escapar de seu porvir pré-determinado, a mulher caminha para o encontro com o provável regente de sua ventura, percebendo a intrínseca relação de dependência que haveria entre os dois.

Com todos os segredos, desejos e passos calculados, em sua conjectura, por um escritor indeciso e sem muita criatividade, a mulher demonstra forte descontentamento ante a condição “sem vontades”. No entanto, não sabemos se a protagonista consegue distinguir a realidade do fantasioso, podendo toda a narrativa ser a projeção de uma perturbação mental, mesmo com a presença da personificação de seu possível autor.

Por meio do embate entre duas épocas diferentes, Azevedo funde com habilidade duas histórias em uma, construindo um vertiginoso labirinto de paralelos repleto de referências: para embasar suas ponderações, a narradora constantemente remete a nomes como Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Jorge Luís Borges, Albert Camus, entre outros. O escritor sabe muito bem jogar com as possibilidades da leitura, da elaboração artística, do fazer inusitado, também pautando o romance em intensa metalinguagem.

No fim, Nunca o Nome do Menino desafia as fronteiras da experiência e da representação escrita, provocando a reflexão acerca do poder atribuído a autores e leitores, que experimentam “brincar de deus” na construção e reconstrução do texto literário.

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Referências Utilizadas:

AZEVEDO, E. Nunca o nome do menino. Rio de Janeiro: Record, 2006.
ISBN: 9788501077912

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2 Comentários

  1. foureaux@hotmail.com

     /  1 de setembro de 2016

    Deu vontade de ler…

    Responder

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