#70 O Noviço

Título: O Noviço

Autor: Martins Pena

Primeira publicação: 1853

Modalidade: Ficção

Minha Edição: Editora L&PM

“No mundo a fortuna é para quem sabe adquiri-la.”

Luís Carlos Martins Pena traçou um quadro vivo do convívio carioca oitocentista através de sua prolífica produção dramatúrgica. Autor preocupado com urgência de divertimento, ele ficou conhecido principalmente pelas peças de cunho humorístico. O público não cansava de aplaudir as encenações de seus roteiros teatrais, a maioria com esquema voltado para o ridículo. Todavia, chegou a assinar argumentos históricos e melodramáticos, além de alguns contos, também contribuindo para o famigerado Jornal do Comércio com textos críticos comentando a estreia de inúmeros espetáculos. Homem culto, evocou seu largo conhecimento em arquitetura, estatuária, desenho e música na composição de muitos de seus trabalhos. A comédia O Noviço foi elaborada em 1845 e montada pela primeira vez em agosto do mesmo ano, no Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro, sendo lançada em livro depois da morte do escritor. Sua narrativa apresenta uma crítica sutil às convenções do meio social burguês, marcado pela hipocrisia e falso moralismo.

Dividida em três atos, a peça centra-se na figura de Carlos, rapaz que foi enviado para a Ordem de S. Bento sem ter a menor vocação para a vida religiosa. Ele havia sido criado sob a tutela da tia Florência, mãe do pequeno Juca e da jovem Emília, por quem era apaixonado. Fragilizada devido a uma recente viuvez, a dama cedeu ao cortejo de Ambrósio, homem inescrupuloso que na verdade estava interessado na herança deixada pelo seu falecido marido. Logo na primeira cena, vemos o vigarista tentando convencer a esposa a enviar os dois filhos para o convento, assim como fizera com o sobrinho, o noviço do título. Com mais estes dois legatários fazendo o voto de pobreza, princípio base do sacerdócio, ele teria maior controle sobre a fortuna da mulher. Além disso, com a enteada tornando-se freira, a família não precisaria oferecer qualquer dote em virtude de seu casamento. Ingênua, a mulher rende-se à sua delicadeza de fala e gestos, acreditando que estaria proporcionando aos rebentos um suporte virtuoso e verdadeiramente feliz.

Contudo, Carlos permanece se rebelando contra o autoritarismo dos frades e foge do claustro, expondo a vontade de querer ser militar, podendo assim desposar a prima. Por acaso do destino, ele conhece Rosa, cearense que se envolvera com Ambrósio no passado. Tendo todos os bens vendidos pelo antigo companheiro, que partira com o dinheiro a pretexto de investimentos lucrativos, ficando desaparecido por mais de seis anos, ela chegou a considerar que ele tivesse morrido até alguém a informar de que o canalha havia casado novamente e estava habitando na Corte. Tendo conhecimento das reais intenções do malandro, o personagem principal decide ficar em seu encalço, ameaçando denunciar sua bigamia caso não desistisse de tais perniciosos planos, ao mesmo tempo em que tenta escapar dos meirinhos que o perseguem pelo subúrbio fluminense a mando do padre-mestre, com o propósito de reconduzi-lo imediatamente ao seminário. Uma hilariante troca de papeis acaba por provocar inúmeras confusões e reviravoltas na trama, evidenciando seu caráter picaresco e irônico ante os costumes e instituições da sociedade da época.

Apesar do latente maniqueísmo na construção e desenrolar do enredo, podemos perceber que o comportamento de Carlos se afasta da imagem virtuosa de um herói tradicional. O protagonista tem grande desejo de vingança e não hesita em chantagear o consorte da tia para ser liberado do noviciado, inicialmente jogando com frases ambíguas e depois mostrando uma cópia da certidão do casamento com Rosa, prova de que conhecia a história pregressa do tratante. Ele diverte-se com a aflição do aproveitador Ambrósio, de quem se aproxima pelo cinismo e enorme determinação para atingir o que pretendia.

Através de um olhar menos conservador e livre de idealizações, Martins Pena muito contribuiu para uma segura compreensão da realidade brasileira em meados do século XIX, tratando geralmente de situações e figuras do cotidiano que causam enorme empatia. Utilizando-se de uma linguagem mais coloquial e do artifício da caricatura, ele soube representar com criticidade vários problemas de sua época, satirizando a ganancia dos mais abastados, o casamento por interesse, a exploração da fé e o autoritarismo patriarcal. Não é à toa que a já clássica peça O Noviço continua sendo lida e montada até hoje, provocando boas risadas e pertinentes reflexões.

Download gratuito do livro na biblioteca digital Domínio Público

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Referências Utilizadas:

PENA, M. O noviço. São Paulo: Editora L&PM, 2000.
ISBN: 9788525406231

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6 Comentários

  1. Eduardo Lênis

     /  27 de julho de 2016

    Morria e não sabia que esse livro era uma peça de teatro. Sempre aprendendo com o blog, obg.

    Responder
    • Muito obrigado pelo carinho, Eduardo! Fico muito contente em te despertar novas perspectivas em relação à nossa querida literatura brasileira. Espero que continue acompanhando o blog. Grande abraço!

      Responder
  2. Thayanne

     /  30 de julho de 2016

    ótima resenha. parabéns

    Responder
  3. Um blogue sobre LITERATURA! Mantido por um jovem! Que coisa rara! Você está de parabéns! E… por favor… não me leve a mal. O elogio é sincero e nem de longe expressa amargura de velho… Gostei imenso, de fato!

    Responder
    • Nossa, muito obrigado mesmo pelo carinho! Acredito que literatura brasileira precisa ser ainda mais disseminada na internet e o blog é uma tentativa de contribuição para essa causa. Fico feliz demais que tenha gostado do que leu por aqui. Espero que continue acompanhando as postagens, amigo! Grande abraço!

      Responder

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